Andorinhões errantes

Essa crônica está publicada no livro Sertão, Seridó, Sentidos. Em tempo de isolamento social, sinto vontade de ser um andorinhão, percorrer o mundo sem destino, apenas voando.


Embebida pela curiosidade e pelo desafio, topo a escalada. No início, sigo seu passo firme sem muita dificuldade. À medida que a subida toma forma, o coração acelera, fazendo ecoar um batido forte, ritmado. Um tanto preocupada, diminuo a velocidade e me concentro na sua história.

O sonido do celular toca insistente, uma mão sonolenta o faz calar. Lá fora, o galo bate as asas antes de fazer ecoar seu canto madrugador. São três e meia da manhã. Antes mesmo de Pretinho levantar-se, sua mãe já está na cozinha, abanando o fogão à lenha. O cheiro forte do café desperta os sentidos. Ele alimenta-se apressadamente, guarda o almoço e a água no bisaco, apanha a chave da porta e sai para mais um dia de labuta.

A cruviana apanha-o de jeito, mas logo a subida ajuda a esquentá-lo. Ainda no escuro, segue o caminho traçado na memória. Atravessa o cercado, cruza o rio e logo está no sopé da serra. A chinela de borracha estala no passo apressado, para aproveitar a ausência do sol fustigante e adiantar o trabalho.

A subida é íngreme. São aproximadamente quinhentos metros de altura, que se duplicam diante do caminho sinuoso. No homem comum, o esforço acelera sobremaneira os batimentos cardíacos. Não é o seu caso; seu corpo está habituado ao esforço.

Até o meio do trajeto, a terra úmida pelo orvalho amortece a pisada. São quatro e meia da manhã e a barra começa a quebrar, favorecendo a visão. Dali em diante, as pedras formam uma escada natural. Em certos locais, a passagem estreita-se, o desnível aumenta, o grau de dificuldade acentua-se.

Nada disso é empecilho. Ainda adolescente, ele aprendeu com o pai, que aprendeu com o avô, a escalar o Bico da Arara. Em apenas quinze minutos, chega ao lugar onde as andorinhas pernoitam durante oito meses do ano.

Bico da Arara – Acari/RN

A solidez da rocha fornece um abrigo espetacular. Um penhasco de cem metros de altura, com o cume em formato de bico envergado, reproduzindo a ave colorida. Mas em pleno sertão do Rio Grande do Norte, são as andorinhas escuras de gola branca que utilizam a furna para descansar na escuridão.

Os pássaros são tantos, que o tempo do pernoite é suficiente para fornecer quilos e quilos de estrume. Alimentadas dos insetos da região, as andorinhas estercam um adubo precioso, rico em nitrogênio, fósforo e potássio. Aproveitando a formação do lugar, construiu-se um depósito de paredes de pedras aprumadas.

A luz vai tomando o dia, quando Pretinho abre a porta central. Como um vaqueiro aboiando para o gado, ele embrenha-se por entre a fenda que leva à furna principal, emitindo um som particular, saudando as andorinhas que ainda aguardam a vez para passar pela fresta estreita e ganhar os céus.

Sua familiaridade com os pássaros é tamanha que chega a apanhá-los com as mãos. A envergadura das asas é impressionante: de uma ponta a outra, atinge até quarenta e sete centímetros, permitindo vôos continentais. Daí o nome de andorinhões – Streptoprocne biscutata. A desproporção entre as asas e o corpo é tanta, que a ave não se põe em pé.  Dorme agarrada à rocha com suas fortes unhas, feito morcego. Para alçar voo, aproveita o embalo ao soltar-se da pedra.

Quando o calor aumenta, o trabalhador pausa para o almoço e o descanso. O cansaço embala o cochilo do meio dia. Nesse momento, a vista estonteante ajuda a repousar. Por entre a porta do depósito, o ângulo é limitado, mas do lado de fora, o horizonte de serras intermináveis leva-o ao infinito.

Sonhos permitem voos largos em terras distantes. São tantos os pássaros salpicando de preto o azul imaculado, que embaralham a visão. Rapidamente, o bando chega até o oceano. O mar corre como cheia de rio, inundando o sertão. A água sobe numa velocidade inalcançável. As asas não dão conta, falta perna para chegar ao topo. No último minuto, a salvação esbarra numa brecha escura. Pretinho desperta suado, agoniado.

À tardinha, retornam as primeiras aves. Rodopiam e passam aos pares pela fenda estreita. Aos poucos, o bando vai aumentando, sobrevoando o monte de pedras, enquanto esperam a oportunidade para entrar. São milhares, impossível quantificá-las. O céu fica malhado, vai ter muito esterco no dia seguinte.

A última descida do dia permite desfrutar a paisagem. Não há pressa para chegar lá embaixo, o fim da tarde traz uma calma alentadora, preparando-o para um descanso merecido. Em outubro, os andorinhões errantes partem em debandada, deixando saudoso o companheiro. Seguem para um destino ignorado, retornando em fevereiro para mais um pouso seguro no bico imponente.


Padre Fábio de Melo e Dominguinhos – A Vida do Viajante (Luiz Gonzaga)

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