Desabrochar da primavera

Os sanhaçus, que andavam meio sumidos, amanheceram cantando em meu jasmim. Ontem, numa caminhada matinal, ao procurar a visão do infinito, meu olhar pousou no chão, naquele imenso monólito. Sem qualquer vestígio de terra, numa fresta da pedra, uns galhos ressequidos, porém bem vivos, esparramavam floradas de amarelo pelo chão.

A primavera desabrochou!

Bem-vindos à estação das flores! A primavera inicia quando o Sol corta o equador celeste, fazendo com que o dia e a noite tenham igual duração. É o chamado equinócio. Em terras tropicais, não temos aquele choque entre o inverno e a primavera, porque a transição das estações é bem mais sutil. No entanto, a natureza encarrega-se de dar os sinais de renascimento.

É época de florescer, deixar fluir o que há de melhor em cada ser, reproduzir alegria, luz, cor. As sombras do inverno devem ser deixadas para trás. O tempo de hibernação, introspecção e recolhimento cumpriu o seu papel. Agora é sair para o mundo e deixar as energias positivas aflorarem.

Tempo de criação, de recomeço, de reinvenção, de renovação. O arbusto ressequido brotando sobre a pedra inóspita flores amarelas traduz bem esse sentimento. De repente, lembro-me das obras de Martin Whatson.

Descobri esse artista de rua norueguês pelo Instagram. Vi algumas pessoas postando fotos da obra Behain The Curtain (Por trás da cortina). Fui navegar e descobri na apresentação de sua obra a essência do seu trabalho: “Fiel à forma, nenhum espaço cinza permanece cinza por muito tempo na presença de Martin. Imergindo completamente ou embelezando um detalhe, as imagens desaparecem sob traços expressivos pintados com spray de cores e texturas variadas”.

Martin Whatson – Behind The Curtain – foto capturada no site do artista
Martin Whatson – Pull – foto capturada no site do artista
Martin Whatson – Beyond The Wall – foto capturada na internet

A força do homem para abrir a cortina, a delicadeza da mão ou a curiosidade da criança são trilhas a seguir. Em qualquer direção, temos que lutar para trazer mais cores ao mundo de hoje. O caminho certo passa pela educação.

Educação pela leitura, educação pelo olhar, educação pela estética, educação pela arte. Cada um assumindo o papel de transformar a sociedade em um mundo melhor, como a natureza que recebe a influência da luz para transbordar flores, cores e vida a cada ano.


Cecília Meireles

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul.

Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra.

Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Acesse também: Por que não falar de tulipas? e Voos largos.


The Beatles – Here Comes de Sun (Pail Lennon)

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