No Rastro das Águas – Capítulo 6

(…) Enquanto esperava pelo almoço, sentado no tamborete na porta de casa, observando o sol castigando a paisagem e acompanhado de seu fiel cachorro, Tano viu Antônio Bezerra aproximando-se ligeiro, com um sorriso nos lábios. Conhecendo aquela cara desde menino e deduzindo do que se tratava, esboçou um certo ar de sabedoria. Segurou os estribos e as rédeas do cavalo, enquanto Antônio apeava. Na cumplicidade de experiência e instinto, trataram logo de organizar as tarefas dos próximos meses, na esperança de um ano regular de inverno. Sinhá Cândida abanava o ferro a carvão, esperando as brasas esquentarem para passar a […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 5

(…) Antônio Bezerra percebera esta realidade. Na expectativa de recuperar as perdas provenientes dos dois anos consecutivos de seca, já planejava a poda e limpa dos campos. Retiraria o gado dos algodoeiros e sustentá-lo-ia, até chover, com o cardeiro, vegetação resistente à seca que era encontrada com frequência na caatinga; bastava apenas cortá-lo e queimá-lo, para que os espinhos não machucassem as reses. Chegando à fazenda, apeou ligeiro do cavalo e foi tratar com Tano. Nem bem o galo cantara, Salustiano já estava de pé. O chuvisco da madrugada despertara seus ânimos. Levantou-se mais cedo para a ordenha, tomou o […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 4

(…) Aos cafus, uma rodada de coalhada, adoçada com raspas de rapadura, encerrava o dia. O silêncio da escuridão era quebrado, ora pelo chocalho do gado, ora pelo pio da coruja. Era um momento revelador de quanto o homem rural estava interligado à natureza e de quanto o progresso iria distanciá-lo de suas origens. À medida que o mês de dezembro se desenrolava, mais ansiosos ficavam os seridoenses. Os sentidos eram aguçados à procura dos mínimos sinais exalados pela fauna, flora, ventos ou astros. Em dias de feira, quando os fazendeiros se encontravam na cidade, qualquer viajante era logo indagado, […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 3

Já se passavam três meses desde o nascimento. A vida transcorria normalmente na fazenda. Sem energia elétrica, o sol encarregava-se de determinar o horário das tarefas diárias. Acordava-se bem cedo. Às três horas da manhã, o silêncio da madrugada era quebrado pelos primeiros mugidos dos bezerros que clamavam por um pouco de leite, não sem antes escutarem o galo que desde a uma hora da madrugada fazia seu primeiro canto ecoar pelo terreiro. Antônio Bezerra levantava-se para comandar o trabalho de ordenha no curral, pois como todo proprietário de terra da época, participava diretamente das atividades da fazenda, junto com […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 2

Há dias, Ritinha vinha sentindo algo diferente, porém não sabia se era o peso da barriga ou a aproximação do momento tão esperado, já que por suas contas não chegaria à segunda quinzena de agosto. As últimas providências tinham sido tomadas: o enxoval estava lavado, passado, desinfetado no braseiro com alfazema, guardado no baú junto à cama, deixando um cheiro agradável no quarto. A parteira estava de sobreaviso e as galinhas trancadas, sendo cevadas para o mês do resguardo. Enquanto verificava cada detalhe em sua mente, sentiu uma fisgada no pé da barriga, não era a primeira nas últimas horas. […]

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Caminho da infância

O caminho encurtando e o frio na boca do estômago acentuando-se. Silenciosamente, temia não reconhecer o traçado tantas vezes percorrido na infância. Consciência pesada pelos anos de ausência. Procurei não transparecer a incerteza quanto ao momento certo de largar o asfalto, tomar a estrada de barro e seguir pouco menos de dois quilômetros, na terra seca batida, até chegar à fazenda dos meus avós maternos. A paisagem alimenta a alma saudosa. De um lado e de outro, a caatinga entrelaçada, despida de folhagem. Nem a tristeza da estiagem afasta a alegria do retorno. Céu anil desanuviando a rocha no alto […]

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No Rastro das Águas – Capítulo 1

PARTE UM: ENTERRANDO O UMBIGO NO MOURÃO DA PORTEIRA (1908-1935) Faíscas saltavam das brasas; labaredas eram atiçadas ao abano; a lenha estalava espalhando cinzas ao redor do fogão; terrinas eram trocadas num vai-e-vem ligeiro, que refletia a agitação da casa da fazenda. Não era pra menos, o primeiro filho de Antônio Bezerra estava a caminho. Ritinha esforçava-se, com a ajuda da parteira, para dar à luz a seu primogênito. Por pouco não dera à luz no mês de Santana; teria sido uma graça, mas o importante era nascer com saúde. Aquele não tinha sido um bom ano de inverno; na […]

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Fé inabalável

Novembro escaldante, final de tarde de uma terça-feira. Aos pés do monte, nenhum movimento de peregrinos. Barracas desarmadas, apenas uma lojinha aberta, expondo os artigos religiosos para as almas agraciadas que habitam o lugar. As demais permanecem fechadas, aguardando a chegada dos fiéis em romaria, especialmente na Semana Santa. Na quietude, subo os degraus e as rampas inclinadas, tentando assimilar a aura sagrada do lugar. Ao longo do trajeto, as estações da Via Sacra, doações das famílias de Carnaúba dos Dantas. As imagens sagradas são adornadas por flores coloridas de plástico, únicas capazes de resistir ao clima seco da região. […]

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