Caatinga em brasas

As horas do final da tarde não são somente preciosas para a fotografia, mas essenciais para fugir do calor medonho do sol a pino. Enquanto tiravam a madorna após o almoço, peguei o carro e me embrenhei na caatinga.

Ao longo do trajeto, a vegetação desnuda. Juremas entrelaçadas, umbuzeiros centenários, catingueiras e faveleiros; nada de folhas, nada de verde, somente troncos encarvoados, tostados pelo sol abrasador. O cinza imperando sobre um solo poeirento, recheado de galhos e folhas secas.

Caules e troncos em prece, apelando para um céu límpido, sem nuvens, sem esperança. A estiagem deste ano castigou impiedosamente. Do pouco verde que restou, algarobas sombreando o rastro de riacho seco, arenoso e pedregoso.

Intocáveis e inatingíveis, alguns xiquexiques, mandacarus e facheiros padeciam, perdendo, vagarosamente, o verde em troca do cinza, enquanto as bromélias resistentes embelezavam a paisagem, realçadas pelos últimos raios de luz.

O sol baixando destacava os contornos de uma região quase deserta. O voo dos urubus denunciava mais um ser abatido pelas intempéries da natureza. Não ouvi um chocalho sequer.

Muitos perderam o rebanho para o abate precoce, para o escape em outras paragens ou para própria escassez de alimento. As poucas reses que restaram passaram a comer presas nos currais, escapando com a ração medida e contada, sacrifício para os criadores. Nenhum roçado nos campos agricultáveis; somente resquícios do milho que não vingou.

Com o entardecer, retornei ao conforto da casa sertaneja para apreciar os derradeiros fachos do sol, destacando galhos secos da caatinga, espinhos eretos, contornos de serras sem cor, apenas o laranja abrasador inundando o Sertão, antes de a escuridão revelar o céu magnificamente estrelado.

No dia seguinte, levantei cedo e entrei no mato a pé, sozinha, sem a armadura do Sertão, apenas com a câmera e o olhar estupefato.

No mundo policromático, apenas três cores em meu entorno: o céu anil, a vegetação cinzenta, o solo ocre. Pisando sobre a terra seca sem o calçado adequado, logo senti os espinhos traspassando a borracha do chinelo.

Sentei sobre o lajedo e retirei-os, um a um, para poder continuar a caminhada, perscrutando cada ruído, ouvidos atentos a cada som emitido naquela imensidão cinzenta.

Calor amenizado pela bruma leve das primeiras horas do dia, soprando os últimos hálitos da cruviana da madrugada. Galhos desfolhados balançando suavemente, rangendo lamentos de agonia.

Tentava, avidamente, registrar o ângulo mais capaz de transmitir aquele lamento. Para muitos, a visão da morte. Para mim, mais do que nunca, a marca da resistência.

Imóvel, com todos os sentidos alertas, vi surgir, no meio do serrote de pedras, o mocó, roedor em extinção na caatinga. Não muito distante, assobios agudos denunciavam um bando de saguis no topo dos troncos desnudos.  Sob as folhas secas, o calango correndo assustado.

Tico-tico-rei, cravina, primavera, maria-fita, batalha, são muitas as denominações, mas precisei pesquisar junto a ornitólogo a identificação do passarinho cinzento, pousado nos galhos secos, destacando-se por sua crista vermelha e preta, emitindo um canto miúdo.

Trabalhando incansável na coleta de pequenos garranchos, a casaca de couro preparava o seu ninho. O galo de campina, com sua cabeça encarnada, tingia de cor viva os céus do Seridó. A natureza, em todo seu esplendor, resistia.


Existirmos – Ricardo Kmentt

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