Muros, muralhas, murais

Kobra | Cacau | São Paulo, 2017 | Foto capturada no site do artista

O muro surgiu para proteger e impor limites. De arbustos, varas, madeiras, pedras, alvenaria ou qualquer material que lhe faça a serventia. Cresceu, circundou fortalezas, delimitou cidades, virou uma Grande Muralha, percorrendo mais de 21.000km para defender a fronteira do império chinês.

Chegou a dividir uma mesma cidade – Berlim, repartindo a nação alemã em duas doutrinas políticas opostas: a Ocidental (capitalista) versus a Oriental (comunista) em plena Guerra Fria. E ninguém ousasse atravessar essa nova fronteira, corria o risco de morte ou prisão.

Mas eis que chega o olhar ilimitado do artista e lhe concebe novas funções. Os muros e paredes são transformados em murais. Lugares para transmitir uma mensagem através da arte do Grafite. O pouco que restou do Muro de Berlim, derrubado em 1989, virou galeria de arte, registrando acontecimentos relacionados à sua existência.

Muro de Berlim, 2008

Banksy, com surpresas e mistérios, produz uma arte satírica de rua, executada usando uma técnica de estêncil. Seu trabalho é ambíguo, rico em humor sombrio e frequentemente legendado com frases de efeitos subversivos que fornecem comentários comoventes e potentes sobre os aspectos sociais e políticos da sociedade contemporânea.

Banksy | Inglaterra, 2020, foto capturada no site do artista

No Brasil, o nome mais expressivo é do paulista Carlos Eduardo Fernandes, o Kobra. Nascido em 1976, começou a desenhar em muros na clandestinidade, como pichador, ainda durante a adolescência. Sua arte urbana começou a ganhar visibilidade a partir de 2000. Da periferia de São Paulo o artista ganhou o mundo como grafiteiro e muralista, serpenteando seu talento em escala monumental.

Kobra | Olhares da Paz | São Paulo, 2018, foto capturada no site do artista

No painel “Olhares da Paz”, em São Paulo, o brasileiro Kobra celebra a paz e a união dos povos no mundo sem fronteiras simbolizado por personagens vencedores do Prêmio Nobel da Paz como Albert Einstein, Nelson Mandela, Malala Yousafzai, Madre Teresa de Calcutá e Dalai Lama.

Okuda San Miguel, o pintor espanhol, utiliza uma linguagem iconográfica única de estruturas e padrões geométricos multicoloridos nas ruas, ferrovias e fábricas abandonadas em todo o mundo. Suas obras frequentemente levantam questões sobre o existencialismo, o universo, o infinito, o sentido da vida e as contradições da falsa liberdade da sociedade, mostrando um conflito entre a modernidade e nossas raízes; enfim, entre o homem e ele mesmo.

Okuda | Inka-pendencia | Lima, Peru, 2019, foto capturada no site do artista

Em sua obra Inka-pendencia, Okuda ilustra a parede lateral do Centro Cultural de Espanha em Lima. Inspirado na cultura andina, o artista pintou seu primeiro mural na capital peruana, transformando suas deusas em mulheres incas, cercadas por xamãs, pássaros e uma lhama multicolorida. Na peça, incorporou a ornamentação e a cultura inca em paisagens e personagens, com picos de montanhas acentuados que evocam o Peru.

Mas os artistas querem mais na sua ilimitada criatividade. Utilizando paredes e muros, as obras agora são tridimensionais ou quadrimensionais, criando efeitos e ilusões através de ângulos e características já existentes em paredes e edifícios, revitalizando zonas cinzas e sem vida das cidades, trazendo cor e novas identidades que se transformam em atração turística.

O artista americano John Pugh está há mais de três décadas expondo seu trabalho nos muros da cidade. Ele próprio apresenta sua arte: “Sou um artista de trompe-l’oeil focado principalmente em arte pública. Descobri que a ‘linguagem’ das ilusões em tamanho real permite que eu me comunique efetivamente com um público muito grande. As pessoas gostam de ser visualmente enganadas. Uma vez intrigado com a ilusão, o espectador é convidado a cruzar visualmente o mural para explorar e descobrir o conceito mais profundo da peça. Também descobri que, ao criar uma ilusão arquitetônica que se integra ao ambiente existente, tanto ótica quanto esteticamente, a arte transcende a separação que a arte pública às vezes produz”.

John Pugh | Light Walk | Palo Alto, Califórnia, 2016

Desde os idos dos anos 70, o artista francês Patrick Commecy e sua equipe A-Fresco projetaram e produziram mais de 300 murais, desenvolvendo métodos de trabalho que combinam rigor e criatividade. As pinturas em trompe-l’oeil, monumentais, perenes e adequadas para todos os públicos, melhoram o “ambiente da cidade” e de seus habitantes, com uma pitada de bom humor.

Patrick Commecy e A-Fresco | Cinéma Cannes |Cannes, França, fotos capturadas no site do artista

Manuel Di Rita, conhecida como Peeta é o nome do grafite italiano. Nas suas composições pictóricas, esculturais e murais, as formas geométricas se comportam à medida que interagem com o ambiente circundante. Em particular, ao pintar nas paredes, seu objetivo é criar um diálogo com os parâmetros estruturais e culturais do contexto circundante, arquitetônico ou não.

Peeta | Biennale della Streetart | Padua, Itália, 2019
Peeta | Promenade du Port | Porto Cervo, Itália, 2019, fotos capturadas no site do artista

Os artistas e obras são inúmeros. O Grafite espalhou-se pelos muros, paredes e fachadas do mundo. Veio para quebrar limites e fronteiras; transforma o tédio do cinza em alegria, criando obras de arte a céu aberto no cenário urbano.


Facts for you | Incredible Before & After Street Art Transformations That’ll Make You Say Wow

Acesse também: Carrières de Lumières, Imaginária, Frida Kahlo e O Ateliê de Aécio.

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3 comments

  1. Parabéns mais uma vez Elzinha por tanta riqueza e leveza que compartilha com seus leitores. É sempre uma leitura leve e rica em informações e beleza. 👏🏻👏🏻👏🏻

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