Entrevista com Felipe Bezerra

Em tempo de isolamento por causa da COVID-19, o bate-papo com os entrevistados não pode acontecer presencialmente, então a conversa de hoje foi toda por troca de mensagens, cada um na sua casa.

Felipe de Araújo Bezerra é arquiteto, urbanista e designer, projetando edifícios, móveis e objetos, de maneira isolada ou com seus parceiros. Inquieto e irreverente, em 2012 fez parceria com o designer André Gurgel e fundou a Mula Preta. Este ano, a novidade é a parceria com o arquiteto paraibano Leo Maia na formação do Ema – Escritório Metropolitano de Arquitetura.

Vamos saber um pouco sobre seu trabalho e sua história.

Elza Bezerra – Oscar Niemeyer tem uma frase magnífica sobre criar: Ah, como é mágico ver surgir na folha branca de papel um palácio, um museu, uma bela figura de mulher! Como as desejo e gosto de desenhá-las! Como as sinto nas curvas da minha arquitetura!”. Você é arquiteto, urbanista e designer de móveis. Como é Felipe em cada um desses segmentos e o que mais lhe encanta no respectivo ato de criação?

Felipe Bezerra: Minha gênese está na arquitetura. Só depois de um bom tempo comecei a rabiscar alguma coisa de design nos meus cadernos. Sou arquiteto há 25 anos, desde o início trabalhando para a empresa da minha família em projetos de edifícios. Comecei meio de trás pra frente pois mesmo antes de me formar projetei alguns edifícios de alto padrão nos idos de 1995 (aqueles 3 prédios da Ecocil em frente à sede do TRE na Av. Rui Barbosa, por exemplo) e não parei mais. O engraçado é que só bem depois passei a desenhar casas, que adoro.

O design surgiu depois, como já falei, meio que como uma fuga para liberar a adrenalina do momento de criação de um projeto, algo muito complicado na prática de arquitetura para o mercado imobiliário em uma cidade do porte de Natal. Houve um lançamento de um livro com uma obra minha e resolvi fazer junto com o lançamento do livro uma pequena retrospectiva da minha carreira e também construí uma poltrona e um banco para a exposição. Mas só alguns anos depois é que coloquei pra frente a carreira de designer. O design veio pra suprir esse vazio que frustra um pouco um arquiteto que quase sempre tem restrições orçamentárias ou culturais para emperrar sua criação…

Adoro ambos os campos, mas não tenho muito saco pra desenhar urbanismo, apesar de estar sempre lendo sobre as transformações das cidades e as implicações que meus projetos podem fazer positivamente nas cidades se forem bem pensados.

Elza Bezerra – Arne Jacobsen, o arquiteto e designer dinamarquês, ao falar sobre inspiração, afirmou: “Inspiração é quando você chega em casa do exterior e é perguntado: Bem, você encontrou inspiração? – e felizmente você não. Mas as impressões são incorporadas, é claro, e podem surgir mais tarde: nenhum de nós inventou a casa; isso foi feito muitos milhares de anos atrás.” Para você, quais as maiores fontes de inspiração do seu trabalho?

Felipe Bezerra: Ser arquiteto exige muita prática e conhecimento. Não existe bom arquiteto que não conhece história. Tem que conhecer engenharia, psicologia, finanças, marketing, fotografia, geometria descritiva, arte, design.

A profissão deveria ser mais valorizada, na minha opinião. O maior erro que algum investidor ou cliente que precise de um arquiteto pode fazer é contratar um projeto pelo menor preço… isso quase sempre sai muito caro pois não vai ficar bom…

Mas voltando à sua questão, creio que nosso subconsciente vai criando um repertório de informações que se fundem com nossos livros e viagens que fazemos pra visitar edifícios emblemáticos. Tudo vai se incorporando como fonte para a criação. Jacobsen estava correto.

O que antes era mais complicado hoje a internet veio pra facilitar o acesso a esses conteúdo. Mas tem que saber o que serve no meio de tanta besteira….

Felipe Bezerra e André Gurgel – Objeto da Mula Preta

Elza Bezerra – A mula é um animal estéril. Você e André, ao contrário, tem uma produção incrível de móveis e objetos de design premiados. De onde surgiu o termo Mula Preta? Conte um pouco dessa história e parceria.

Felipe Bezerra: Como falei na primeira pergunta, aqueles cadernos ficaram guardados e foram surgindo outros, que sempre carrego comigo no dia a dia.

Conheci André pois ele tinha uma empresa que desenvolvia maquetes eletrônicas e tornei-me seu cliente. Críamos uma empatia e amizade que veio a culminar na sociedade. Ele, apesar de ter estudado engenharia elétrica, também tinha cadernos com desenhos de móveis e resolvemos nos unir pra tirar as coisas do papel.

