Minha ini(A)miga, a bicicleta

Há pouco mais de dez anos, meu marido entrou para o mundo do pedal. Um novo lazer para a família: pai, mãe, filho e filha pedalando juntos pela cidade – uma das vantagens de sermos pais muito jovens. O trajeto foi aumentando, a musculatura fortalecendo-se, o espírito competitivo recrudescendo, o sol acendendo uma vontade crescente, os sais minerais aflorando à pele.

Eu, como sempre mais comedida, fui ficando para trás. E ele alimentando aquela vontade crescente, que virou paixão, necessidade. A endorfina estabeleceu-se, os percursos deixaram o asfalto e seguiram as trilhas do entorno. Quando se deu conta, já pedalava até 280km em um único dia.

Quando me dei conta, os fins de semana sem sua presença viraram rotina. E o pior, as pedaladas são programadas em primeiro lugar com os amigos ciclistas em telefonemas animados, risadas e mais risadas, feito adolescente descobrindo a vida.

Nos encontros com as mulheres dos amigos ciclistas, a reclamação e relatos são idênticos. Fomos literalmente deixadas para segundo plano. Isso quando as bikes não recebem apelidos carinhosos, porque os cuidados já são por demais exagerados. Conselho de amiga: jamais toque na bicicleta do seu marido, namorado, namorido. Ela é por demais “sensível”!

Minha filha diz que fui trocada por ela. Meu filho – que ainda pedala com o pai – o defende, dizendo que o pedal alivia o stress e o deixa bem mais tranquilo para enfrentar o trabalho estafante. Cumplicidade em sentido estrito. O acusado contra argumenta que é melhor e mais saudável estar pedalando do que fazendo outras coisas.

Um rápido passeio pela cidade comprova que a bicicleta chegou para ficar. São inúmeros ciclistas pedalando à noite, durante o dia, com ou sem ciclovias, no trajeto casa/trabalho, como atividade física ou por pura diversão. Meio de transporte ecologicamente correto.

Nessa hora, melhor agir com inteligência e aliar-me à minha inimiga, a bicicleta. Decidi voltar a pedalar. O maridão, entusiasmado, logo mandou revisar a minha antiga bike. E eu lutando para sair da letargia, encarar uma atividade aeróbica, perder os quilos extras e melhorar meu condicionamento físico.

Reinicio insegura, mas quem aprendeu a andar de bicicleta na infância não esquece jamais. Demoro um pouco a me familiarizar com os passadores, mas logo retomo à agilidade de criança. Olhos no asfalto, desviando das imperfeições/armadilhas, ouvidos nos carros que trafegam na mesma direção. Sigo planejando futuras pedaladas, reaquecendo os músculos fortalecidos pelo pilates até o limite do corpo. Fazer da bicicleta minha nova amiga e compartilhar juntos esse esporte/diversão.


Melim – Ouvi Dizer

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12 comments

    1. Não tenho mais agilidade para andar de bicicleta, mas quando criança , pelas ruas de Currais Novos e São Tomé, era a maminha diversão preferida

  1. Para evitar problemas que a dedicação ao esporte possa trazer ao ambiente familiar, resolvi me precaver…. fiz de minha paixão a da minha esposa também. Comecei meio sem interesse, mas na sua companhia despertou o amor pelo ciclismo e hoje, juntos, compartilhamos o estilo de vida que a bike nos trouxe: saúde, amizades para a vida toda, bons hábitos, e principalmente a certeza que até onde o destino puder nos levar, estaremos felizes com o companheirismo sincero, os momentos de prazer e sofrimento, mas que só são válidos na companhia de pessoas que desfrutam dessa mesma paixão pela bicicleta.

    1. Gostei de ouvir seu depoimento Ewerton, continuem firmes nesse hábito saudável de vida, amizade e companherismo. Espero chegar ao mesmo grau de paixão pela bike.

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