Mãos em trama

No dia mundial da fotografia, posto “Mãos em trama”, crônica publicada no livro “Sertão, Seridó, Sentidos”, que retrata a região em imagens e palavras.


Piso os caminhos do Seridó. Nas poucas casas de fazendas habitadas, lamento a perda dos hábitos seculares, egoísmo de uma moradora urbana, na contramão do conforto trazido pela modernidade, agora acessível até para os que aqui ficaram.

Conforto-me com a parede escurecida pelo fogão a lenha, persistindo nas cozinhas sertanejas, responsável pelo sabor peculiar do cozimento, variando a temperatura de acordo com a lenha utilizada.

Dos apetrechos domésticos, lembro-me do pilão, dos potes e das quartinhas de barro resfriando a água coada em pano de algodãozinho, das bacias de ágata para lavar a mãos e poupar a água preciosa, dos candeeiros formando sombras tremulantes. Quase todos peças de museu.

A montaria foi substituída pelas rodas da motocicleta, mais rápida, mais global, menos sertão. Ao invés do aboio, o gado agora reconhece o barulho do motor. Enquanto não encontram um instrumento digital, o chocalho ainda serve para indicar a localização da rês embrenhada na caatinga.

Nos terrenos das casas desalmadas, o mato cresce à vontade, alheio à ausência da foice e da enxada. Portas trancadas, janelas fechadas, molduras sem gente.

A chuva ressuscitou a semente adormecida, fez renascer o verde da jitirana, o mata-pasto espalhando-se, tingindo o chão de uma cor passageira, sobrando pasto, faltando gado – terras e terras sem o badalo do chocalho.

Em pouco tempo, o sol resseca a folhagem; rareia a pastagem, a sombra, o viver, justificando a debandada. O cinza restabelecido enaltece a coragem dos persistentes, dos renitentes, incapazes de abandonar sua terra, suas raízes, seus costumes.

Mês de agosto, últimos resquícios de verde. Deparo-me com o mulungu em flores, completamente desnudo de folhas, mas adornado com o desabrochar da bela flor sertaneja. Laranja quase encarnado, colorindo o céu anil como pano de fundo.

E o olhar contemplando os passos do Sertão. Vida de espera. Nesse compasso, o homem e a mulher sertanejos desenvolveram suas habilidades manuais.

Vejo um braço enrugado pelos anos de peleja, uma mão amparando, sutilmente, a flor prestes a desabar. Enquanto o tempo não traz os seus efeitos, permanece a beleza do momento, capturado por olhos saudosistas dos costumes de outrora.

Mãos ritmadas seguiam um ritual secular. A linha é torcida e contorcida, ganha forma nos pontos e laçadas das agulhas. Figuras labirínticas revelavam-se paulatinamente. As bordadeiras dão vida aos tecidos, milimetricamente trabalhados por mãos habilidosas, com a presteza de uma máquina, revelando flores sertanejas, adornos naturais de uma terra embrutecida pelas intempéries.

Manuseando as ferramentas, o seleiro arremata a sela, justificando a sua fama. No canto da sala, o gibão aguarda o herói anônimo do Sertão. Na oficina, resquícios de uma profissão em extinção, preservada nas mãos do mestre do couro, cortando, traçando e costurando chibatas, arreios, chapéus e vestimentas do vaqueiro nordestino.

Na luz da barra quebrando, as mãos firmes ainda esgotam o líquido branco e morno, espumando no balde de zinco, sob o olhar faminto da cria. A mesma mão que mão que manuseia a foice e a forquilha, a enxada e a chibanca, o ferro e o machado, fazendo cercas, ferrando gado, represando rios, arando a terra, plantando a subsistência.

Mãos elevadas constantemente, em humildade, apesar dos desalentos, sem revolta, conformadas de sua sina. Mãos em prece, por uma terra de glória como se viu no passado. Amparadas por braços firmes, disfarçadamente delicados na solidariedade do sertanejo. Amparo de flores e de gente.

Mãos traçando palavras, expressões, sentimentos. Tentativas inesgotáveis de expressar a alma de um povo. Idas e vindas em estradas de terra seca e batida, percorrendo um chão de raízes.

Poucas fazendas bens preservadas nas mãos de proprietários renitentes; muitas, quase inabitadas, casarões desalmados, velhos currais abandonados. Grossas paredes: ontem, brancas e limpas; hoje, enegrecidas pelo tempo e pela falta de uso. Impossível estancar a velocidade das mudanças.


Flor de Mulungu

Acesse também: Sertão noturno, Caminho da infância, Ouro branco, Sabor preservado, Aboiando.

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