Desafio da serra

Vista da Serra de São Bento

Juntando o útil ao agradável. É assim que me sinto quando saio para fotografar competições de ciclismo. Sigo as trilhas devidamente mapeadas para os competidores, mas o olho de fotógrafa da natureza perde o foco quando se depara com o verde esparramado no caminho.

Ano passado, contornei a Pedra da Boca, em Araruna/PB, mas parei tanto no trajeto, clicando a paisagem do inverno sertanejo, que perdi os ciclistas no percurso. Quando me dei conta, tive que tomar atalho até o ponto de apoio para fazer o dever de fotógrafa de mulher e mãe de ciclista.

Esse fim de semana, a história se repetiu, mas dessa vez o marido estava na direção do carro, tinha antecipado o percurso da prova como treino no dia anterior e assistia à competição de camarote. Conhecedor do terreno, escolheu a dedo o local para eu fotografar os competidores, entre eles o meu filho.

A parada técnica foi no alto da ladeira mais difícil do “Desafio das Serras”, etapa de Serra de São Bento/RN, onde o esforço descomunal dos atletas rendeu palavras de incentivo da pequena plateia em meio ao desespero estampado nos rostos de ciclistas exaustos.

O marido e um amigo ficaram no topo da serra, rindo à toa, porque no dia anterior um deles tinha “quebrado” ao tentar subir a mesma ladeira. Naquele momento, queriam apenas testemunhar e compartilhar o sofrimento dos competidores.

Eu desci a ladeira a pé em busca do melhor ângulo, tendo a paisagem deslumbrante como pano de fundo. Parei no ponto exato onde o barro encontrava o calçamento, obra de algum gestor que utilizou o paralelepípedo para facilitar o tráfego na ladeira íngreme.

Sentada no chão, sozinha, da maneira que gosto de fotografar, máquina em punho, aguardando o pelotão da frente, ouvia o som da natureza, lembrando dos fotógrafos da vida selvagem, que esperam horas a fio pelo momento perfeito para captar os movimentos dos animais.

O primeiro a passar vinha sozinho, depois outro e mais outro. A ausência de pelotões indicava o nível de dificuldade da prova. Fui clicando os ciclistas no início da subida. Rostos concentrados, respirações ofegantes, puxando ar pela boca e nariz, músculos contraídos, trocas de marcha para facilitar o trabalho das pernas, coração em ritmo forte, olhar focado no chão, sem poder apreciar a beleza do lugar.

Atenta aos que despontavam no início da subida, me chamou a atenção um barulho de ferro. O competidor, com o pneu no pescoço, empurrava a bicicleta no aro. Parou onde eu estava e rapidamente passou a extrair folhas do mato para encher o pneu rasgado, recolocá-lo no lugar e seguir em frente. Disse que terminaria a prova de qualquer jeito, puro espírito esportivo. Gabriell terminou em terceiro lugar na sua categoria.

Decido voltar ao ponto alto da ladeira. Ao contrário do início da subida, testemunhei vários atletas empurrando a bicicleta, outros soltavam palavrões impublicáveis, alguns questionavam o porquê e o para quê de tanto sacrifício, as câimbras levaram um ao chão, as “cobrinhas” viravam “embuás”.

Meu filho passou bem ao lado da mãe orgulhosa e chegou ao topo da ladeira com gás para finalizar a prova. Por outro lado, um ciclista gaiato chegou até nós, resumindo o estado do corpo: “nunca pensei em virar objeto descartável, mas depois dessa ladeira, pode jogar no lixo porque não presto mais para nada.

As mulheres ciclistas começaram a aparecer, subindo firme, mostrando força e garra, a exemplo de Heloísa, que fez das tripas coração e chegou ao topo, deixando alguns marmanjos empurrando a bicicleta.

O alívio para os competidores era que daquele ponto em diante a trilha seria bem mais fácil. Testemunhei a superação de vários atletas, libertando seus gigantes – como dizia o slogan da prova – satisfeitos com a força do corpo e da mente. Vencedores em mais um desafio!


Desafio das Serras: www.desafiodasserras.com/2019/


Get Lost in the Moment – Outside TV

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Motorista de ciclista

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12 comments

  1. Meu filho, querido, o ciclista que afirmou que chegaria ao fim da competição.
    E chegou sim, terceiro lugar.
    Orgulho, admiração e amor, pelo filho que Deus me Deus.

    1. Olá Jesana, a determinação do seu filho é digna de ser aplaudida!!! O verdadeiro espírito esportivo. Com certeza, deve ser um filho admirável. Parabéns pelo terceiro lugar. Muito orgulho mesmo.

  2. Viajei na sua escrita pela estrada da Serra de São Bento junto à tantos ciclistas e seus desafios. Você descreveu perfeitamente o que a natureza e aqueles atletas nos transmite . Muito bom poder se transportar através do seu texto para algo que vivi!!!! Viva o esporte e as mulheres dos ciclistas, kkkk

    1. Bom dia Fabiana! Faça do texto a inspiração para retornar à serra, ou quem sabe enfrentar o “Desafio das Serras” na corrida. Muito obrigada e viva o esporte e as mulheres!

  3. Elzinha, muitooooo bom!
    As suas crônicas continuam deliciosas. O prazer com que vc escreve, a leveza, o lirismo e a observação perspicaz, se traduzem numa leitura maravilhosa, nos transportando inteiramente ao local onde elas se passam…
    Parabéns!!!

  4. Olá. Boa noite. Me chamo gabriell.
    De Parnamirim. Sou o rapaz que colocou mato no pneu.
    Primeiramente quero agradecer a atenção dada as provas e aos imprevistos que sempre aparecem.
    E segundo. Quero parabenizar pelo belo texto e por suas belas fotos.

    1. Oi Paulo, são mais de dez anos acompanhando o marido ciclista e o filho, que começou cedo com Jedna no CEI. A natureza ajuda a compor o visual. Muito obrigada e continue a navegar pelo blog. Outras crônicas virão.

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