Entrevista com Flávio Freitas

Visitar o ateliê de Flávio Ferreira de Souza Freitas, no bairro da Ribeira, é mergulhar num universo de cores e telas. No térreo, os quadros estão expostos de forma organizada, uma pequena amostra de sua produção para os admiradores de arte.

No primeiro andar, o lugar do exercício quase diário da profissão que abraçou: ser artista plástico. Telas, tintas e tudo o mais com sua organização própria, lembrando a casa da avó Hermengarda, que tinha quadros em todas as paredes. No centro, um cavalete com a tela rabiscada, ainda despida de cor, trabalho a que está dedicado no momento.

Um ventilador ligado espalha o ar natural. Flávio Freitas tem um computador para ouvir as notícias e comentários do Youtube. Quando ainda não havia internet, eram as vozes do rádio que afastavam a solidão do artista no seu momento de criar.

Roubo um pouco do seu tempo para conversar sobre arte, vida, família, trabalho, produção cultural, música, economia (é, até mesmo o artista tem que aprender a dominar essa ciência), ciclismo, paisagem urbana, escritores.

Papo bom que poderia tomar toda a tarde, se não fossem os compromissos dos dois interlocutores.

Compartilho com vocês um pouco do pensamento de Flávio Freitas, artista plástico natalense, nascido no Rio de Janeiro, o menino Verdinho do tempo de criança e adolescência.

Elza Bezerra – Flávio, você foi menino do mar. Desde quando se encontrou como artista plástico?

Flávio: Meu aniversário de um ano foi na beira da praia de Ponta Negra. Moramos em Copacabana na minha infância. Continuo sendo “menino” do mar, e gosto muito de sê-lo. A água é um elemento de inquestionável importância material e espiritual para todos nós.

Nesta mesma infância vivi entre pincéis, pinturas, lápis e desenhos de minha avó Hermengarda O’Grady de Paiva Ferreira de Souza e de minhas tias Moema e Jaíra. Fui criança que gostava muito de desenhar. E tenho o privilégio de ter até hoje os desenhos guardados por meus pais, numa velha pasta, desde os 3 anos de idade. Cresci desenhando e sempre estava entre os 3 melhores desenhistas das minhas salas de aula ao longo de toda minha formação, do jardim de infância até a faculdade de arquitetura. De maneira que desenhar sempre foi um recurso natural para comunicar-me com as pessoas e conquistar atenção e prestígio.

Em 1982 entrei para a faculdade de artes Massachussets College of Art na bela cidade americana de Boston. Tomei um choque ao descobrir naquela prestigiosa faculdade um grau de organização e eficiência no ensino e prática da pintura que me abriu uma janela de possibilidades, antes inimagináveis. Decidi ali, sem espaço para dúvidas, que aquela seria a minha profissão para toda a vida, custasse o que custasse. Havia terminado o segundo ano de arquitetura na UFRN e estava no penúltimo ano do curso técnico de música na Escola de Música também na UFRN. Abriria mão destas duas possibilidades de profissão para trilhar artes visuais, seguir o talento mais antigo e mais desenvolvido naquele jovem de 21 anos.

Elza Bezerra – O que mais lhe inspira para produzir? Fale um pouco do seu trabalho.

Flávio: O que mais me inspira para produzir desenho e pintura, é a vida como ela é. Tudo que meu olhar possa registrar e de que minha intuição se agrada. Temas que me emocionam mas sobretudo o desejo de comunicar poesia, beleza, as virtudes e a fé em Deus. Além disso tenho também a satisfação de atender um desejo específico de quem me encomenda, colocando meu conhecimento de desenho e pintura a serviço de uma idéia que tem valor histórico-emotivo-simbólico.

Prefiro falar do meu trabalho respondendo a perguntas específicas. Acho muito melhor ouvir o que observador diz. De bom ou de ruim. E como disse Dom Hélder, melhor lidar com a crítica do que com o elogio.

