Entrevista com Gracita Lopes

Ao apresentar o meu blog, falei sobre os encontros de final de tarde na calçada, só para jogar conversa fora. Em tempos modernos, a calçada migrou para a mídia digital. Nesse espaço, vamos compartilhar entrevistas sobre temas abordados no blog.

Convidei a arquiteta Gracita Lopes para um bate-papo leve e descontraído e descobri a sua veia de escritora e poeta, como veremos no desenrolar da conversa.

Bastante conhecida em nossa cidade, Gracita tem origem em Limoeiro do Norte/CE, mas encontrou em Natal seu porto seguro e lugar para trabalhar sua criatividade. Vamos à entrevista.

Elza Bezerra: O que fez você optar pela arquitetura, que influências teve e o que, fora dela, continua a lhe inspirar?

Gracita: Tinha um vizinho padre (Monsenhor Otávio), que era quem desenhava os prédios da diocese da minha cidade, Limoeiro no Norte. Mas sempre gostei de desenhar, de ler, de cinema….Fora da arquitetura o que me inspira é a vida. É o que meu olho enxerga. Pode ser viajando, ou passeando pela cidade. Também o cinema e até a literatura. Quando leio Simenon e ele descreve o verão na França, listras, espreguiçadeiras…minha cabeça viaja e começa a projetar.

Elza Bezerra: Descreva seu estilo como se fosse um bom amigo o fazendo, inclusive do ponto de vista da evolução do seu trabalho.

Gracita: Difícil falar de um estilo. Mas gosto de uma base limpa atemporal, para, lá dentro, escrever a história do cliente. A arquitetura cada vez mais se simplifica. Isso é evolução.

Elza Bezerra: Quanto se considera aberta a novas formas e materiais em seu processo criativo? E o que fazer para manter sua identidade?

Gracita: Na realidade a grande revolução é a tecnológica. Os materiais sempre existiram: pedra, madeira, metal, barro. Aí vieram os fakes, as releituras, o vidro, o aço… O importante é enxergar a longevidade, durabilidade e intenção de uso de cada um. Estética e função. Ponto!

Elza Bezerra: No seu trabalho, o que você gostaria de criar e onde?

Gracita: Cada dia aprendo mais. Sustentabilidade, minimalismo, tecnologia e coerência. Meu trabalho vem aumentando na escala. Ontem fazíamos mais interiores, hoje equilibramos com projetos arquitetônicos. Estamos prontos para projetos maiores, prédios, hotéis, condomínios. Vejo minha filha projetando bairros na faculdade, olho para aquilo e me pergunto: e por que não?

Elza Bezerra: Fora da arquitetura, onde você encontra prazer e realização?

Gracita: Fora da arquitetura tenho prazer no silêncio da minha casa (minha caverna), na boa música, na leitura, nos papos com amigos e no aconchego da família. Amo cinema e viajar. Algo mais?

Elza Bezerra: Para finalizar, quais seus sonhos e projetos para o futuro?

Gracita: Meu sonho para o futuro é que meu escritório cresça cada vez mais. Temos uma equipe maravilhosa e uma excelente promessa de futuro e continuidade. Tempo será, tempo dirá.


Além de arquiteta, Gracita também traça palavras em escritos e poesias:

Oh, my eyes! O olhar que não tira férias

Difícil existir arquiteto que não seja apaixonado pela profissão. Arquitetura é paixão e ponto final. É ver o sangue subir no calor de uma obra. É deixar aquele papel com o projeto preconcebido e voltar correndo, no outro dia, para continuar. É o frio na barriga enquanto não se encontra a solução ideal. É a satisfação de ver sua obra pronta, muito mais bonita do que se imaginou…

Quero mais, confesso (sempre quero mais). E fico me imaginando, longeva e fabricando sonhos. E como não ser apaixonada se, em cada respiro, o olhar viaja? … “Andar com arquiteto faz a gente enxergar o mundo de uma maneira diferente”, dizem alguns amigos… É esse olhar que passeia pela cidade, pelo prédio, pelo design, pela paleta de cores das roupas de um transeunte…

Ou olhar danado! Que sofre com a sujeira da cidade, com a rua escura, com os sem teto, com o futuro não pensado, que faria no presente, a possibilidade de uma cidade mais humana. Tanta coisa que a Arquitetura e o Urbanismo possibilitam e as mãos atadas enquanto os olhos anseiam.

