No Rastro das Águas – Capítulo 14

(…)

A luz do amanhecer afastava todos os seus temores. Voltava a ser aquele menino forte e destemido, para desbrava todos os espaçosos cômodos de sua nova casa. Brincava de esconde-esconde com Amália, que o seguia com passos inseguros. Ritinha coordenava os afazeres domésticos, já planejando a compra de uma mobília nova para fazer frente à casa recém-construída, bem mais ventilada que a anterior. Antônio arrodeava a casa, certificando-se da escolha correta como ponto estratégico, em caso de alguma emergência. Afinal, havia um grande motivo para preocupação para os fazendeiros e coronéis de então e até seu próprio filho já testemunhara o fato no início do ano.


Nas proximidades da casa grande do sítio Alívio, de propriedade de seu avô Manoel Salustino, onde passava alguns dias, então com três anos e cinco meses, José brincava com seu primo Sílvio. De longe, avistou seu tio Lindolfo aproximando-se num galope ligeiro. Apressado, falou com sua avó, D. Ananília, e retornou na mesma carreira. Os meninos pararam a brincadeira e ficaram à espreita, esperando uma nuvem de poeira que vinha em direção à casa grande, com o estrondar das patas dos animais.

Seu tio surgiu na frente, acompanhado de vários homens com vestimentas iguais às que costumavam brincar de mocinhos e bandidos. Um homem alto, branco, de bigodes e com uma liderança sobre os demais, aproximou-se e pôs Sílvio na sela, enquanto se dirigia ao proprietário Manoel Salustino, seguido por seus companheiros.

Depois da saudação costumeira, apeou-se do cavalo e pôs Sílvio no chão. As vestimentas diferentes e as armas que portavam chamaram a atenção dos meninos, que não desgrudaram da visita até às ordens de D. Ananília.

O Capitão Silvino gostava de distrair as crianças e chegou ao sítio Alívio acompanhado por Lindolfo, filho do proprietário, que conhecera na fazenda Ilhota, de Antônio Othon, no então município de Santa Cruz, hoje São Tomé. Após se acomodarem, D. Ananília providenciou comida para os cangaceiros, que só se alimentavam depois que o proprietário a provou, evitando assim o risco de envenenamento. Muito respeitador, Antônio Silvino, com sua patente de Capitão, como gostava de ser chamado, sentiu-se à vontade e até jogou cartas com Manoel.

Estavam no início de 1912 e, logo no primeiro dia, D. Ananília pediu a seu marido para entregar uma soma em dinheiro ao Capitão, para que ele fosse logo embora. Manoel Salustino pegou uma certa quantia no baú, mas sua esposa argumentou que era muito pouco. Mesmo contrariado, Salustino atendeu seu pedido e ofereceu mais dinheiro ao cangaceiro. Este agradeceu, mas recusou a oferta, dizendo que não estava precisando, que gostara muito daquele sítio e da hospitalidade dispensada e que iria permanecer mais alguns dias.

José e Sílvio passaram a observar, escondidos, todos os passos do visitante. Na inocência da idade, não percebiam perigo ou temor nas suas atitudes e chegaram a comentar a ausência de combates, tão conhecida nas brincadeiras dos meninos. Ao contrário, o famoso cangaceiro só fazia jogar sueca com seu avô, fartar-se nos queijos de sua avó e descansar nas redes da fazenda. Com uma semana, foi embora, sem deixar nenhuma façanha para ser contada a seus amigos.

Quando partiu, a notícia logo se espalhou por toda Currais Novos. Os fazendeiros trataram de montar os esquemas de defesa de suas propriedades. Jovens treinavam tiro ao alvo, com medo de algum confronto. A fama do cangaceiro assustava os habitantes do município. Estavam em pleno fenômeno do cangaço.

O banditismo no Nordeste teve seu apogeu com o cangaço, que perdurou do final do Império até à morte de Lampião, seu mais feroz representante, em 1938. Este fenômeno decorreu de diversos fatores econômicos e sociais, entre os quais se destacam a questão da terra, a falta de justiça, o isolamento geográfico e as desigualdades sociais. O homem tornava-se cangaceiro por uma briga de terra, pela ausência de justiça na morte de algum parente, ou quando os culpados eram absolvidos pelas mãos dos chefes políticos da região; ao passar por grandes privações em épocas de seca e sem ter para quem apelar, passavam a roubar para sobreviver, terminando por formar um bando, cujas ações culminavam com a prática de crimes diversos.

Contrapondo-se à justiça dos coronéis, criavam sua própria lei, espalhando terror, saqueando, roubando, estuprando, extorquindo, surrando, matando. Mas, em alguns casos, também sabiam impor respeito, preservando a honra de moças donzelas, fazendo valer os marcos de terras, distribuindo alimento entre os mais famintos ou garantindo proteção a seus coiteiros. E palavra dada era palavra empenhada, não voltavam atrás no que afirmavam. Nesta dualidade de ações, tornavam-se o diabo para alguns e o herói para outros tantos.

Entravam na vida de crime e dela só saíam quando uma bala mortal lhes atravessava ou quando caíam nas mãos dos Macacos, com destino às prisões estaduais. Por essa razão, os cangaceiros passavam a extorquir dinheiro da população urbana, ou dos fazendeiros abastados, para sobreviverem.