Uma curiosidade é que o avô dele,  Sebastião Figueiredo, havia ido morar um ano nos EUA na época que meus pais foram em 1965…como Natal é pequena…

Um dia em 2012, depois que decidimos colocar nosso plano pra frente, sentamos pra definir o nome. André sugeriu alguns nomes estrangeiros, outros abstratos e eu puxei Mula Preta, que havia sido o primeiro sucesso de Gonzaga, uma referência pra mim. Um nome que marcava pela irreverência e pelo bom humor que procuramos trazer no nosso desenho. Você nunca vai esquecer se vir alguma peça nossa e procurar saber o autor. Já o simples nome fulano de tal passa batido no dia seguinte. É mais ou menos como a Piauí, melhor revista do Brasil, com artigos tão ricos e o nome de um pobre estado do Nordeste. Achamos bom quando alguém vem falar conosco e diz que foi olhar o que danado seria Mula Preta e se surpreendeu com a qualidade do nosso desenho…

A parceria está dando certo e ganhamos mais de uma dúzia de prêmios internacionais e inúmeras publicações pelo mundo afora. Esse ano vamos abrir nossa própria loja em SP, na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, o endereço mais importante do design no Brasil.

Gaveteiro Sanfona – Mula Preta

Elza Bezerra – Seus trabalhos mostram móveis irreverentes, modernos e até meio lúdicos. O grande desafio do designer é unir beleza e funcionalidade. Que outros elementos devem estar inseridos na criação e produção do designer?

Felipe Bezerra: Elementos de tecnologia que venham a baratear e tornar o design mais democrático. E também materiais sustentáveis que vão ser e já são, na verdade uma imposição para um bom posicionamento de marca e de produto. Esse novo momento que estamos vivendo está nos transformando e cada vez mais vamos selecionar o que consumir. Sustentabilidade, funcionalidade e bom desenho trazem felicidade pra dentro da casa, que vai ser bem mais valorizada no pós corona. Já está sendo, na verdade.

Elza Bezerra – Ema é uma parceria com o arquiteto paraibano Leo Maia. A atuação é restrita a São Paulo ou os nordestinos também estão incluídos nesse projeto? Fale um pouco mais dessa união.

Felipe Bezerra: Conheci Leo há uns cinco anos e sempre nutrimos respeito e admiração mútuos. No final do ano passado fui convidado pra desenhar dois grandes projetos em João Pessoa e ao chegar lá, o contratante, ainda meio acanhado, me perguntou se havia algum problema em trazer Leo para o time do projeto. O resultado foi uma sinergia de pensamentos que produziu dois belos edifícios num prazo muito rápido…. aquilo nos levou a pensar em algo mais ousado e em janeiro abrimos a firma em SP.

Nome grande, Escritório Metropolitano de Arquitetura, numa megalópole como SP. Ao mesmo tempo uma brincadeira, mais uma vez, com a ema, essa ave típica da américa do sul, do Nordeste brasileiro, e que figurou no brazão dos holandeses quando aqui estiveram dominando as capitanias que uniam o RN e PB.

Nosso escritório já está funcionando lá e estamos fazendo coisas em SP, PR, PB, PE e também aqui no RN.

Elza Bezerra – Você nasceu em Natal, mas seu trabalho tem uma pegada no Sertão. Será que isso está no DNA? Quanto do Sertão pode ser incorporado ao design moderno?

Felipe Bezerra: Sim, certamente. Muitas peças da Mula são fruto de inspiração de nossas raízes. Posso citar rapidamente o cabideiro cacto, a estante sanfona, o banco sela, dentre vários.

Recentemente desenhei com Leo um edifício em Recife que introduzimos elementos da cultura pernambucana através da música, que tem Luiz Gonzaga no forró como mestre maior e Capiba no frevo como ícone. Usamos elementos sanfonados como muxarabis e janelas em alusão à ‘cornetas’ do carnaval de Olinda, usando cores sóbrias e materiais contemporâneos.

Elza Bezerra – “Todo grande arquiteto é – necessariamente – um grande poeta. Ele deve ser um grande intérprete original de seu tempo, seu dia, sua idade.” A frase é de Frank Lloyd Wright, arquiteto, escritor e educador americano. Para finalizar, que futuros poemas estão fervilhando na cabeça de Felipe Bezerra?

Felipe Bezerra: Estou trabalhando intensamente na quarentena. Estamos levantando a loja do zero em SP e estamos também prototipando 30 novos produtos em diversas fábricas para a inauguração.

E na arquitetura estamos com alguns projetos importantes que, por enquanto, não podemos ‘declamar’, rsrsrs.


Felipe Bezerra é aficionado por literatura, cinema e música. Eis algumas dicas do arquiteto:

Livros: Os Pilares da Terra (Ken Follett); Morte e Vida de Grandes Cidades (Jane Jacobs); Chatô, o Rei do Brasil (Fernando Morais); Trilogia Suja de Havana (Pedro Juan Gutiérrez) e Viva o Povo Brasileiro (João Ubaldo Ribeiro)

Diretores de cinema: Hitchcock, Kubrick, Tarantino, Woddy Allen e Almodóvar.

Séries: Abstract, Breaking Bad, Mad Men, Medici e The Crown.

Discos internacionais: Misplaced Childhood (Marillion), The Joshua Tree (U2), Paris (Supertramp), The Dark Side of the Moon (Pink Floyd), A Rush of Blood to the Head (Cold Play).

Discos nacionais: Alucinação (Belchior), Zé Ramalho de 1978 (Zé Ramalho), A Viagem (Gonzagão e Gonzaguinha), Barulhinho Bom (Marisa Monte) e Transa (Caetano).

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8 comments

      1. Margarida, você é suspeita para falar, mas a entrevista ficou bem legal, parabéns a Felipe por compartilhar um pouco de seu trabalho e história. Beijo grande!

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