Mate a cobra e mostre o pau

A carraspana

Passei a noite sonhando com cobra. Não entendo de premonição, nem de jogo do bicho, mas lembrei de uma história por mim vivenciada.

A história é sobre cobra, mas começa com gatos; aliás, com boi.

Fomos assistir à pega de boi no mato na Fazenda Pitombeira em Acari/RN, desfrutando a hospitalidade do casal amigo Marcus e Verônica.

Enquanto os bravos vaqueiros encourados corriam em meio aos espinhos da caatinga para pegar o boi, meu marido tomava água que passarinho não bebe.

Desacostumado aos efeitos da marvada, logo estava com o juízo esquentado. Voltamos, então, para fazenda Ingá do meu tio Maurício, onde iríamos dormir.

O trajeto de apenas nove quilômetros foi demorado, pois o juízo esquentado teimava em parar a cada 100m, porque a cabeça estava mais acelerada que o carro. Ao cruzar a rodovia, fez o resto do caminho a pé no barro batido, para queimar o excesso de álcool.

Pega de boi no mato | Fazenda Pitombeira | Acari/RN

O gato

Chegamos à casa da fazenda e estranhei a quantidade de gatos novos e um mais velho, que não era galo mas posava de dono do terreiro.

Fomos recebidos por Sebastiana, minha querida babá quando criança. Ficamos no alpendre, enquanto Célia, esposa de meu tio, foi providenciar uma sopa bem quente para aliviar a carraspana de Henrique.

Os gatos famintos foram atraídos pelo aroma da sopa e logo estavam miando, entrelaçados entre os humanos.

Bem sentado, Henrique recebeu a bandeja no colo com o prato de sopa fumegante. Um dos gatos novos foi mais ligeiro e pulou para sua coxa, antes mesmo da primeira colherada.

Foi uma luta conseguirmos colocar os gatos novos para fora. O mais velho – cria de um vaqueiro da fazenda – não se deu por vencido. Insistiu em permanecer no alpendre e entrou de casa a dentro, sem qualquer cerimônia.

O gato foi posto para fora e fechamos a parte de baixo da porta dupla da ancestral casa sertaneja na vã tentativa de deter o intruso.

Ele saltou, equilibrou-se na parte de cima da porta baixa (como um integrante do Cirque du Soleil) e pulou para dentro de casa. Foi expulso, mas permaneceu atento a qualquer brecha.

Naquela noite, a casa da fazenda, sempre aberta à hospitalidade sertaneja, foi fechada para que seus habitantes pudessem comer em paz.

Depois do jantar, a conversa no alpendre recebeu a visita ilustre do nosso amigo Marcos Lopes, um dos organizadores do Forró da Lua e do Museu do Vaqueiro do RN.

O paleio prolongou-se e chegou até os espíritos dos antepassados. Com o apressado da hora, Marco Lopes tomou seu rumo e os outros recolheram-se para um merecido descanso.

Sempre que vou à fazenda Ingá, ocupo o primeiro quarto de baixo, com uma grande janela voltada para o oitão. Henrique gosta de dormir com a janela aberta para o refrigero da cruviana.

Naquela noite, optamos pela dormida no sótão, quarto dos meus avós quando moravam no Ingá.

Uma pequena janela, voltada para o nascente com vista para o Bico da Arara, garantia a ventilação do quarto e não teria perigo de o gato atrevido chegar até lá.

O susto

Dormiria na cama de casal dos meus avós, afastada da parede e Henrique na rede no meio do quarto. Antes de apagar a luz, observei uma parte do forro do teto aberta, bem no canto do quarto.

No meio da noite, embalada no sono, ouvi um barulho seco, abafado. Será que era sonho? Ou o espírito de Vovô Chiquinho pisava de mansinho no assoalho de madeira?

Pelo sim, pelo não, preferi acordar Henrique. Precisei chamar três vezes até ele despertar. Avisei que caíra alguma coisa no quarto. Ainda meio triscado, meu marido disse que recebesse; respondi que achava que não era boa coisa; de pronto, ele retrucou: devolva.

Acendi a luz para enxergar algum intruso no sótão, ou mesmo uma alma penada. Ainda bem que não precisei colocar meus pés no chão; bastou esticar a mão para acionar o interruptor.

Se Henrique estava desperto, tenho minhas dúvidas, mas o meu grito tratou de acordá-lo bem rapidinho.

Serpenteando no canto da parede, próxima à cama, uma cobra enorme provocou um grande susto! Ligeira, fiquei de pé na cama aos gritos. Henrique pulou da rede à procura de algum objeto para matar a cobra. O único disponível era uma cadeira.