Os Macacos, como costumavam chamar a polícia, faziam incansáveis diligências em seus encalços; mas o atraso das comunicações, a dificuldade de transporte e a geografia acidentada do sertão, transformavam-se em aliados daqueles bandidos, que conheciam tão bem a região nas suas constantes embrenhadas caatinga adentro.

Devido à onda de terror e pânico que espalhavam, obtinham com rapidez suas exigências, só encontrando resistência em alguns poucos corajosos, que muitas vezes pagavam com suas próprias vida, o momento de coragem.

Manoel Batista de Moraes era um de seus representantes, ou como ele mesmo dizia, o cangaço era sua profissão. Tinha entrado naquela vida por causa da morte do pai. A justiça dos homens absolveu os culpados. Fez então sua própria justiça. Entrou para o mundo do crime e para o bando de seu parente, Silvino Aires, que morreu em combate. Adotou o nome de Antônio Silvino e passou a chefiar o bando, exigindo dinheiro dos fazendeiros, saqueando cidade, combatendo a polícia, espalhando terror nas terras dos Estados de Pernambuco e Paraíba.

Em 1901, esteve pela primeira vez no Rio Grande do Norte, quando travou fogo cruzado com uma tropa de Santa Luzia, na fazenda Pedreiras, em Caicó, de propriedade do Coronel Janúncio Nóbrega, com grande perda em seu bando.

Passou nove anos sem pisar no Estado, mas em maio de 1910, fugindo da Paraíba, exausto de tanto caminhar na caatinga, chegou a Currais Novos e enviou um emissário ao Coronel José Bezerra, pedindo permissão para dormir na Vila.

O Coronel era uma pessoa por demais respeitada; com seu comportamento exemplar, não permitiria convivência com o banditismo. Mandou dizer ao Capitão Antônio Silvino que não dava sua permissão, mas indicou o lugar fora da Vila, onde poderia descansar. Sua ordem foi cumprida à risca e no dia seguinte o cangaceiro prosseguiu viagem.

Agora ele estava de volta, em missão de paz, pois deixara bem claro sua admiração pela hospitalidade norte-rio-grandense, demonstrando até a intenção de morar no Estado, caso fosse possível largar aquela vida bandida. Passava nas fazendas, descansando das constantes fugas da polícia paraibana, “pedindo” dinheiro para sua sobrevivência.

Após a saída do Capitão, Manoel Salustino foi pessoalmente entregar José a seus pais. Antônio Bezerra estava com sua construção bastante adiantada e proseou com o sogro sobre a presença do cangaceiro na região. O Coronel José Bezerra, seu pai, deixara claro que não admitia aproximação com tal bandoleiro, mas Antônio Bezerra achava mais prudente ser amigo do que inimigo do Capitão Antônio Silvino.

José, muito inocente, contava sua aventura a Ritinha, que agradeceu a Deus, por nada de mal ter-lhe acontecido. Assim que a casa nova estivesse pronta, estariam mais seguros contra o bando que frequentava o Seridó.

À noite, histórias e aventuras dos cangaceiros eram contadas nos alpendres, ora espalhando terror, ora enaltecendo atos de justiça desses malfeitores. Comentavam até o pacto com o diabo, que muitos acreditavam que Antônio Silvino, o Rifle de Ouro, tivesse feito, ante o correr do boato de que, ao ver-se sem escapatória, sumia como fumaça, sem deixar rastro.

Nesse clima de suspense, qualquer forasteiro que se aproximasse era logo inquirido para saber se vinha em paz. Pessoas estranhas à localidade despertavam rumores sobre a presença de espiões, que vinham na frente do bando para conhecimento da área.

Qualquer notícia do bando, mesmo sem ter fundamento, provocava uma reviravolta na Vila. Homens eram armados para defesa do patrimônio dos abastados. Os armazéns fechavam as portas. Nas cidades onde já havia o telégrafo, os pedidos de reforços à polícia eram agilizados.

Mas o cangaço não encontrou muitos adeptos no Rio Grande do Norte; até o próprio Lampião evitava as terras potiguares, sendo derrotado na sua tentativa de invasão a Mossoró, em 1927. O único cangaceiro que frequentou a região do Seridó foi Antônio Silvino, assim mesmo muito pacificamente.

Quando se mudou para a nova casa, Antônio Bezerra sentiu-se mais protegido por sua localização, mas estava sempre em alerta para qualquer eventualidade. A relutância de seu pai em atender o Capitão poderia trazer-lhe problema. Do alto, a vista alcançava distante. Sentia-se mais seguro.

Em 1913, Antônio Silvino tentou por duas vezes aproximar-se do Coronel José Bezerra. Esteve em Currais Novos, arrematando quantias estipuladas entre os fazendeiros locais, mandou até emissários à fazenda Aba da Serra, mas o Coronel manteve-se intransigente e, precavido, armou sua defensiva. O cangaceiro não ousou contrariá-lo, mas lamentou não o ter conhecido. Eram duas forças antagônicas na robustez do solo seridoense.

Antônio Silvino foi preso em 27 de novembro de 1914, aos 39 anos, após tiroteio com a polícia em Lagoa Lage. Foi atingido no pulmão direito e transferido para cadeia de Taquaritinga e depois para a Casa de Detenção em Recife. Passou vinte e três anos, dois meses e dezoito dias de reclusão até ser indultado pelo presidente Getúlio Vargas. Morreu em 30 de julho de 1944, em Campina Grande, na casa da prima Teodolina Aires Cavalcanti.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 10, Capítulo 11, Capítulo 12 e Capítulo 13.

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