Cidade marinha

Natal/RN - Via Costeira

A vastidão oceânica delimita o seu entorno. Em grande parte do ano, predomina o verde esmeralda, quando os ventos descansam e a brisa marinha sopra delicadamente a lhe refrescar. Nos meses de agosto, setembro e quiçá outubro, os ventos deixam as águas baldeadas e o verde surge desbotado, como açudes do sertão, que lhe despejam o sobejo no estuário do Potengi.

Nasceu junto ao rio – cidade presépio – onde seus prédios históricos, encardidos, escorrem a ação do tempo, carecendo de reparações urgentes. Tem o Potengi como divisor das zonas norte e sul, limitada ao leste pelas praias da Redinha, do Forte, do Meio, dos Artistas, Ponta do Morcego, Areia Preta, todas elas banhadas pelo Atlântico.

Seguindo-se os contornos da Via Costeira, surge a vista estonteante de Ponta Negra, com o Morro do Careca derramando-se em duna branca, porque o que é belo nunca deixa de surpreender e encanta sempre a cada novo olhar.

Natal acolhedora foi terra fértil para os indígenas, africanos, portugueses, holandeses. Miscigenados sob o calor de sua luminosidade permanente, deram origem a sua gente, sem rótulos, cor ou classificação, como querem impor os questionários censitários.

Final de outubro, começo de novembro, caibreiras frondosas sobressaem-se amarelas em flor. No Parque das Dunas, seus ipês pincelam de roxo a vista daqueles que detêm a sensibilidade de olhar por sobre o emaranhado de fios que poluem visualmente a cidade, mas trazem energia e comunicação a seus habitantes.

Em dias de vento poente, o Potengi sopra seu hálito manguezal na direção inversa, espalhando o cheiro enxofre na certeza da chuva, que sacia a sede dos fícus, castanholas, acácias, mangueiras, cajueiros, jambeiros, coqueiros, goiabeiras e tantas outras fruteiras de nossos quintais.

E os quintais são cada vez mais escassos, dando lugar à cidade vertical, concretude geométrica, pipocando edifícios (uma autêntica SimCity), mesclando formas, tamanhos e sombras variadas. Faixas brancas para pedestres, ciclovias delimitadas em linhas vermelhas, ônibus seguindo as azuis. Triângulos vermelhos cedem passagem em rotatórias e sinuosos viadutos encurtam caminhos.

E o ritmo acelerando. Carros numerosos e transportes públicos lotados comprimidos em vias lineares. Embora um país tropical, predominam automóveis de cores sóbrias, o branco, o preto e o cinza.

Cidade em movimento no fluxo e contra fluxo do horário, parecendo maré sob a influência da lua, que avança, recua e morre a cada ciclo, para renascer crescente, banhando e refrescando os seus moradores quarados pelo sol permanente.


Homero Homem – trecho do poema “Cidade do Natal“.

A praia com sua saia
de cambraia
a cidade com seu platô de vento
o verão com o seu calção
de brisa

Zila Mamede – trecho do poema “Soneto da fúria inútil” .

o mar avança, avança
armado de mil braços, cem mil dedos
buscando intimidar a praia mansa:
tão quieta, livre, nela não há medos

Newton Navarro – fragmento do trecho “Do outro lado do rio, entre os morros”.

o recurvo das dunas
a horizontal dos horizontes marinhos
a vertical dos coqueiros e do pino do sol
cores e traços ao natural
traçados pela mão de Deus

Acesse também: Noite estrelada e Aero na memória.

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8 comments

    1. A minha felicidade é compartilhar com você e todos os leitores o que o meu olhar consegue captar e transcrever para o papel, no caso, a tela. Beijo grande!

    2. Plantei Raízes em Natal há quase 48 anos. Pude então, acompanhar o crescimento da cidade que vc descreve tão bem! Confesso, porém, que sinto saudades da tranquilidade dos anos 70!!!

      1. Oi Leila! Todos temos saudades da Natal dos anos 70, tão tranquila, arejada e agradável. Infelizmente o progresso nem sempre traz coisas boas, mas o mar a nos banhar, por si só, produz cenas únicas.

  1. Você vai falando acompanhando seu olhar,e oleitor vai caminhando preso a beleza do texto. E aí tudo fica na memória d da gente . Ou belezura!
    “Te amo te”

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