Colcha de retalhos, relíquia que conta histórias

Abri a sacola com curiosidade, de olho no presente: uma colcha de retalhos da mais pura cambraia de linho em tons pasteis; uma raridade nos dias de hoje. Feita com muito esmero em tempo de confinamento.

Logo me veio à lembrança os lençóis de taco (outro nome para o mesmo objeto), que Vovó Aliete nos presenteava, produzidos caprichosamente em Acari.

Mãos habilidosas do nosso Seridó, preservando o costume do aproveitamento das sobras de tecidos, porque na escassez de antigamente não havia desperdício, tudo era aproveitado. O nome disso hoje é sustentabilidade.

Volto aos anos 90 e lembro do filme “Colchas de Retalhos”, que conta a história da jovem Finn. Sem inspiração para concluir sua tese de mestrado, ela vai para a casa da avó e da tia, no interior, onde um grupo de mulheres reúne-se regularmente para fazer quilt (a versão americana da colcha de taco acolchoada).

Enquanto conversavam, mulheres fortes e destemidas costuravam, à mão, seus sentimentos e envolvimentos. Cada colcha, uma história.

Numa época distante, as mulheres viviam reclusas em casa, só tinham permissão para ir à missa ou reunir-se para trabalhos manuais. Os homens achavam que o trabalho manual afastaria maus pensamentos e tentações.

Nessas reuniões, elas usaram a sabedoria para aprender a matemática de somar os pontos, dividir as linhas, contar as regras, criar os filhos, multiplicar a voz e mudar o mundo. Nos dias de hoje, usam a habilidade manual por opção, não por imposição.

E, por opção, minha sogra e sua prima/irmã foram passar o isolamento social no interior. Ao contrário de Penélope – que na mitologia grega usou da astúcia para bordar à vista de todos durante o dia e, à noite, desmanchar o bordado, despistando novos pretendentes para aguardar a volta de Ulisses da Guerra de Troia –, elas aproveitaram o tempo para criar bastante.

Mãos, tesouras, conversas e máquinas de costura transformando tecidos em peças de vestuário, utilitários, bordados… Uma colcha para cada um dos integrantes de uma família numerosa aparar o sono e aninhar os sonhos. Se for no balanço da rede, melhor ainda.

Pendurada no varal, minha colcha recebe os raios do sol, enquanto o rio segue seu curso, fluindo histórias em seu leito.

Para a geração mais nova, fica o ensinamento. As colchas de retalhos contam histórias, sentimentos e conquistas das mulheres ao longo dos anos. Recebo a minha com gratidão, uma relíquia que será usada e guardada com muito carinho.


Cris Pizzimenti

SOU FEITA DE RETALHOS

Sou feita de retalhos.
Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma.
Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou.
Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior…
Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade…
Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa.
E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se
tornando parte da gente também.
E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados…
Haverá sempre um retalho novo para adicionar à alma.
Portanto, obrigada a cada um de vocês, que fazem parte da minha vida e que me permitem engrandecer minha história com os retalhos deixados em mim.
Que eu também possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos e que eles possam ser parte das suas histórias.
E que assim, de retalho em retalho, possamos nos tornar, um dia, um imenso bordado de “nós”.

Sinopse do filme “Colcha de Retalhos”

Acesse também: No balanço da rede, Aconchego, 102 anos de vontade própria e Voos largos.

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