Entrevista com Azol

Sergio Azevedo Oliveira nasceu em Natal, mas optou por morar em São Paulo há mais de trinta anos. Lá estabeleceu-se como o artista Azol – a junção dos seus sobrenomes.

Seu período em Sampa foi intercalado com a universidade nos Estados Unidos. Voltou ao Brasil com a formação em Artes Gráficas e Cinema. O menino, que enchia de desenhos os cadernos de aulas enfadonhas, tornou-se artista visual.

Azol transita entre a pintura, fotografia, escultura, colagem, vídeos, murais e a escrita de ficção. Carrega no DNA a estética do Sertão e, agora em setembro, vai invadir o Rio de Janeiro com a exposição “O SERTÃO VIROU MAR”.

Às vésperas da abertura de mais uma individual, Azol encontrou um tempinho para conversar comigo sobre seu ofício.

Elza Bezerra: Destin Sparks, fotógrafo australiano proferiu a frase:  “Fotografia é a história que não consigo expressar em palavras”. Você se define como uma pessoa tímida, que se revela através de suas obras. Explique como se processa essa revelação.

Azol: A minha timidez é frequentemente acolhida pelo meu útero, nome pelo qual chamo meu ateliê. É lá que passo a maior parte de meu tempo, imerso em meu mundo. É lá onde vivo vidas, crio arte, despejo meus demônios, ora na arte, ora no lixo, ora de volta pra dentro de mim. O artista precisa de solidão para trabalhar. Nessa solidão me sinto 100% EU, despido de qualquer máscara social. Inicio uma conexão interna, uma espécie de viagem transcendental. É nessas horas que acontecem as revelações. Utilizo a linguagem das artes para traduzi-las. Veja por exemplo as pinturas que usei para fundir com as fotografias que fiz no sertão, para fazer as montagens digitais que serão apresentadas na mostra O SERTÃO VIROU MAR.  Essas pinturas refletem muito do meu estado espiritual na época – introspecção, medo, melancolia, insegurança, dúvida, solidão. O ateliê é um misto de mãe, que me acolhe em seu colo, com um analista. É assim que as revelações aparecem.  (Detalhe para não confundir: as pinturas que serão apresentadas na mostra não são as mesmas que usei no processo da montagem digital – fotomontagens).

Elza Bezerra: Na pintura, você admira o expressionismo abstrato. Certa vez, o pintor americano Jackson Pollock, representante dessa corrente artística, afirmou que “o artista moderno está trabalhando com espaço e tempo e expressando seus sentimentos ao invés de ilustrar”. Explique melhor para o leitor como se dá seu processo criativo.

Azol:  Sou um artista que está sempre exercitando a experiência do “olhar,” procurando investigar os acontecimentos pelas entrelinhas, indo além da superfície das coisas para desconstruir esse olhar e encontrar a poesia. É daí que surge a linguagem poética. Desde de criança tenho me pautado pelo aspecto visual das coisas. Somos integrantes de uma sociedade contemporânea que acumula grandes arquivos visuais, principalmente nos dias de hoje. Então, fica “fácil” se construir imagens a partir das vivências, das referências, dos sentimentos, da memória. Claro que um conjunto de fatores como a prática constante do oficio das artes, a lapidação do olhar e da técnica, a busca por referências, e o fato de possuir uma sensibilidade apurada, são itens essenciais para formar um conjunto de obra e ser considerado um artista. Eu pratico a minha arte diariamente, seja pintando, desenhando, fotografando, filmando/editando, criando uma escultura, fazendo uma colagem ou escrevendo. Sou bastante disciplinado nisso. Sobre o meu processo de criação, eu me capacitei, ao longo das décadas, a observar o mundo procurando novas formas de olhar a realidade. Tudo me inspira. Um seriado da infância, uma conversa de padaria, o silêncio das primeiras horas matinais, as sombras feitas pelo entardecer, um concerto de música, um belo jardim, o barulho do vento agitando árvores, o cheiro do orvalho, a chuva (adoro dias nublados).

Basta estar ligado com a natureza para se inspirar. No fazer arte, não corroboro com a tese de que o artista só trabalha inspirado. Meu ritual para começar a trabalhar é o seguinte: inicio com um aquecimento. Faço exercícios, às vezes de desenho ou faço recortes para uma colagem, escrevo algumas páginas de um conto, ou mesmo, edito um vídeo. Não importa. O primordial é começar e não se intimidar pelos erros do começo. Na medida que vou avançando e sentindo que, o que estou produzindo está fazendo sentido, criando uma coerência, eu finalizo o processo e começo a produzir pra valer. Pra mim não tem essa de esperar uma inspiração para começar a produzir. É no exercício do ofício que o cérebro faz conexões. A inspiração faz parte do conjunto de experiências e vivências que venho acumulando ao longo da minha vida.

