Natal, Hope e SCBEU

Foto capturada no site do Project Hope

Espalhados na sala de estar, as crianças e adolescentes da Rua Capitão Abdon Nunes recebiam as primeiras lições de inglês com a professora Diane Benjamin, farmacêutica do navio/hospital HOPE, atracado em Natal/RN em fevereiro de 1972, para atender a população carente de uma medicina mais avançada.

Estava com oito anos de idade e foi o meu primeiro contato com o inglês. Lembro bem da visita que fizemos ao navio, levados por nossa teacher, matando a curiosidade dos alunos e com direito a um jantar no restaurante bandejão (uma novidade naquela época), lugar onde descobri o sorvete de morango, strawberry para ser mais precisa.

O navio zarpou no final de 1972, mas deixou em terra o escritório do Project Hope, a minha vontade de continuar os estudos da língua inglesa e uma amizade fraterna entre mamãe, Diane e Tom Moore, que terminou casando com uma natalense, Lia Estela.

Matriculei-me na escola de inglês da Sociedade Cultural Brasil Estados Unidos – SCBEU, localizada no terreno que se estendia da Avenida Presidente Getúlio Vargas até a Rua Coronel Joaquim Manoel, com várias construções esparsas que abrigaram o Consulado Americano na época da Segunda Guerra Mundial. Eu contava com pouco mais de 10 anos, mas já percebia a primeira escola de inglês da cidade como point da moçada.

No primeiro semestre, Silvino Melo apresentava aos alunos os pronomes He e She, dobrando os braços para simular a força dos homens e arredondando-os para simular as curvas femininas, numa técnica pedagógica que ficou gravada até hoje, rsrsrs.

Marília Varela Bezerra tinha acabado de retornar de uma temporada com a família nos Estados Unidos e mantinha a ordem, imputando multa para quem falasse português em sala. A rigidez sertaneja mesclando-se à disciplina americana.

Petit das Virgens circulava com seu eterno macacão jeans, óculos a la John Lennon, cabelos compridos, estilo Hippie, típico de quem tinha morado nos Estados Unidos em plena efervescência do movimento.

Carismático, fazia sucesso como professor e suas aulas eram bastante concorridas. Certa vez, nos primeiros dias do semestre, com a sala lotada, uma loira alta e linda apareceu na porta, fazendo biquinho e pedindo uma vaga. Petit olhou para um lado e para outro e só tinha disponível a sua cadeira. Preferiu perder o assento, mas não aquela aluna.

Assim que autorizou a entrada, a loira deu uma de esperta, puxou a mãe pelo braço e a acomodou na cadeira gentilmente oferecida pelo professor, que perdeu a cadeira e ganhou uma coroa. Eu, na mais pura inocência, sem qualquer malícia, nem percebi esse fato acontecido na minha turma e contado pelo próprio protagonista, rsrsrs.

E assim seguia Petit, com violão a tiracolo para entoar as baladas do Nobel Bob Dylan, Like a Rolling Stones, procurando encontrar respostas para tantas indagações. The answer, my friend, is Blowin’ in the Wind

A música era bastante valorizada e os discos e revistas americanos ficavam disponíveis na construção mais próxima à Avenida Getúlio Vargas. Naquele bloco também estava a direção/secretaria e a cantina mais ao lado, com uns bancos de cimento que permitiam uma bela vista da Cidade Marinha.

O terreno era acidentado, com algumas construções no meio, incluindo um laboratório linguístico (destinado aos alunos do último ano) e salas de aula. Tinha uma ladeira para carros ligando a parte mais alta até a parte baixa, e um caminho cimentado que abrigava alguns bancos sob cajueiros. A biblioteca, já voltada para a Rua Coronel Joaquim Manoel, dividia a construção com poucas salas de aula.

Com tanto espaço disponível, as turmas de adolescentes aproveitavam para se encontrar, paquerar, namorar e fazer amizades. Eu era muito nova para aproveitar o embalo, mas a SCBEU sabia movimentar os alunos e até os apresentou ao Halloween, festa completamente desconhecida na cidade.

Fiz o curso regular completo e, ao final, recebi o diploma de Teacher Training Course, assinado pelo Presidente da SCBEU, Protásio Pinheiro de Melo, e pelo Diretor, Lúcio Brandão. Estava apta a lecionar inglês com apenas 14 anos de idade e poderia me juntar ao time dos meus professores, que a lembrança alcança: Silvino Melo, Petit das Virgens, Domingos Guará, Marília Varela Bezerra e Armando.

O terreno terminou sendo vendido e hoje é ocupado por vários prédios residenciais, mas a SCBEU marcou a sociedade da época, criando vários vínculos de amizade, sedimentados nas lições do livro Life with The Taylors.

Diploma da SCBEU – Teacher Training Course

THE TAYLORS BEGIN THE DAY

– It is a hot day in July.
– Mrs. Taylor gets up early.
– She prepares breakfast for the family.
– Bobby looks for his fish pole. …


Navio-hospital USS HOPE (1972)
Bob Dylan And Joan Baez – Blowin’ In The Wind (1976)

Se quiser saber mais da história do SCBEU, procure o livro do professor Juarez Chagas “Nos Bons Tempos da SCBEU: Viagem Nas Memórias dos Anos Dourados de Natal” ou acesse o blog http://juarez-chagas.blogspot.com/


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Acesse também: Soltador de pipa, Zefa, a flor da paixão, Bares da vida, Música e adolescência.

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6 comments

  1. Também estudei na SCBEU nos anos de 76,77 e 78 professores: Isolda, Roberto, Petit e Assivaldo, acho que Robson no laboratorio e os demais professores Paraguassu, Juarez, Mildred, Guará e muitos outros que não lembro mais o bom. Foi maravilhoso o tempo que lá estudei, um ambiente super aconchegante onde fizemos boas amizades que perdura até hoje.
    Tínhamos o costume de na hora do intervalo sentarmos no banco que dava para apreciar o mar, a praia dos Artistas, a praia do meio, como nossas manhãs eram lindas. Naquela época eu tinha 16, 17 e quando tive que sair por incompatibilidade de horários pois estava para fazer o vestibular eu ia fazer 18 anos.
    Até hoje se fechar os olhos parece que estou dentro da sala de aula, assistindo aquelas aulas maravilhosas.
    Fechei a prova de Inglês do vestibular, acertei todas as questões, foi muito gratificante , pois tudo que aprendi na SCBEU tinha tido um bom aproveitamento. Tive muita pena porque sai no penúltimo estágio, só faltava conversação para eu terminar o curso completo, depois que passei no vestibular em 79, não voltei mais pra terminar.
    Sou muito feliz de ter feito parte da grande família SCBEU. Éramos adolescentes felizes e cheios de sonhos.

    1. Além de nos proporcionar um excelente ensino de inglês, a SCBEU criou laços de amizade e boas recordações para a vida toda. Acesse o post “Cidade Marinha” para relembrar um pouco a vista da Avenida Getúlio Vargas.

  2. Elzinha, viajei com as lembranças tão bem descritas. Também fui dessa época só que noutra idade. Tive a « sorte » de ter Protasio de Melo como professor que implicava comigo porque eu gostava de conversar…. tivemos o privilégio de viver Natal.

    1. Oi Cinara, nem somos tão distantes assim em idade. Vivemos uma Natal bem diferente e muito mais agradável. Muito obrigada, continue firme na leitura. Abraços.

    1. A SCBEU marcou mais de uma geração de Natal. Professores e alunos fazendo essa história. Muito obrigada Domingos, compartilhe à vontade o post.🤗

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