Katherine Johnson, seu nome é determinação

Foto capturada no site da NASA

Ela abriu o baú de cedro do sótão, que fazia as vezes de quarto dos meus avós, e retirou uma pequena calça desbotada. As lágrimas vieram na mesma velocidade do meu espanto. Sebastiana, minha babá quando criança, guardara algumas peças de minhas roupas infantis na fazenda onde passei divertidos períodos de férias.

A lembrança virou uma relíquia. Eu a emoldurei e está na entrada do meu closet; demonstração de afetividade e carinho guardada no fundo do coração. Nasci em 1964 e acho que vestia essa calça lá pelos meus cinco anos. Mamãe era antenada com a moda e eu acompanhava, na mais pura inocência, o sucesso vertiginoso do jeans.

A calça está desbotada, tem alguns furinhos e bainha desfeita, talvez para acompanhar meu crescimento, que não foi lá grande coisa, rsrsrs. Mas ela marca uma infância feliz, de brincadeira no terreiro, banho de riacho, leite no curral, boneca de pano, gado de osso e jogo de pedrinhas (em abundância no Seridó).

Outra roupa que me marcou foi um macacão branco, com a foto do Apolo 11 e o homem pisando na Lua. Adorava-o e não desgrudava da peça por nada. Devo ter ficado muito impressionada, assim como toda a humanidade, com a proeza dos três astronautas americanos pisando em solo lunar no dia 20 de julho de 1969.

Dou um salto nos anos. Em 2020, descubro que uma das pessoas responsáveis pelos cálculos da trajetória do Apolo 11 foi uma mulher: a matemática, física e cientista espacial norte-americana Katherine Coleman Goble Johnson. Ela faleceu no dia 24 de fevereiro, aos 101 anos de idade.

Katherine Johnson – foto capturada no site da NASA
Naming Event for the Katherine G. Johnson Computational Research Facility

Além do fato de ser mulher e ter trabalhado na NASA de 1953 a 1986, Katherine tem uma história de vida excepcional. Ela nasceu em 1918, em White Sulphur Springs, no Condado de Greenbrier, Estado da Virginia Ocidental, nos Estados Unidos. Filha de Joshua e Joylette Coleman, muito cedo demonstrou um talento ímpar para matemática.

Para continuar seus estudos após o ensino fundamental, precisou frequentar o ensino médio em outro condado, porque era vítima da cruel segregação racial praticada pelos Estados Unidos nos anos de sua infância/adolescência. Mesmo assim, enfrentando todas as adversidades, entrou com 15 anos na universidade. Seu talento fez com recebesse o incentivo de vários professores. Ela formou-se em 1937, com notas máximas em matemática e francês, aos 18 anos de idade.

Em 1953, Katherine inscreveu-se por duas vezes até ser finalmente aceita no novo time da NASA. Em pouco tempo adquiriu a confiança dos colegas em razão de seu conhecimento em geometria analítica. Seu raciocínio era rápido e preciso como um computador. Seguiu firme no exercício da matemática, ignorando as barreiras de raça e gênero, mesmo tendo que trabalhar, comer e usar banheiros separados de seus colegas brancos até 1958.

Katherine Johnson – foto capturada no site da NASA

Em 1962, Katherine verificou os primeiros cálculos de computador da órbita de John Glenn ao redor da Terra. Aliás, o astronauta pediu que a verificação dos números de seu computador de bordo fosse por ela realizada e se recusou a voar até a finalização da verificação, tamanha a confiança que transmitia.

Em 1969, Katherine Johnson foi, nada mais nada menos, que uma das responsáveis pelos cálculos da trajetória da missão Apollo 11. Sua atuação ainda se estendeu ao programa dos ônibus espaciais, nos satélites de observação terrestres e na futura missão a Marte. Em 2015, recebeu das mãos do Presidente Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade e seu nome foi citado como exemplo pioneiro de mulheres negras na ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Pouso os olhos na minha pequena calça desbotada e lembro do macacão Apolo 11. Em tempos tão difíceis como o que estamos vivendo, recolhidos em casa para evitar contágio de um vírus com circulação mundial, depositamos nossa esperança nos vários cientistas e profissionais da área de saúde para encontrar o tratamento adequado e a cura dessa pandemia. Que Katherine Johnson lhes sirva de exemplo, força, determinação e inspiração para o trabalho que têm pela frente!


Katherine Johnson

Essa é a minha teoria: goste do que faz, então você fará o seu melhor o tempo todo.

Estrelas Além do Tempo – Trailer oficial

Katherine Johnson – Entrevista em 2017
Katherine Johnson – Retrospectiva da NASA

Acesse também: Vidas em caixas, Sonhando juntos, Pausa para recarregar e Dê um spolier em sua vida.

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6 comments

  1. Essa pandemia do coronavírus está mostrando que somos todos iguais e expostos às mesmas doenças , independente de cor, credo, nacionalidade , renda ou o quer que seja que discrimine os homens. Essa é a grande lição : um mundo sem fronteiras. Se diferença existe , estão nas pessoas da ciência, saúde, segurança e tecnologia. Essas sim podem fazer diferença , através de pesquisas e ferramentas tecnológicas que mapeiem a população e suas características para o diagnóstico e a cura desse vírus que parou o mundo . Que os cientistas se inspirem em Katherine, para encontrar a luz na escuridão leque estamos ! É que os governos aprendam a priorizar a saúde e a educação ! É que se estabeleça a colaboração e a boa vontade entre os homens! Elzinha , excelente e oportuno post ! Parabéns 👏🏼👏🏼👏🏼

    1. Todos no mesmo barco! Fronteiras fechadas geograficamente e abertas por meio da tecnologia. Que as mentes e mãos desses cientistas seja iluminadas pelo espírito de Katherine Johnson, que nossos governantes aprendam a investir em educação e saúde e que a solidariedade e o espírito de coletividade se façam presentes! Obrigada amiga!

  2. Mulher,negra,com inteligência acima da média…em uma época que tudo isso era desvalorizado. E agora essa pandemia que nivela todos. Bom tema para reflexão.

    1. Mesmo com todas as dificuldades, Katherine desconsiderou todas as adversidades e seguiu em frente. Como ela mesma disse, faça o que gosta, então você fará o seu melhor. Sem classificações de sexo, cor ou raça, somos todos seres humanos. No momento temos que dar o nosso melhor para acabar com essa pandemia.

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