Elza Bezerra: “Euclides da Cunha tem uma frase em ‘Os Sertões’, que eu adoro e define muito bem essa região de contrastes: “Sertões… ao atravessá-los no estio…, barbaramente estéreis; ao atravessá-los no inverno…, maravilhosamente exuberantes…” O escritor e jornalista carioca soube muito bem retratar em palavras essa parte do Nordeste. Você não nasceu propriamente no Sertão, mas encontrou na estética sertaneja a sua relação de pertencimento. O que você busca traduzir dessa região em seus trabalhos? 

Azol:  Adoro a frase de Cascudo que diz : “Quem não tiver debaixo dos pés da alma a areia de sua terra, não resiste aos atritos da sua viagem na vida, acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos.” – ela reflete muito do sentimento que carrego.

Eu não nasci no sertão, isso é fato. Mas meu sangue é do sertão, sou fruto da mistura de uma seridoense (Parelhas) com um Mossoroense. Existe um forte sentimento de pertencimento à cultura e tradições desse mundo. São códigos, hábitos, manias, comportamentos que, por vezes, passam despercebidos, mas foram herdados de meus antepassados e estão impressos em minha alma. Isso é inviolável e nunca me abandonará. Meu trabalho é pautado por esse mundo rico de tradições, histórias e cultura.

Não gosto de fazer arte simplesmente reproduzindo a realidade. Isso não funciona para mim. Não me traz revelações. Não me mostra as várias realidades possíveis e impossíveis. Meu papel como artista é criar uma fábula, usando como matéria prima a ambiguidade, a dúvida, a ilusão, a subversão e desconstrução do olhar. Criar um mistério. Tudo para oferecer ao observador um momento de fascinação, da qual ele ficará suspenso, preso em um emaranhado de sensações que irão retê-lo diante da obra, num quase entendimento. Ele pegará carona com o que vê diante de seus olhos, juntar a subjetividade do artista com a dele, e embarcar numa jornada poética, rumo ao sublime. É esse o papel da minha arte. E é assim que enxergo o sertão, um lugar mágico, transformado, onde o assombro e a beleza convivem em harmonia. Um lugar de sonhos possíveis.   

Elza Bezerra: Natal já foi presenteada com a exposição “Cangaço” em 2015, no Solar Bela Vista. Agora o Rio de Janeiro vai receber “O SERTÃO VIROU MAR” no prédio histórico do Centro Cultural Correios. Certa vez, um beato professou que um dia o sertão vai alagar. Você inverteu o fluxo e trouxe o sertão para a Cidade Maravilhosa. Poderia antecipar um pouco da exposição?

Azol: Claro. O SERTÃO VIROU MAR é o resultado de anos de pesquisa e produção que começou em 2011, com o início da minha imersão na cultura popular nordestina, e culminou com a série sobre a estética do cangaço. Posteriormente, ela se transformou em duas exposições: AZOL ENTRE VIRGULINOS (2015), em Natal, e A BELA CRUEZA DO CANGAÇO (2016), em SP. Realizei duas grandes viagens pelo sertão de 5 estados à procura dos rastros de Lampião, em busca de conhecimentos sobre aquele mundo tão mágico. Precisava dessas viagens para dar ao meu trabalho, uma chancela de autenticidade. Para dar a mim mesmo a oportunidade de adentrar, literalmente, naquele mundo e explorá-lo ainda mais fundo. O resultado, mais de 6 mil fotos, milhões de ideias e um furacão de sentimentos invadindo a minha alma. Quis transformar isso em reflexão e mergulhei no trabalho em busca de uma representação pictórica. Para dar vazão a essa tempestade criativa que me acometeu na época, me pus a pintar freneticamente. Algum tempo depois, centenas de desenhos e pinturas encheram meu ateliê. Como sou um artista visual que transita por várias linguagens, não fiquei satisfeito apenas com a representação imagética da pintura e dos desenhos. Precisava atravessar as fronteiras das linguagens. Daí provoquei o encontro das duas linguagens que me perseguem há anos: a pintura e a fotografia. Surgiu daí um casamento perfeito de fotomontagens digitais. Era exatamente o que buscava. Uma solução imagética que sintetizasse o que vi, vivi e senti. A representação de um sertão que habitasse o imaginário popular. Um sertão folclórico, místico, mágico, de invioláveis belezas ocultas. Um sertão de camadas de misteriosas realidades, onde as diferentes leis que regem cada mundo pudessem conviver umas com as outras sem causar rupturas, como num realismo mágico. O conjunto de fotomontagens e pinturas apresentadas nessa mostra, criam uma fábula, apresentam fragmentos da realidade impregnados de múltiplos significados e sentimentos. O mar é água, a força transformadora que falta no sertão. Convoca a construção de uma possível existência. O sertão virou mar é uma jornada poética, abre um portal para entrarmos num ambiente rarefeito, provocador, estimulante e alegórico. Convoca o observador a ampliar o significado da sua experiência do olhar.   