Foi um tal de bate, bate no assoalho de madeira, reverberando o som pela casa, e nada de acertar a cobra. Até que ele conseguiu prendê-la atrás da porta. Segurou firme e me pediu para ir buscar algo para nocautear a serpente de uma vez.

Desci correndo a escada e me deparei, no pilar do primeiro batente, com um cinzeiro pesado de metal. Voltei correndo para o sótão.

A cobra continuava presa, mas meu marido soltou os cachorros: Elza, um cinzeiro?!

– É pesado; você não é bom de pontaria?! Respondi.

Henrique pediu para eu descer e trazer algo que realmente matasse uma cobra! Desci e voltei com uma serra de pão – foi a única coisa de utilidade que encontrei!

Só não fui xingada, mas a cara de Henrique não precisou dizer mais nada! Desci novamente e lembrei de um rodo no banheiro.

Dessa vez o objeto foi eficiente e a pontaria de Henrique, certeira. Com a cobra morta, disse que não dormiria mais no sótão, pois o buraco continuava lá e de onde uma caiu, outras poderiam repetir a dose.

Outra surpresa

Descemos para o quarto de sempre. Com tanto rebuliço, estávamos morrendo de calor. Henrique insistiu em abrir a janela. Eu alertei sobre o gato…

Confiante em que o animal tivesse desistido de entrar em casa, ele abriu despretensiosamente a janela. Que medo! Assim que abriu, deu de cara com a cara do gato. Fechou rapidamente a janela e caiu sentado na cama.

Todo suado, ele resolveu tomar um banho de água gelada. Entrou tranquilo no banheiro e tomou um banho refrescante. Assim que fechou o chuveiro e abriu a cortina do box, deparou-se com uma cobra venenosa entrando por uma brecha da porta.

Assustado, desarmado, nu e todo molhado, encontrou na toalha a salvação. Feito um toureiro, sacolejou o pano e a cobra recuou.

O problema maior era voltar para o quarto. Para isso, tinha que passar por duas salas cheias de móveis antigos na escuridão. O medo foi grande de a cobra lhe picar; chegou no quarto branco que nem vela!

– O que houve Henrique? Indaguei diante de sua fisionomia assustada.

– Outra cobra e dessa vez é venenosa! Cascavel ou jararaca, tanto faz; não fico mais um minuto aqui. Vamos para Natal.

Mesmo com todo rebuliço, os donos da casa continuavam no sono ferrado. Tio Maurício, um pouco “anestesiado”; Sebastiana também não acordara.

Batemos forte na porta do quarto dos donos da casa até acordá-los. Tio Maurício e Célia saíram assustados do quarto. Às duas e meia da madrugada, só poderia ser algo muito grave.

– Aconteceu alguma coisa? Ele indagou.

– Aconteceu! Duas cobras numa mesma noite. Tio Maurício duvidou, disse que nunca viu cobra dentro de casa. Henrique respondeu: eu mato a cobra e mostro o pau, desde que não seja cinzeiro ou serra de pão, rsrsrs.

Diante da dúvida, Henrique subiu ao sótão e trouxe a cobra morta dentro de um saco plástico. A essa altura, a fome bateu. Abrimos a porta da casa para ventilar e quem aparece? O danado do gato. Com o maior cuidado, foi direto investigar a cobra morta dentro do saco.

Resolvemos tomar uma coalhada antes de partirmos de volta para Natal. Sentamos nas cadeiras da mesa principal com os pés cruzados nos assentos, com medo da cobra venenosa aparecer.

Abastecidos de coalhada com rapadura, saímos no breu da madrugada, antes de o sol raiar; rabinho entre as pernas, com medo das cobras. O gato pôde, enfim, tomar conta da casa.

Enfrentamos a estrada na madrugada, com um olho no peixe e outro no motorista, para não o deixar dormir. Chegamos em casa às seis e meia da manhã, para contar a história.

Bico da Arara na Fazenda Ingá | Acari/RN

P.S. A preocupação de Sebastiana era a de que eu nunca mais quisesse retornar ao Ingá, com medo de cobra. Avisei que não se preocupasse que voltaria sempre à fazenda da minha infância; não seria uma ou duas cobras que iriam me afastar de terra tão querida!


Acesse também: Livro “No Rastro das Águas” e “Sertão, Seridó, Sentidos“.

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4 comments

  1. Que história mais maravilhosa foi essa, Elzinha!? Como sempre, sua narração me transporta para dentro dos fatos como se eu estivesse vendo tudo com riqueza de detalhes!
    Ah, e amo qualhada!

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