Lua feminina

Fim de tarde. As ondas arrebentam com força. A maré alta assusta. O som reverbera toda a violência do mar.

Ainda imperceptível, ela faz a maré recuar. Surge sorrateira, rompendo a escuridão. Liberta-se das sombras do Sol. Numa linha imaginária, despe-se de nuvens insinuantes. Aparece nua, inteira, solitária, revelando sensualmente seus contornos. Momento de apogeu. Refletindo as cores solares, imprime sua beleza máxima nos primeiros momentos da aparição: Lua cheia, radiante!

Flagrada rente ao horizonte, inunda de sonhos a imaginação dos admiradores. Alguns ousados, outros tantos secretos.

Sem pressa, ela tem a noite como cúmplice, realçando todo seu esplendor. Suas nuanças seguem seus passos, sutilmente. O dourado cede lugar ao prateado, sua cor duradoura. Do alto do céu, seu brilho se espraia sobre a imensidão do mar aberto.

Em terra firme, sua luz exibe uma natureza de sombras. O suficiente apenas para dar concretude aos sonhos jamais revelados. Movimentando-se no ritmo das horas, seduz pela sutileza de suas revelações.

Verso e anverso de sentimentos antagônicos preenchem o espírito: amor, paixão, sossego, desejo, ternura, loucura, recato, ousadia, força, fraqueza, energia, vida, saudade…

Sem perder a elegância, despede-se exausta. Seus encantos ainda persistem por algumas noites, mas, no momento, cede seu espaço ao radiante amanhecer.

Ciente da força divina da natureza, mistura-se aos reflexos da barra quebrando no lado oposto da imensidão do céu e retira-se para brilhar em terras distantes. Deixa sementes para germinar, lua feminina. Vinte e oito dias depois, completa seu ciclo. Ondulando sua força, movimenta as marés. Ressurge para brilhar em mais uma noite de feitiço.

Crônica publicada em Jurista Literário, São Paulo: MP Ed., 2009.


Acesse também: Verão que finda


Armandinho – Lua Cheia

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