Pinturas que estarão expostas na exposição “O Sertão virou mar”

A exposição ocupará, no 3º andar do Centro Cultural, duas salas separadas por um corredor. Na primeira sala terá 43 fotos e uma instalação montada no centro da sala, inspirada em uma das fotos. No corredor, uma tela de plasma estará mostrando os depoimentos do curador, Marcus Lontra e o meu. E finalmente, na segunda sala, 10 pinturas em acrílico estarão compondo o ambiente junto com a projeção de 3 videoart.    

Elza Bezerra: Eu escrevo sobre Sertão. Algumas pessoas associam esse tema ao passado. Você trabalha com uma linguagem moderníssima nessa estética. Como você enxerga o Sertão na atualidade?

Azol:  Quando estive circulando pelo sertão em 2016 e 2017, no auge da longa estiagem que atingia a região, testemunhei uma realidade triste de falta de recursos, principalmente nas áreas mais afastadas das cidades. Teve um momento onde estávamos na área rural de São José do Belmonte, em Pernambuco, que pensei que tivesse regressado ao início do século 20, tamanha ausência de contato com o mundo. Não existia energia, água encanada, nenhum sinal de vida, exceto pela presença resistente de meia dúzia de casinhas de taipa. Parecia que a vida tinha parado ali, naquele momento, naquele local. Vi incontáveis carcaças de animais espalhadas ao longo das estradas. Rios e açudes secos. As pessoas com quem conversei, demonstravam o desejo de ir embora em busca de melhores condições humanas. Não acompanho de perto o momento atual do sertão. Mas, pelo que ouço por algumas pessoas próximas, a situação, infelizmente, não mudou muito. As dificuldades persistem, a escassez e miséria também, e a violência é um dos itens que mais preocupam a população. Mas, nem por isso o sertão deixa de ser especial, um celeiro de riquezas. Meu olhar para o sertão é romântico e poético.     

Elza Bezerra: A música e a solidez familiar são vetores de sua inspiração. O que mais lhe inspira para construir sua poesia estética?

Azol:  Sem dúvida Elzinha, a solidez familiar, o amor e o incentivo que recebo da minha família é um alimento que nutre a minha alma artística. Sou um sujeito abençoado por isso, e agradeço todos os dias. A música é a trilha sonora que imprimo em meus trabalhos. Existe uma musicalidade nas imagens que produzo, e elas refletem muito meu estado de espírito. A música me ajuda muito a fazer as conexões neurais, a estimular o fluxo do inconsciente. Abre as gavetas da memória. Não consigo produzir sem música. Aliás, não consigo viver sem música.

Costumo dizer que, o que me emociona, me faz sentir vivo e respirando, é um vetor de inspiração. Carregamos vários HD’s com imagens, memórias, sentimentos e vivências arquivadas. Basta entrar em “estado de graça,” ou seja, no esplendor do momento de produzir arte, que esse arquivo vem à tona. As referências que uso são as ferramentas que engatilham esse processo. É a fagulha que inicia o fogo.     

Elza Bezerra: Cabeça de artista vive em constante ebulição. Em você, multiartista que trabalha com linguagens variadas, deve fervilhar ainda mais. Quais são os projetos para o futuro?

Azol:  Meu sonho é realizar um projeto sensorial, onde o visitante irá entrar fisicamente em minhas obras. Uma espécie de exposição imersiva, interativa, que usará as diversas linguagens que trabalho.

Azol em seu ateliê

Elza Bezerra: Eu sempre termino a entrevista abrindo espaço para o entrevistado compartilhar algo que não seja do conteúdo de sua vida profissional. Algo que o público desconhece da pessoa e não do profissional. Você tem algo a compartilhar com meus leitores?

Elzinha, algo que a maioria das pessoas desconhece sobre mim, é que sou um fanático pela escrita criativa, a ficção. Preferi não divulgar antes pelo fato de não me sentir preparado para encarar esse perfil, sabe. Sou um artista visual, crio narrativas visuais, mas a escrita ficcional tem me desafiado a por as mãos na massa. E tem sido uma delícia. Tanto que estou montando um livro híbrido, um misto de livro de artista, que apresenta trabalhos com as várias linguagens que transito, e contos de ficção. Mas, é para 2022.


Exposição: O SERTÃO VIROU MAR por Azol

Curadoria: Marcus de Lontra Costa

Abertura: 09 de Set de 2021 às 17:30h

Período: 10.09.2021 a 24.10.2021

Local: Centro Cultural Correios Rio de Janeiro

Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro | Corredor Cultural – Rio de Janeiro – RJ


Acesse também: Entrevista com Mocó, Entrevista com Felipe Bezerra, Entrevista com Lins Arquitetos Associados, Entrevista com Julia Krantz.

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5 comments

  1. Elzinha, Parabéns pela riqueza das perguntas. Entrevista Sensacional!!

    Eu me deleito em cada viagem que faço pelo Sertão de Azol!!

    1. Oi Carol! Um prazer enorme ver Serginho mergulhar no seu processo criativo e compartilhar com os leitores essas imagens do “sertão folclórico, místico, mágico, de invioláveis belezas ocultas”.

      Sucesso na nova exposição! Beijo grande

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