Dimas Ferreira, o poeta das pedras

De martelar renitente, nem bem a barra quebrava, ele saia com destino ao mar. Em pleno sertão nordestino, no Seridó potiguar, o Gargalheira é açude mar, encravado nas cordilheiras da região, um oásis para apaziguar a secura e aquietar o olhar.

Às suas margens, ele encontrou a dureza do granito para expressar a sua arte. Dimas Ferreira nasceu no ano de 1954, em Acari/RN. Cresceu entre as pedras que abundam no entorno; encontrou na dureza da vida e do chão o seu ofício.

Fácil era encontrar as pedras; difícil mesmo era esculpi-las apenas com ponteiro, mão e marrão. Imaginário ganhando formas na criatividade desse artista ímpar.

Dimas Ferreira em sua oficina no meio do mato
Dimas Ferreira em atividade

De martelar renitente, alpercata estalando no chão, enfrentava o sol fora, as braças de sol, o pingo do meio-dia, a viração da tarde e, antes do sol se pôr, retornava para os braços de sua amada Nita, por vezes, na boca noite. Sincronizava as suas batidas aos ponteiros das horas sertanejas.

Da sua oficina, no meio do mato, podia avistar as águas chegando avultosas, correnteza estancada na parede do açude famoso, antes de sobejar no concreto. De lá, viu as águas secarem, as plantas murcharem, o cinza imperar, antes de o verde ressuscitar novamente.

Incansável na sua missão de dar vida à rusticidade da pedra, de suas mãos fez brotar animais de nossa fauna, imagens de nosso povo e personagens da fé que acalenta uma região.

De martelar renitente, fez da pedra poesia. Sonhos concretizados na peleja diária. Tanto fez, tanto fez, que suas esculturas viraram eternas obras-primas.

Desfrutou o prazer do cigarro, aqui e acolá, uma chamadinha, e a companhia dos gatos. Com coragem, enfrentou os males prematuros do corpo. Um olhar sereno de quem está acostumado às intempéries da vida. Fortaleza nas mãos calejadas em contraste com a leveza do coração.

Em 21/03/2016, Dimas Ferreira, o poeta das pedras, virou passarinho. Partiu antes do tempo, deixou saudosos a esposa, suas três filhas e os muitos admiradores de sua arte.

Escultura de Dimas Ferreira

Disparada – Petrobras Sinfônica e Lucy Alves

Acesse também: Zefa, a flor da paixão; Fazenda em festa; Mestre Espedito Seleiro; Sertão noturno.

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