Arquitetura tem disso. Uma profissão que não dorme, mas que não se cansa. Porque o olhar aceso só sonha e não sabe que é trabalho. Imagina, então, enquanto a gente viaja… em transe, ficamos. Porque arquiteto nunca tira férias, só se lhe roubarem o olhar…

Publicado na revista da Coruja Arquitetura


Em 2002, Gracita Lopes e Flávio Freitas protagonizaram a exposição “Réstias – uma interface entre a poesia e a pintura”. Entre as poesias de Gracita, pinçamos:

Gracita Lopes

JANEIRO

Como nos anos 50
contemplo o verão
nessa cadeira listrada
espreguiçadeira
que inveja o mar nessa mansidão
imensidão de três horas da tarde
O vento embaralhando meu cabelo
maresia de pele úmida
mal estar que sinto
nessa varanda branca com listras amarelas

Coincidentemente estou de branco
e espero, como naqueles anos,
um bolero – besame mucho
às sete da noite
na vidraça embaçada
ao som de velas assustadas
com o barulho do mar
nas marés de janeiro

Coincidente estou listrada
coincidente é janeiro
de branco
espero
um beijo
úmido
nos anos 80
como se fosse essa tarde
la última vez.

Acesse também: Arquitetura na Rioja e Motorista de Ciclista

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22 comments

  1. Parabéns Elzinha,pela brilhante escolha ao entrevistar Gracita Lopes.Grande arquiteta e amante da vida.Muito me orgulho por ter executado vários dos seus projetos.
    Aprendi com ela a ver a vida com naturalidade.Quer seja em seus excelentes projetos ou quando em seus posicionamentos sempre coerentes e leais aos seus princípios profissionais.
    Grande nome em nossa cidade.

  2. Elzinha, muito obrigada pela oportunidade de estar no seu blog. Uma honra! Recebendo muitos Feedback. Vá em frente, pois está ficando cada vez melhor. Beijuuuuu

    1. O prazer foi meu, acatando sua ideia. Bastante elogios com sua performance. Muito obrigada por compartilhar comigo e com os leitores os seus escritos e ainda expor tão apaixonadamente a sua profissão. Beijo grande!

  3. Juntando a sua bela escrita c a emoção com que gracita fala das “suas artes”, fomos presenteados c esta excelente entrevista.

  4. Essa frase dela , já citei horrores… é uma perfeição: Arquiteto não tira férias… Parabéns as duas maravilhosas nas palavras…😘

    1. Andrea, vocês arquitetas não dão descanso ao olhar e, quando o olhar se une às palavras, somos presenteados com essas preciosidades de Gracita. Valeu, beijos.

  5. Muito boa a entrevista. Sempre tive admiração pelo trabalho de Gracita, e também uma boa impressão da pessoa que ela é, através de amigos comuns. A entrevista corrobora esse boa impressão.👍👏

  6. Excelentes;
    Entrevistada, Entrevista e você a entrevistadora, conversa boa com gente interessante.
    Além das suas crônicas que são um espetáculo, você pode adicionar mais essa alternativa, as entrevistas.
    Pode até pensar em um “ Talk Show” numa de nossas televisões locais, acho que tá na hora de aposentar o Paulo Macedo e dar espaço pra assuntos interessantes, iguais esses que você nos oferece.
    Maravilha Elzinha, excelente entrevista.
    Grande abraço.

    1. Bom dia Luciano! Despertei com veia de entrevistadora, mas achei que os escritos de Gracita tinham que ser compartilhados. Não me vejo em vídeos, prefiro a escrita, mas quem sabe…? Muito obrigada por suas palavras de incentivo. Vc é um dos leitores assíduos. Bom fim de semana.

      1. Parabéns, Elzinha!
        Não tenho dúvida, que você é muito boa em qualquer atividade que esteja envolvida, seja escrevendo, entrevistando, fotografando… além de ter um papo super envolvente e inteligente!!
        Saudade!

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