Fé inabalável

Novembro escaldante, final de tarde de uma terça-feira. Aos pés do monte, nenhum movimento de peregrinos. Barracas desarmadas, apenas uma lojinha aberta, expondo os artigos religiosos para as almas agraciadas que habitam o lugar. As demais permanecem fechadas, aguardando a chegada dos fiéis em romaria, especialmente na Semana Santa.

Na quietude, subo os degraus e as rampas inclinadas, tentando assimilar a aura sagrada do lugar. Ao longo do trajeto, as estações da Via Sacra, doações das famílias de Carnaúba dos Dantas. As imagens sagradas são adornadas por flores coloridas de plástico, únicas capazes de resistir ao clima seco da região. Fincadas na robustez das rochas, as macambiras derramam-se em cachos – bromélias verdadeiras do semi-árido.

A subida íngreme é a primeira penitência para os eternos pagadores de promessas, suas e dos outros. No cume, uma placa indica o ano de inauguração do Monte do Galo: 1927. A capela de Nossa Senhora das Vitórias acolhe os que lá acodem, para suplicar, pagar promessas e agradecer as bênçãos recebidas.

As salas dos ex-votos abrigam partes de corpos curadas pela fé, fotos de entes queridos agraciados por milagres, réplicas de moradias, bois de louça, terços e fitas, imagens de Nossa Senhora e do Padre Cícero Romão Batista.

Um cruzeiro com Maria Santíssima, Maria Madalena e João Evangelista aos pés de Jesus Cristo invoca as graças dos céus. No mesmo patamar, uma estátua enorme de um galo batiza o lugar.

Para mim, o chão cinza do Seridó a perder de vista é o maior sinal da existência divina. Mas a beleza da região não é suficiente para enfrentar as suas adversidades. Somente um Deus poderia conceder esperança suficiente para a peleja constante dessa gente diante da natureza inclemente.

A fé inabalável foi e será sempre o elemento fundamental para a ocupação desse chão. Nas terras doadas às Santas, fundaram-se povoados, vilas e cidades, tendo como centro a Igreja Matriz, lugar de súplica, agradecimento e louvor.

Uma vez por ano, a festa da padroeira reúne os seus devotos. A abertura da novena é celebrada com o espocar de foguetões. São nove dias de oração a Sant’Ana Gloriosa, Nossa Senhora da Guia, das Vitórias, da Conceição, São José e aos demais Santos que protegem a região.

O profano expõe a alegria do congraçamento, reunindo milhares em barracas nas praças, em leilões para angariar fundos para a Igreja e nas corridas de vaquejadas. Mas é na religiosidade que o seridoense, acostumado a passar privações, encontra a força necessária para prosseguir.

O repicar do sino ecoa ao longe, convocando os fiéis para a procissão de encerramento. Uma multidão aproxima-se, especialmente vestida para a ocasião. Enquanto aguarda sobre o andor, a imagem adornada com capricho é tocada, fotografada, venerada. Olhos derramam lágrimas de emoção.

Estandartes a posto, banda de música perfilada, dá-se início ao cortejo. Os pagadores cumprem as promessas pelas graças e milagres alcançados. Momento de reflexão, penitência, aclamação. Hinos são entoados, vozes em canto, vozes em coro percorrem as ruas de uma cidade em reverência. Nossa Senhora retribui as orações, debulhando graças sobre mãos talentosas estendidas, cobrindo-as com seu manto protetor.

Crônica publicada originalmente no livro Sertão, Seridó, Sentidos.


Elis Regina – Romaria (Música de Renato Teixeira)

Acesse também: Fazenda em festa e Invernada.

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6 Comentários

  1. ” Quem é religioso deve se alegrar,porque nem todo mundo é agraciado com a capacidade de acreditar numa ordem superior”.(Anne Frank)
    Religião, seja ela qual for, é muito necessário
    para manutenção de uma sociedade dita civilizada.
    Muito bonito seu texto.

      1. A religiosidade do seridoense è ímpar . Esse ano, a Festa de Santana de Currais Novos , foi agraciada com o show de Padre Fabio de Melo Virgínia . Tinha caravana , de todo o serido . Foi encantador o show

  2. Año 1985,lendo sua crônica de hoje é podia ver uma cena de uma procissão,SextaFeira da Paixão em CurraisNovos.
    Subindo em direção ao cementerio,Noraide Galvão e demais, faziam parte dela, descalça, véu na cabeça, bem compungida ,como Madalena. Nunca soube se aquela imagem tão intensa para mim tenha sidouma maspara me afastar da igreja católica e suas ameaças Céu/Inferno!

    1. Oi tia, por muitos anos a Igreja Católica incutiu a questão de céu e inferno. Hoje isso está ultrapassado, acho. O importante, em qualquer religião, é espalhar o amor ao próximo, a fé e fazer o bem!

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