Aero na memória

Aeroclube do Rio Grande do Norte – Foto de Jaeci Emerenciano


A lembrança chega como uma foto desbotada em preto e branco. Acho, mas não tenho certeza, que estava vestida de índia. Alguns colares, um saquinho de confetes, rolos de serpentina e uma lança de plástico – para jogar água nos foliões – completavam a fantasia. Nada de lança-perfume Rodouro, proibida desde 1961, por determinação do então Presidente Jânio Quadros.

Estávamos no início dos anos setenta e eu me preparava para ir a minha primeira matinée de carnaval. Isso mesmo, as crianças tinham direito a um baile. Uma prévia do carnaval no final da tarde, porque a noite era apenas para os adultos. O engraçado era que, nos bailes, todos circulavam no centro do salão em sentido único, girando como um grande carrossel. O Aeroclube do Rio Grande do Norte estava na última fase dos seus gloriosos dias.

Em 29 de dezembro de 1928, onde fora a residência de veraneio de Alberto Maranhão, Juvenal Lamartine – o então Presidente do Rio Grande do Norte (a denominação de governador ainda não existia) – inaugurou oficialmente o Aeroclube do Rio Grande do Norte com o pouso do avião “Blue Bird” e uma aeronave da Companhia Générale Aéropostale, que decolaram do Campo de Parnamirim. A época foi de intensa modernização da capital, com incentivo do governo do Estado à aviação aérea.

A Escola de Aviação do Aeroclube do Rio Grande do Norte foi criada em 1929. Natal entrou na rota da aviação e chegou a ser denominada de “cais da Europa”, após o voo de Jean Mermoz, que cruzou o Atlântico desde o Senegal até amerrisar no Rio Potengi, em 13 de maio de 1930. Muitos foram os voos históricos que cruzaram o Atlântico e alcançaram nossa Capital, ponto geográfico estratégico no mapa mundial.

O clube também ficou famoso por sua intensa atividade social e pelos bailes ali realizados nas décadas de 1930 a 1960. Aliás, foi em 15 de novembro de 1934, que meus avós, José Bezerra de Araújo e Yvette de Sá Bezerra, se conheceram no baile promovido pela Associação Feminina de Atletismo.

O encantamento do rapaz elegante, viajado e conservador do sertão seridoense pela moça da cultura canavieira, de ideais avançados, defensora do voto feminino que fora implantado no Estado em 1928, foi vertiginoso. Do encontro no baile, passando pelo noivado em 11 de janeiro de 1935, rapidamente chegaram ao casamento em 1º de maio de 1935.

O Aeroclube transformou-se em referência nos esportes da cidade. O tênis, o futebol mirim, o basquete e a natação movimentaram a elite da cidade nos treinos e eventos esportivos durante os anos 50 e 60. Boquinha, personagem tombado pelo clube, viveu até os seus últimos dias zelando pelo lugar.

Os associados e seus filhos praticavam a atividade esportiva e desfrutavam da intensa atividade social nas festas ali promovidas: bailes carnavalescos com “sujos” e papangus, festas juninas, apresentação de cantores nacionalmente reconhecidos, concurso de misses, festas de debutantes, matinées e soirées.

Não alcancei o apogeu dos bailes do Aeroclube, mas desfrutei do clube em épocas diversas. Na minha adolescência, frequentei a pista de patinação nos fins de semana, onde toda a moçada equilibrava-se nos patins, girava e girava ao som das músicas pop rock do momento, numa direção contínua, encontro marcado de uma geração.

Trenei tênis no América, mas participei de campeonatos nas quadras do Aero, que são utilizadas até hoje por um grupo assíduo de frequentadores. O futebol de campo, o hipismo, a natação e, mais recentemente, o beach tênis também foram e são as modalidades esportivas praticadas por seus sócios.

A sede manteve-se por muitos anos como ponto de referência da cidade, mas decaiu gradativamente nos anos 70. Antes do seu fechamento, ainda foi destaque a Toca do Chicão, restaurante e churrascaria bastante frequentado pelos natalenses. Depois da Toca, não houve mais atividades importantes até o seu fechamento.

Gira mundo, gira gigante, eis que a sede do Aeroclube movimenta Natal outra vez. A Casa Cor encontrou o espaço adequado para a mostra de arquitetura, design e paisagismo, que traz as mais recentes tendências em decoração de ambientes.

No terreno do Aeroclube não mais existe a pista de pouso, mas podemos voar um pouco na imaginação em cenários deslumbrantes e inspiradores para nossas casas ou mesmo para os ambientes de trabalho. A antiga casa de veraneio de um ex-Governador volta a ser frequentada pela população natalense, mesmo que por apenas quarenta e cinco dias da mostra.


Natal em registros históricos – Edição Marcos Euzébio Cordeiro

Acesse também: Alma renovada e Algodão doce.

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14 Comentários

  1. Maurício Bezerrapela Cariello.
    Me emocionei com a viagem nesse túnel do tempo.
    No Aeroclube ia às festas , bailes , Carnaval, e lá treinava natação pela faculdade de Medicina , disputava futebol de salão , treinava arremesso de peso e muito mais .
    Meu pai , Aldo Cariello , pertenceu à primeira turma do”breve “.
    Tem uma história que um parente conhecido por “Chico Miséria” estaria na guarita do 16RI de guarda sentinela em uma noite de Carnaval , quando passou a ronda e viu o capacete e o fuzil encostados dentro da guarita e viram ele fardado de verde pulando carnaval . Esse seu resgate cultural ímpar muito me emocionou. Só boas lembranças!

    1. Olá Maurício! É claro que aprovo seu “longo” comentário. Estou fazendo um curso fora de Natal e demoro a ter acesso à internet.
      É por demais gratificante saber que meus textos provocam ou resgatam sentimentos.
      Gostei demais de saber de mais uma peripécia de Chico Miséria.
      Não sabia que seu pai tinha conseguido o breve na Escola de Aviação do Aeroclube.
      Natal tem muitas histórias interessantes a serem resgatadas. Vou pesquisar algumas para colocá-las no blog.
      Grande abraço.

  2. Que bom saber um pouco mais sobre os prédios históricos da cidade e sua importância. Deveriam fazer essa apresentação nas escolas para que as novas gerações aprendessem a valorizar.

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