Elza Bezerra – Seu ateliê está fixado na Ribeira. Por que a escolha desse local?

Flávio: Desde 1984, junto com colegas de faculdade de arquitetura, tenho sonhado com a revitalização do bairro da Ribeira. A Ribeira possui o maior conjunto histórico/arquitetônico do Rio Grande do Norte. Espaço da cidade que foi palco de praticamente de todos os eventos históricos do RN desde a fundação da cidade em 1599, passando pelos anos “dourados” da Segunda Guerra Mundial. Portanto o bairro que detém mais valor cultural é para mim o lugar próprio para a instalação de ateliê de artes. Além de ser uma ação concreta em prol da revitalização da Ribeira.

Elza Bezerra – Alguma tela marcante, que você olha com carinho especial?

Flávio: O número de pinturas que realizei nos últimos 37 anos, desde quando tomei a decisão de ser pintor profissional é grande. Certamente as obras de que mais gosto fazem parte de uma pequena minoria mas não há uma única. Para não deixar de responder, entre elas, por exemplo, cito aqui a pintura “Ilha do Farol I” de 2006 ou 2007, que está hoje no acervo de um cliente alemão residente nos Estados Unidos.

Elza Bezerra – Fale um pouco do Flávio músico e ciclista.

Flávio: Tirei carteira profissional de músico em 1981 aos 20 anos, como trompetista. Fui, na adolescência, atleta de ciclismo, num tempo em que as competições em Natal eram raríssimas. Mas nunca me empolguei com as disputas competitivas. Mais me interesso pelas grandes viagens de bicicleta, levando-nos, pela força das pernas, a deslumbrar novas paisagens.

Naquele ano em que decidi ser profissional de pintura estudava também no conservatório de música de New England em Boston. Conclui um ano e meio de estudos lá, voltei para a Escola de Musica da UFRN. Antes de completar o curso técnico de música, deixei a escola para dedicar-me a conclusão do curso de arquitetura e urbanismo e as minhas pesquisas de arte, desenho e pintura. Em 1987, véspera de mudarmos para Fernando de Noronha deixei as atividades musicais totalmente. Retornando como músico amador, trompetista, 13 anos depois por sugestão de um tio meu que me presenteou com um instrumento. De maneira que hoje dedico quase todo dia 40 min ou uma hora de prática do trompete. E recentemente tive o grande prazer de gravar um cd de Bossa Nova e Jazz, com este mesmo tio Paul Jonnes, que é cantor, também amador, acompanhados de grandes músicos profissionais amigos aqui em Natal.

Elza Bezerra – Para finalizar, quais seus sonhos e projetos para o futuro?

Flávio: Viver uma vida longa e feliz, sempre perto da família e dos amigos, com saúde para produzir. Aprimorar a qualidade do meu trabalho artístico, contribuir para o desenvolvimento do pensamento sobre a arte de nosso tempo. E tornar-me digno das promessas de Cristo.

Todas as fotos foram cedidas pelo entrevistado


João Gilberto – Wave (1978)

Acesse também: Memórias Roubadas e O Ateliê de Aécio.

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8 Comentários

  1. Flávio arrasa na cultura, no papo e nas telas. Desde a facu, acompanho seus desenhos e trajetória. Amigo querido, sempre presente na minha vida! Parabéns pra ele é pra você Elzinha.

  2. Entrevista espetacular de um grande artista, que enaltece o solo potiguar, que incentiva a cultura e as artes em um Estado tão carente dessa visão. Ganhou o mundo e em minha casa, ganhou o coração da minha pequena Luiza que ama suas telas de traços divertidos!
    Sucesso!!!

    1. Oi Vanessa, Flávio é um artista talentoso e com um caráter lúdico muitas vezes. Marca registrada do seu tempo de Verdinho, seu apelido de adolescente. Que bom que Luiza desenvolve esse senso estético. Beijos nas duas!!!

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