Hoje é dia de São José

As nuvens estão se achegando, o calor abafado é bom sinal; vento em rodopio e as esperanças dão uma guinada.

Depois de vários anos de estiagem, parece que em 2022, Deus vai ser misericordioso com o Nordeste.

19 de março, hoje é dia de São José. Na capital, as águas desabaram com força; em pouco tempo, ruas alagadas, trânsito caótico e indiferença à data.

No interior, marco temporal para um bom inverno. As preces se avolumam, as expectativas são promissoras com a pegada do inverno.

Em muitos lugares, açudes e reservatórios tomaram água, alguns sangraram a alegria represada, mas ainda carecem de muita chuva, tamanho a escassez dos últimos anos.

Esse ano tem novidade: as águas do São Francisco chegaram ao Rio Grande do Norte. O Velho Chico veio dar o ar da graça e vai correr nas antigas terras dos índios tapuias até temperar-se com o sal do Atlântico.

Águas salvadoras fecundam o cio da terra, florescem esperança, fincam homens e raízes!

Por aqui, mãos calejaram no plantio das primeiras chuvas. Apostam no inverno promissor. O verde novo brota em abundância.

Abundante em tons diversos. Verde rama, babugem pegada, pasto novo, mata-pasto, milho embonecando, feijão verde, na debulha da peleja diária, labuta incessante, sem começo, nem meio e por fim.

Tempo de plantar, semear, florescer e colher os frutos que essa terra há de vingar.

E viva a coragem do povo nordestino! 


Zila Mamede

MILHARAIS

Nos milharais plantados (minha infância),
recém-nascidas chuvas pelos rios
que rebentavam adubando várzeas 
onde meus pés-meninos se afundavam
no cheiro fofo do paul novinho.
Terra multipartida, covas conchas,
das mãos do meu avô descendo o grão.
Pela manhã íamos ver as roças 
à superfície frutos devolvendo 
folhinhas enroladas, verde calmo
se desfiando ao sol, em sol, de sol.
Quando escorriam outros aguaceiros
os dedinhos do milho iam subindo
em vertical, depois abrindo os braços
e já mais tarde o milharal surgia
os pendões leques leves abanando
o triunfal aceno da chegada.
E vinha logo a quebra das espigas,
eu chorava de pena, elas dobravam-se
por sobre o caule, tesas deslizando
no chão, nos aventais apanhadores,
sua palha entreaberta – riso triste 
de quem, nascido, vê-se morto infante,
pois sendo espigas tenras, de repente
logo viravam massa, logo, pão.
Eu as tomava com temor doçura,
trançava seus cabelos, embalava-as:
eram espigas não, eram bonecas
que me aqueciam, eu as maternava
lavando-as, penteando-as, libertando-as
de gumes de moinhos e de fomes
dos animais domésticos, ancinhos,
fogueiras de São João. Pelos terreiros
procuro em vão os milharais vermelhos
de vermelhas papoulas adornando
as vaidosas tranças das espigas – 
bonecas brancas, minha meninice,
meu avô habitando agora um campo
onde ele, em vez do milho, é uma semente,
meu avô, minha avó, os milharais,
não tendo mais infância, tenho-a mais.

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7 comments

      1. Vou voltar
        Sei que ainda vou voltar
        Vou voltar
        Sei que ainda vou voltar
        Para o meu lugar
        Foi lá e é ainda lá
        Que eu hei de ouvir cantar
        Uma sabiá
        Cantar
        Uma sabiá

  1. A chuva tão esperada e desejada chegou. Para aqueles que plantam, uma esperança de dias melhores, para os que não plantam, não sabem que também terão bons tempos. Produção, fartura, amenizam a falta, inflação! Só se vence com muita produção. Que venha a chuva

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