No Rastro das Águas – Capítulo 15

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Antônio Silvino foi preso em 27 de novembro de 1914, aos 39 anos, após tiroteio com a polícia em Lagoa Lage. Foi atingido no pulmão direito e transferido para cadeia de Taquaritinga e depois para a Casa de Detenção em Recife. Passou vinte e três anos, dois meses e dezoito dias de reclusão até ser indultado pelo presidente Getúlio Vargas. Morreu em 30 de julho de 1944, em Campina Grande, na casa da prima Teodolina Aires Cavalcanti.


Quinta-feira, 18 de dezembro de 1913, José acordou mais cedo do que o habitual; o mugido dos bezerros no curral foi seu despertador. O movimento da casa também começou adiantado. Seus habitantes tomavam as últimas providências para a partida. José, mais do que os demais, estava bastante eufórico. Adorava as idas à fazenda do seu avô paterno e neste dia teriam uma comemoração especial: os setenta anos do Coronel José Bezerra de Araújo Galvão.

Partiram com destino à fazenda Aba da Serra. Antônio, Ritinha, Tano, Sinhá Cândida, José e Amália queriam chegar cedo para não perderem nada das comemorações. O dia seria de festa, com uma missa celebrada pelo vigário local.

Há vinte anos que o Coronel perdera sua esposa, Antônia Bertina de Araújo. Ela, que também era sua prima, filha de um grande proprietário de terras da região, foi o grande amor de sua vida. Desde sua morte, ninguém ouviria mais falar de interesse do Coronel por nenhuma outra companhia, nem mesmo em namoros inconsequentes. A memória de sua esposa sempre manteve um lugar especial em seu coração. Nas grandes comemorações, com toda a família reunida, José Bezerra da Aba da Serra sentia a falta de sua companheira. Para compensar a sua ausência, ele poderia dispor da companhia dos filhos, filhas, noras, genros, netos, netas e de todo o povo da região, que lhe prestava verdadeira adoração.

Lá chegando, José juntou-se aos demais primos e primas, que se dirigiam ao Coronel para pedir a bênção e parabenizá-lo. Seu avô estava feliz, calmo e tranquilo, com sua voz suave e mansa, fazendo brincadeiras com as crianças. Num dia como aquele, não teria condições de contar seus casos e estórias, que tanto distraíam seus netos.

Esses casos demonstravam bem o espírito de liderança que o Coronel tinha sobre seu povo e a forma de exercê-la. Com seu comportamento exemplar, em que a retidão de caráter se mantinha em primeiro lugar, cuidava dos interesses do município como quem cuida de uma grande família. Com uma sutileza incomum aos homens de seu tempo, não precisava usar da força e bravura para resolver as diversas questões que chegavam ao seu conhecimento, em busca de uma solução. Aconselhava, ao invés de impor. Racional, ponderava sempre antes de expor suas opiniões, evitando cometer injustiças. Sua palavra era ouvida, seguida e respeitada. Sabiam que suas orientações visavam sempre ao bem da comunidade currais-novense, cujos valores morais tinham em seu representante maior uma base sólida de honradez, caráter, sabedoria, justiça, solidariedade, correção, honestidade e espírito público.

José ficava fascinado com o entra-e-sai de pessoas que afluíam à casa grande de seu avô. Esse movimento refletia a confiança que depositavam em seu representante maior. A humanidade necessita de um líder para guiar seus destinos e o Coronel José Bezerra, da Aba da Serra, preenchia este requisito: liderava aquela comunidade, amava seu povo e sua terra como um verdadeiro senhor-feudal, mesmo sem o uso da força, tinha os servos à sua disposição.

Como retribuição à palavra orientadora, ao acolhimento em horas difíceis, ao amparo financeiro em situações de aperto, ou mesmo pela retidão de caráter demonstrada nas mais diversas ocasiões, o povo do município e até das regiões vizinhas respeitava todas as orientações do Coronel, quer fosse através de sua vontade política, quer colocando-se em sua defesa, quer manifestando seu apoio incondicional.

Mas o Coronel também possuía um lado espirituoso, que seu neto ousou herdar. Ainda naquela idade, desdobrava-se em gargalhadas quando seu avô contava o caso da água, assim narrado: – seguiam dois rapazes na vizinhança da fazenda Aba da Serra, quando, sem perceberem a presença do Coronel atrás de uma cerca, comentaram a formosura de suas filhas e decidiram dirigir-se à fazenda para saciar a sede, só com o intuito de verem as moças. Sem ser notado, o Coronel abreviou o caminho e ficou à espera dos espertinhos. Lá chegando, os rapazes fizeram as saudações de praxe e pediram um pouco de água. O Coronel, muito prestativo, pediu que Auta, sua filha mais velha, servisse um copo aos pedintes, do maior que tivesse. Sorveram a água refrescante e agradeceram pela generosidade e, internamente, pela oportunidade de serem servidos por tão bela moça. O Coronel pediu que aguardassem. Chamou Francisca, sua segunda filha, e repetiu o mandado. Os rapazes, já meio desconfiados, agradeceram e disseram que já estavam satisfeitos, ao que o Coronel retrucou dizendo que se eles queriam ver suas filhas, iriam beber a água servida por todas elas. Mesmo de estômago cheio, os rapazes nem pensaram em desobedecer ao Coronel. Tomaram o segundo copo. Terminando, foi a vez de Isabel servi-los e tornaram a repetir o gesto, quando Tereza encerrou a tarefa. Partiram em disparada, mal agradecendo ao Coronel, ansiosos para saírem de sua vista, para poderem regurgitar a lição. Nunca mais apareceram na fazenda. Era assim que o velho sábio transmitia seu recado.

Seus ensinamentos foram transmitidos a seus descendentes. Convivendo nesse ambiente, José Bezerra de Araújo absorve-os facilmente. Espelhava-se em seus exemplos, principalmente nos aspectos de retidão de caráter, espírito de justiça, honestidade, vontade conciliadora e honradez.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 11, Capítulo 12, Capítulo 13 e Capítulo 14.

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