Macambira e cajás

Quando estou no interior, gosto de desbravar caminhos, conhecer novas terras, descobrir encantos. De vez em quando, pego carona nas pedaladas do meu marido para fazer tudo isso.

Ele acordou cedo. Foi matar a vontade de subir e descer ladeiras, testando seus limites. Voltou para casa e chamou os amigos para conhecer seu percurso. No carro, logicamente. A turma não tinha o seu preparo físico, exceto seu companheiro de pedal.

Fomos de camionete. Um homem na direção, quatro mulheres na boleia (para quem não sabe, é a parte fechada da cabine) e três marmanjos na carroceria, indicando o caminho pelas ladeiras íngremes da última etapa do Desafio das Serras até a Pedra da Macambira – monumento natural, imenso monólito granítico, imponente, no município de Araruna/PB, divisa entre os Estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba.

De lá, uma amiga trocou de lugar pela carroceria. O sol bateu forte, queimando sua pele, mas o vento ameno trouxe o cheiro do mato verde temperando os pensamentos.

Viagem no tempo. Voltei aos passeios que fazia com meu avô paterno, quando enchia a camionete com os netos e os levava para desfrutar as maravilhas do sertão esbanjando fartura, riachos correndo, atoleiros, banhos nas sangrias dos açudes…

Seguimos na caça ao tesouro: duas cajazeiras centenárias carregadas dessa saborosa fruta nordestina. Duas espécies vizinhas, carregadas, fecundas, despejando no chão a produção daqueles frutos, ouro amarelo. Cajás maduros, polpudos, carnudos, prontos para serem devorados.

Em pouco tempo estávamos com o saco repleto. Não consegui me conter. Passei a saboreá-los ali mesmo, sem me importar com a poeira e a sujeira impregnadas na casca. Se ainda fosse moleca, era só passar na roupa e estava resolvido. Com a idade, os cuidados higiênicos surrupiam a graça de certos gestos. Para minorar a sujeira, retirei a pele da fruta – de tão delicada, não posso chamar-lhe de casca. Que deleite! Fruta colhida madura, sabor sem igual.

Voltamos rápido para casa, sedentos por um suco daquela iguaria, mas tinha que ser passado na peneira. Assim foi feito. Deixou-se de lado o eficiente e rápido liquidificador, para resgatar o sabor da infância, quando as frutas eram passadas delicadamente numa urupema e extraído o líquido precioso, grosso, exalando o perfume pela casa. Saboreamos cada gota. As duas jarras foram suficientes para matar a sede, mas ficou a vontade de retornar às cajazeiras para repetir a dose.


Professor Hermógenes

Se te contentas com os frutos ainda verdes,
toma-os, leva-os, quantos quiseres.
Se o que desejas, no entanto, são os mais saborosos,
maduros, bonitos e suculentos,
deverás ter paciência.

Senta-te sem ansiedades.
Acalma-te, ama, perdoa, renuncia, medita e guarda silêncio.
Aguarda.
Os frutos vão amadurecer.

Acesse também: Pausa para recarregar e Herança Saborosa


Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto – Tropicana

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20 Comentários

  1. Elzinha, nada como num fim de manhã preguiçosa de sábado como ler o seu delicioso texto! Mesmo sem ter vivenciado peripécias sertanejas, na imaginação vc me propiciou experimentá-las. Até o sabor do suco do cajá senti. Muiiiiito obrigada!!!E parabéns…

    1. Cada texto resgata um pouco das minhas próprias memórias de criança… passado já distante no tempo, mas que volta rápido quando da leitura de suas crônicas. Amo seus escritos, Elza!! Parabéns!!

  2. Elzinha, sua crônica me fez voltar à infância. Vivi momentos encantadores em férias com meus irmãos, por alguns interiores do nosso Estado (Fazenda Cipriana e Cauaçu, em Cruzeta, e Fernando Pedroza), cujas lembranças, despertadas por você, são bálsamos para a minha alma. Lembrei que durante a própria viagem para o interior já era uma verdadeira aventura, porque íamos (cinco irmãos) de caminhonete, todos de “cagalona” deitados em colchonetes, protegidos apenas por uma capota de lona que tinha nas laterais duas janelinas, de plástico, reclináveis manualmente, que se mantinham abertas por causa das amarrações por fitas, que eram duas de um lado e duas do outro. Só quem é da nossa época (para tras) sabe do que estou falando. Além dos cajas, cajus e mangas, que colhiamos dos pés ou apanhavamos do chão, os araças, as azeitonas roxas e as castanholas são frutas que marcaram a minha doce infância!

    1. Oi Janaina, nossas saborosas lembranças da infância, inesquecíveis!!! Sua descrição enriquece minha crônica. No politicamente perfeito de hoje, nem pensar em “cagalonas”, kkk. Muito obrigada amiga.

  3. Parabéns Elza, suas palavras me fizeram voltar à infância, e saborear o suco de cajá passado na peneira ,isto não tem preço.
    Um abraço e grata por ler suas
    Crônicas.
    Joselia gomes

  4. Nessa caminhada, lembrei das narrativas roseanas, daquele atemporal Guimarães Rosa. Foi uma viagem ao passado dos nossos ancestrais e de nossas origens. A cada curva, tal qual as veredas roseanas, encontrávamos algo ou alguém, como muito bem retratou Guimarães, peculiar àquele ecossistema. Diante da quase imensidão árida, apesar da época do ano, surge através de uma vereda que rasgava os serrotes um oásis onde grandes árvores teimavam em anunciar que aquele solo é fértil. A colheita e a degustação dos cajás ficarão na memória. Obrigado pela companhia e oportunidade.

      1. Parabéns Elzinha
        A foto e a viagem na crônica, me fez lembrar os caminho que traçava desbravando o brejo paraibano saindo de Areia aonde passei uma temporada nos alojamentos da UFPB. As vezes pegava a estrada em direção a Natal saindo pelo lado de Remígio, passando por Arara, ARARUNA e seguia por Nova Cruz ou Campestre e às vezes ia por Solanea, Bananeiras. Belas paisagens na fronteira desses estados

        1. Oi Zé Neto, muito obrigada. Essa região da Paraíba é muito bonita mesmooo. Quando está verde, então. Feliz em compartilhar com meus leitores essas minhas idas e vindas, ainda mais quando resgatam as lembranças de cada um. Valeu!

  5. Que narrativa maravilhosa, Elzinha. Repleta de sensações, cores e sabores. Uma verdadeira poesia. Tive a sorte de estar nessa ocasião e desfrutar desses doces momentos. Parabéns pelo texto. Encantador!👏👏😍😍

    1. Muito obrigada Aninha, vocês são parte da crônica. Acho que vou trocar de lugar com seu marido. A narrativa do comentário dele está melhor do que a minha,kkk

  6. Muito boa essa crônica! Parabéns Elzinha. Mesmo não estando presente, viajei na leitura e na imaginação, quase sentindo as sensações ali descritas. Só que ao invés dos cajás, com água na boca fiquei. Kkkkk

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