Música e adolescência

Ilustração de Andrea Ebert – Visite seu site: www.andreaebert.com

Outro dia passando por um sinal, deparei-me com um vendedor de pirulito de tabuleiro. Dei uma volta no tempo e fiquei imaginando se teria o mesmo sabor da infância, mas não ousei experimentar, achei mais prudente resgatar nos furinhos da tábua da memória o sabor daquele doce infantil.

Vasculhando leituras e ouvindo podcasts, deparei-me com tentativas da neurociência em explicar o porquê de a comida ser tão marcante na formação do paladar quando criança e a música da adolescência permanecer tão enraizada na memória dos idosos, sem ser atingida pelo desgaste da idade.

Na tentativa de desvendar esse ilustre desconhecido que se chama cérebro, os cientistas demonstram que na adolescência (fase dos 12 aos 24 anos) há um crescimento do circuito cerebral que utiliza a dopamina, um neurotransmissor que nos faz buscar prazer e recompensa. Essa busca incessante do prazer leva o adolescente a se tornar impulsivo, intenso e rebelde, alheio aos atos inconsequentes.

Aliado a esse estado de espírito, que busca emoções e sensações intensas, surge a música como forte produtora de dopamina. Se for contestatória, inovadora e rebelde, está sacramentado o ambiente perfeito para reunir o grupo social de adolescentes na busca do se encontrar.

Os Beatles, mesmo com a aparência de comportadinhos (cabelos “mod top” e paletós no início da carreira), representavam uma ruptura com os padrões de sua época e levaram milhares de adolescentes, sobretudo as mulheres, à histeria coletiva na década de 1960-70.

Ajuste um pouco o calendário, dê uma paradinha em agosto de 1969 e convide a turma para um festival de música e arte ao ar livre, numa fazenda produtora de gado leiteiro, nos arredores da pequena cidade de Bethel, distante apenas duas horas de carro de Nova Iorque. O convite reuniu quase meio milhão de pessoas, muitos dos quais adolescentes, e tornou-se símbolo do movimento de contracultura, divulgando paz e amor, sob efeito do alucinógeno LSD e outras cositas más, embalados pela música de Janis Joplin, Joe Cocker, Jim Hendrix e tantos outros que tocaram entre os dias 15 e 18 de agosto para consagração do lendário Festival de Woodstock.

O movimento hippie influenciou o rock, os cabelos cresceram, as calças diminuíram a altura do cós, a guitarra se impôs. Surgiram The Rolling Stones, The Animals, The Who, Pink Floyd, Supertramp, Genesis, Kiss, Black Sabbath, Queen, AC/DC, Led Zeppelin, Aerosmith, Scorpions, Guns N’Roses e tantos outros que arregimentaram fãs adolescentes das décadas de 70 e 80.

Entrei na adolescência em 1976 e curti as bandas de rock. Depois chegou a moda da dance music, quando em 1978 o filme “Os Embalos de Sábado à Noite” levou milhares ao cinema; lembro de nossa insistência na catraca do cinema Rio Grande para driblar os fiscais do Juizado de Menores, porque ainda não tinha completado os 14 anos exigidos pela censura. Tudo para aprender os passos de John Travolta e repeti-los nas discotecas que tinham como inspiração o Studio 54 de Nova Iorque e que eu, assim como tantas outras, só poderiam frequentar depois dos 15 anos (marco estabelecido pelos pais conservadores).

Pois é, a curva do tempo oscila ao sabor da música. Hoje os adolescentes não precisam driblar a censura para assistir aos ídolos musicais. Os streamings levam até eles uma infinidade de músicas. Difícil mesmo é escolher entre tantas opções. Mesmo assim, Ed Sheeran, o compositor e cantor britânico, consegue atingir cifras bilionárias. Isso mesmo, suas músicas chegam a alcançar bilhões de visualizações no YouTube.

Muito provavelmente, os jovens de hoje serão idosos com as músicas da adolescência sedimentadas na memória. Resta estudar se as memórias musicais de seus pais são transmitidas pelo DNA. Muitas, por sua qualidade, nem precisam da genética, resistem ao tempo e permanecem eternas para qualquer idade.


The Beatles Welcome Home to England (1964) | British Pathé
Janis Joplin em Woodstock
Mick Jagger – Old Habits Die Hard (Official Video)
Guns N’ Roses – Sweet Child O’ Mine (Official Music Video)
Ed Sheeran – Shape of You (Official Video)

Acesse também: Não nasci passarinho, Sonhando juntos, Descoberta musical e Música em poesia.

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