Causos e foquilores

Gerdo Bezerra de Faria mergulhou nas histórias que assimilou ao longo da vida e lançou, em 2004, o livro “50 Anos de Causos”, brindando os leitores com causos divertidos e folclóricos, coisa de quem adora jogar conversa fora, está sempre de ouvidos atentos e sabe contar os acontecimentos com o humor inteligente e autêntico do sertanejo.

Essa semana, ele repete a dose e lança, em Natal, o livro “Causos e Foquilores”, trazendo novas histórias e personagens irreverentes. Quero compartilhar com os leitores um pedacinho dos seus causos.

Gerdo Bezerra de Faria

PROCURANDO O CEO

Depois que voltei a militar na política de classe, fui indicado por meu grupo a representar o estado do Rio Grande do Norte junto ao Conselho Federal de Odontologia, o que muito me orgulhou, já que é o órgão maior da classe odontológica (minha classe) e o nosso pequeno estado necessita por demais ter um representante lá para ajudar o presidente do Conselho Regional na sua administração. Nos 43 três anos de existência o Rio Grande do Norte só teve até agora quatro representantes.

(…)

Foi numa das reuniões do Conselho Federal de Odontologia que conheci Gilberto Pucca. Gilberto é dentista e hoje responde pela Coordenação Nacional do Programa de Saúde Bucal do atual governo. Alheio ao alto e importante cargo que ocupa, Gilberto é uma pessoa simples, educada, acessível a qualquer um e pronta para ajudar a classe dentro de sua alçada. Sabendo disso, aproveitei outros encontros que tive com ele para tentar efetuar um convênio para conseguir equipamentos para o novo curso de Odontologia recém criado pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, de onde eu estava coordenador.

(…)

Devido a este convênio, toda vez que me encontrava com Gilberto Pucca, procurava conversar sobre o andamento do nosso pedido, e ele, sempre solícito, mostrava o que tinha sido feito errado para a UERN consertar, mostrava os melhores períodos para firmar o convênio, alertava para prazos e por ai afora. No final nem deu certo. Mas a gente conversava outras coisas também, e foi num papo descontraído em um hotel de Bonito em Mato Grosso do Sul, que ele me contou este causo contado a ele por duas freiras de uma cidade do interior de São Paulo.

O governo federal vem atuando muito no setor de saúde bucal, como nenhum outro atuou, criando vários programas voltados para o atendimento odontológico à população, como o Programa de Saúde Familiar, onde cada equipe tem um cirurgião-dentista, o Brasil sorridente, e a criação dos Centros de Especialidades Odontológicas. Isto tudo sob a coordenação do Programa Nacional de Saúde Bucal.

O brasileiro talvez seja o povo de maior poder de síntese do mundo e aqui nada é ao pé da letra, os nomes próprios são logo abreviados; as pessoas são assim: José é Zé, Rafael é Rafa, Carolina é Carol, as cidades: Florianópolis é Froripa, Belo Horizonte é Belô, os estádios de futebol logo ganham apelidos pequenos. Quem vai chamar o Machadão, em Natal, de Estádio João Cláudio de Vasconcelos Machado, o Castelão de Fortaleza de Plácido Castelo, o Maracanã de Estádio Mário Filho… e por conta disso, nossa vida cotidiana vive povoada de siglas; ninguém procura o Departamento Nacional de Transito, mas sim o DETRAN, ninguém paga Imposto Sobre Serviço, mas sim ISS e o nosso falado Programa de Saúde Familiar, logo virou PSF e os Centros de Especialidades Odontológicas de CEO.

Pois foi numa inauguração de uma nova unidade do CEO numa cidade do interior de São Paulo que Gilberto Pucca foi convidado. O CEO ia ficar numa Unidade de Saúde onde a administração era feita por religiosas. Elas organizaram uma pequena recepção compatível com o cuidado financeiro que as religiosas sempre têm, convidaram algumas autoridades civis da cidade e religiosas locais e das cidades vizinhas.

No dia da inauguração, duas freirinhas de uma cidade próxima viajaram de ônibus para prestigiar a inauguração. Desembarcaram, e a pé mesmo, saíram procurando o local da inauguração. Como elas não conheciam a cidade, achavam que, por ser pequena, facilmente elas encontrariam o local. E saíram de sua cidade de origem sem nenhum roteiro de como encontrar o local. Andaram para lá e para cá e não viram nada que parecesse um posto de saúde ou uma instituição religiosa. Vendo a hora marcada para inauguração se aproximando, resolveram perguntar. Tinha um cidadão sozinho em uma praça sentado em um banco e elas se dirigiram a ele:

– Moço, por favor, o senhor sabe onde é que fica o CEO daqui?

O cidadão levantou a vista e vendo duas freiras fazendo aquela pergunta a ele pareceu não acreditar, e para ter certeza, em vez de responder, perguntou também:

– Onde é o que?
– O CEO, o senhor sabe onde é o CEO aqui?

O homem agora tinha certeza que tinha entendido o que as freiras estavam perguntando, e se achando sem a menor culpa de não saber responder, largou para cima das freirinhas:

– Olhe, vocês que são freiras não sabem onde é o CÉU, como é que eu vou saber?

O livro será lançado no dia 28/08/2019, na Academia Norteriograndense de Odontologia, e estará à venda na Revistaria Cultural do Nordestão e na Cooperativa Cultural da UFRN.

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1 comentário

  1. São ótimos esses causos, quê se perpetuam e vão ganhando floreios à medida quê contados/repassados.
    A sabedoria popular é muito divertida.
    Mais uma boa recomendação sua Elzinha.

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