No Rastro das Águas – Capítulo 20

(…)

Mas aos poucos a saudade da caatinga foi tomando conta do seu interior. Passou a imaginar o quanto seria diferente se pudesse retirar o sal da água do mar e transportá-la para o sertão. A temporada passou rapidamente e logo, com pele bronzeada, teve que retornar aos antigos pastos, na expectativa do início das aulas e nas conversas que teria com seus amigos sobre sua experiência no litoral.


O retorno a Currais Novos foi cheio de novidades. Antônio Bezerra anunciou à família que passariam a residir, na maior parte do tempo, no centro da Vila. Com José estudando, mesmo a fazenda sendo distante apenas uma légua, seria melhor efetuar a mudança. Os negócios pesaram fundamentalmente em sua decisão, pois na vila as notícias e oportunidades chegavam primeiro.

Com a cotonicultura galgando cada vez mais importância econômica, gerando atividades terciárias diretamente relacionadas, vários proprietários rurais, que despontaram também como comerciantes, passaram a exercer as duas atividades paralelamente. Transferiram-se, então, para a “rua”, onde fixaram residência na maior parte do tempo, indo às fazendas nos feriados e na estação verdosa. Começavam a inverter o papel, quando vinha à rua apenas para missas, feiras e festas religiosas. O progresso começava a apontar diferenças entre o campo e a cidade. A instalação do telégrafo em Currais Novos permitiu uma comunicação mais rápida, o primeiro automóvel passara na vila e logo, logo, outros mais viriam. O afluxo de dinheiro também permitirá o gasto, apesar de modesto, proporcionando maiores confortos.

José inquietou-se um pouco com a mudança. Mesmo com seus pais garantindo que ele viria com bastante frequência à fazenda, não deixou de sentir tristeza e melancolia, observando a paisagem tão íntima. Montado em seu cavalo, despediu-se dos meninos da fazenda, que acompanhavam sua saída, com um misto de admiração e inveja. Quem sabe um dia também poderiam estudar!

Instalado em sua casa na vila, José nem conseguiu dormir direito. De quando em quando, acordava, pensando que já fosse a hora de despertar. Na penumbra do seu quarto, podia ver sua farda estendida sobre o baú. Amanhã seria seu primeiro dia de aula no Grupo Escolar Capitão-Mor Galvão, em Currais Novos. Estavam no início de março, as aulas começariam às dez horas, prolongando-se até as quatorze. Seu material já estava separado: caderno pautado, lápis, borracha, penas de aço comum, caneta e mata-borrão.

Chegando ao grupo escolar, a expectativa de calouro tomou conta de seus nervos. Encabulado, não ousou aprontar das suas até que estivesse bem entrosado com a turma. O Professor Gilberto Pinheiro, um de seus mestres, recepcionou seus alunos e expôs logo seu lema: exigia que o aluno fosse atento, aplicado e bem-comportado. Apesar de ser uma pessoa muito branda, a palmatória estava a postos caso necessitasse aplicar um corretivo. Em princípio, ninguém ousou contrariá-lo.

Como todos eram bem conhecidos, José logo se enturmou e, em pouco tempo, aprontara das suas. Enquanto o professor se curvava para escrever na parte inferior da lousa, uma gilete afiada tentava discretamente descosturar suas calças. Ainda bem que ele não conseguiu êxito na sua tentativa e pôde retornar sorrateiro a seu lugar. Caso fosse descoberto, levaria, no mínimo, uns bolos de palmatória ou um castigo ajoelhado em cima dos caroços de milho.

Seus estudos prosseguiram no grupo escolar, entremeados pelas brincadeiras de que fazia parte. Certa vez, José resolveu participar da banda municipal, cujo presidente de honra era seu pai. A meninada reunida (Antônio Othon Filho, Sílvio Bezerra, Minéo, Antônio Chacon, Bila e Chico de Moisés Preto) resolveu fazer uma homenagem a um currais-novense peculiar. Seu Galvão era um pouco esquisito, só andava pelo meio da rua para não pisar na calçada de ninguém e com esse pensamento construiu sua calçada inclinada, que era para, também, ninguém passar por lá. Mas a banda, que nem se se poderia ser chamada assim, tamanho o barulho que fazia, foi até a casa de Seu Galvão, para prestar-lhe uma homenagem. Um sobrinho dele, que fazia parte da banda, proferiu um rápido discurso, seguido pela tocata, ao que Seu Galvão ficou muito satisfeito e para agradecer mandou servir vinho aos meninos. José animou-se com a bebida, extrapolou os limites e, como consequência, teve que ser socorrido em casa, contrariando os ensinamentos rigorosos de sua mãe.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 16, Capítulo 17, Capítulo 18 e Capítulo 19.

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