No Rastro das Águas – Capítulo 22

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Findos os anos no internato do Colégio Pio X, transferiu-se para concluir o preparatório em Natal, no Colégio Diocesano Santo Antônio, que funcionava no convento Santo Antônio, sendo, posteriormente, encampado pelos Irmãos Maristas. Não estranhou sua chegada à Capital; seu impacto maior já tinha sido anos antes, em João Pessoa, bem mais novo e inexperiente. Tanto que no colégio Santo Antônio começou a despertar seu lado político. Foi escolhido Prefeito do colégio, responsável pelo salão de estudo. Nessa oportunidade, chegou a colocar seu amigo, Elísio Galvão, de castigo, por desobedecer às normas do referido salão.


No campo político, o país passava por um período de inquietações. A República Velha instituiu a política do café-com-leite, que consistia na alternância do poder entre as oligarquias do café paulista e do leite mineiro, tendo sido quebrada em 1919 pelo paraibano Epitácio Pessoa, mas retomada no governo seguinte. As vitórias nas eleições nem sempre eram conquistadas através de um processo em que a licitude predominava.

Apareceram os ideais revolucionários, tentando derrubar o velho sistema. A classe média brasileira, oriunda do crescimento do setor não-agrário, partia em busca de seus anseios, entre os quais a reformulação do sistema eleitoral, com a introdução do voto secreto e do voto feminino, para que também pudesse interferir no destino do país, com ideias retiradas do positivismo de Augusto Comte.

O tenentismo surge com esses ideais e em 1922 faz a Revolta do Forte de Copacabana. Desejava instituir, no país, uma democracia nos moldes americanos, com os direitos dos cidadãos respeitados e o acesso de todos à prosperidade. Luiz Carlos Prestes ainda partilhava essas ideias e participa do movimento. Já em 1924 e até 1927, marchou pelo país, divulgando seu pensamento, formando a Coluna Prestes. O Cavaleiro da Esperança percorreu mais de vinte mil quilômetros do Sul ao Norte do país, sendo combatido pelas forças do governo. Não conseguiu seu intento e exilou-se na Bolívia. Focos isolados no Sul, com influência dos imigrantes europeus, também se manifestaram.

Aqui no Rio Grande do Norte, com uma economia basicamente agrário-exportadora, os movimentos revolucionários não encontraram muitos adeptos. A oligarquia algodoeiro-pecuária seridoense acabava de chegar ao poder, com a posse de José Augusto Bezerra de Medeiros, em 01 de janeiro de 1924, encerrando a tradição da oligarquia açucareira. Essa mudança no quadro político era reflexo, diretamente, da situação econômica. O açúcar já não tinha mais a importância de outrora; perdera sua posição de destaque nas exportações, em decorrência da competição internacional. O algodão firmara-se como o carro chefe da economia norte-rio-grandense, responsável por um período de progresso econômico. O Seridó, de cujas terras brotava o algodão mocó de excelente qualidade, alcançou seu lugar de destaque no campo político.

O Governador José Augusto solidarizou-se com as forças conservadoras do Presidente Artur Bernardes, banindo qualquer ação que viesse a desvirtuar a estrutura de produção de algodão, que estava possibilitando um acelerado crescimento das receitas estaduais. Aliás, tanto Dr. José Augusto quanto Dr. Juvenal Lamartine, seu sucessor em 1928, não mediram esforços para melhorar a produtividade e a qualidade de nosso algodão. Criaram órgãos de fomento, melhoramento e financiamento à cotonicultura, entre os quais a Estação Experimental do Seridó, inicialmente instalada na fazenda “Bulhão”, distrito do município de Acari, sendo, posteriormente, transferida para Cruzeta.

A década de 20, até à grande depressão em 29, seria de relativa tranquilidade no Estado, contrapondo-se à inquietação predominante no resto do Brasil. O clima contribuiu e não se verificou nenhuma estiagem; ao contrário, em 1924, confirmando a tendência histórica de inverno rigoroso em anos de final quatro, a chuva inundou o nosso chão, prejudicando a produção algodoeira; apesar disto, os preços encarregaram-se de fazer o contrapeso.

Na esfera familiar, Antônio Bezerra alcançava o ápice de sua carreira de comerciante, tendo acumulado uma fortuna considerável. Em 1924, construiu uma nova casa no lugar da antiga, de arquitetura arrojada para os padrões do município. Bem-humorado e conversador, sua casa logo virou ponto de parada para os ilustres seridoenses, em passagem por Currais Novos. Viajava constantemente, mas, quando estava em casa, primava pelas boas normas de educação e valorizava objetos refinados. Em suas constantes viagens, já afortunado, passou a gastar em jogos e em algumas escapulidas, entremeados de alguns goles para enaltecer os ânimos. Ritinha, muito vaidosa, chegou a acompanhá-lo em diversas viagens e, descobrindo suas escapulidas, passou a evitar determinados lugares, restringindo-se a dar uma boa educação a seus filhos.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 18, Capítulo 19, Capítulo 20 e Capítulo 21.

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