A simplicidade de um dia de domingo

Uma leve buzinada: – Ô de casa!

A mulher aparece na janela da meia porta fechada, junto ao letreiro que indica a venda de dindim e água mineral.

– Tem dindim de jerimum?

– Hoje só de maracujá e batata doce com coco.

De imediato lembrei da recomendação de uma nutricionista sobre uma bebida de proteína com batata doce e coco (o interior está evoluído assim ou será o caminho inverso do aprendizado dos antigos chegando às novas gerações?).

Os quatro ocupantes do carro pediram o dindim de batata doce com coco para experimentar.

Toda contente, D. Helena veio até nós, para ensinar a fazer o dindim de jerimum, que Henrique já tinha provado numa pedalada anterior. O marido dela veio junto. Sujeito baixinho, forte, sorriso franco de quem leva a vida no meio do mato, trabalhando cercado por uma paisagem deslumbrante, ondulações de chão e maciços de pedras.

Na frente da casa, um curral e uma placa amarela com seta preta indicando a “capela centenária”.

– O Senhor, como se chama?

– Lula é meu nome de batismo. Querem conhecer a capela do Sítio Calabouço? Ela tem mais de 100 anos.

Uma rápida olhada e meu marido vislumbrou a ladeira para chegar até o local. Imaginando uma nova trilha para o pedal com os amigos, acatou de imediato a sugestão de S. Lula.

Tomamos a direção indicada e o guia foi montado na garupa de uma moto – o veículo mais utilizado no interior em substituição aos animais de antigamente.

A capelinha surpreende pelo esmero com que é cuidada. Toda caiada, portas azuis, contornos amarelos, telhas vermelhas, um cruzeiro na frente e um cemitério nos fundos. Homenagem aos mortos de uma doença “misteriosa” lá pelos idos de 1915, época de sua construção. Pela descrição, me pareceu cólera (na fazenda do meu avô materno, em Acari, também tem um cemitério dessa época).

D. Helena me disse que a capela é em homenagem a Nossa Senhora do Carmo, mas na toalha bordada que cobre o altar está pintado: Nossa Senhora “Colseção” Sítio Calabouço Rio Grande.

Do Carmo ou Conceição, o que vale é a intenção. Não há dúvida que Nossa Senhora protege esse lugar na fronteira do Rio Grande do Norte com a Paraíba e abençoa esse casal.

Seu Lula voltou conosco no pequeno percurso entre a capela e sua casa. Nos recebeu com a fidalguia do povo do interior. Sentamos no batente que eleva a sua humilde casa sertaneja. Um rápido bate-papo com Dona Helena sobre como levar a vida na simplicidade rural.

Lula, o rapaz de vinte e dois anos, apaixonou-se pela moça mais bonita do Calabouço, nem bem formada aos dezessete anos. Casaram-se e estão juntos há quarenta e quatro anos.

Tiveram onze filhos: quatro mulheres e sete homens. Uma filha morreu de acidente e os outros estão bem vivos, espalhados pelo Brasil. Ainda restam três homens dentro de casa. Ela nos mostra a criação: perus, patos, gansos, galinha com pintinhos novos, um cachorro na corrente, cabras e bodes.

No seu terreiro, experimentos na plantação de uma macieira e duas mudas de morango. Será que vão suportar o clima da serra nordestina? Se ainda tivesse alguma filha em casa, poderia arriscar mais nas tarefas domésticas…

Indagamos como é morar com uma vista tão bonita despencando a visão ao redor da casa. Ela me disse que se acostumou, nem nota mais.

Seu Lula e Dona Helena

O semblante do casal não deixa dúvidas; a felicidade está estampada no rosto! Prometemos voltar outras vezes para compartilhar a simplicidade de um dia de domingo no interior.


Celso Fonseca – “Um dia de domingo” com a participação de Ana Carolina

Acesse também: Casa no campo, Serra de São Bento, Noite na serra, Ufa, cheguei em casa, Macambira e cajás.

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