No Rastro das Águas – Capítulo 24

(…)

As férias estavam acabando e José tinha que planejar seu futuro. Os estudos ainda não eram muito bem aceitos pelos fazendeiros, mas as viagens constantes de seu pai tinham permitido que ele desfrutasse de uma visão mais progressista. Sob a influência de amigos e comerciantes, Antônio não teve dificuldade em convencer José a estudar Agronomia, em Belo Horizonte. Sua futura profissão contribuiria para levar à frente as atividades de seu pai e o manteria em contato com a terra. Escolheram uma profissão bem atualizada para a época, tendo em vista que o próprio governo estadual investia na melhoria da cotonicultura.


O sol pôs-se mais cedo naquele dia; o triste entardecer tomou conta da cidade e uma sombra de pesar abateu-se sobre Currais Novos. Final de tarde de sexta-feira, 05 de fevereiro de 1926, morreu o Coronel José Bezerra de Araújo Galvão; sua terra viu-se órfã de seu líder maior. O sino repicou num anúncio fúnebre.

Em plena era do tenentismo, que lutava contra o domínio das oligarquias agrárias perpetuadas no poder à custa de votos de cabresto, o Coronel partiu antes de assistir à derrubada do antigo sistema. Deve ter sido melhor assim; pelo menos não correu o risco de ser acusado injustamente. Aos oitenta e dois anos, desde 1906 que tinha abandonado a política, mas não o seu povo, continuando a lutar pelos interesses de sua comunidade. Encravado na robustez sertaneja, indefeso nas lutas travadas na batalha da sobrevivência, com uma população predominantemente ignorante e analfabeta, alguém tinha que tomar conta desse povo. Existiram Coronéis e coronéis, mas José Bezerra, da Aba da Serra, estava incluído naqueles que tudo fizeram com vistas ao bem geral de seu povo, liderando suas vidas, sendo um ponto de apoio nas mais diversas situações, um conciliador de interesses divergentes, um exemplo de honradez e caráter. Com a missão cumprida nesse mundo, caberia agora a seus descendentes honrarem e perpetuarem seus ensinamentos.

A luz não se apagou às nove horas daquela noite. Como acontecia sempre que alguém falecia, o motor permaneceu roncando toda a madrugada, para que o finado fosse velado. A população do município, já elevado à cidade desde 1920, veio dar seu último adeus e pela manhã o corpo foi trasladado para Acari, cidade vizinha, onde nasceu e foi sepultado. Os que não puderam comparecer ao sepultamento, enviaram mensagens de condolências, que vinha de toda parte. Dos chefes políticos estaduais até os mais humildes, chegavam palavras de conforto e pesar.

Em preparativos para sua viagem a Belo Horizonte, José, assim como toda a população currais-novense, abateu-se com a morte do seu avô. Ainda de luto, viajou com destino a Natal, onde embarcou no vapor com destino ao Rio de Janeiro. Juntos, foram seus primos carnais Manuel Salustino Neto, Minéo, com destino a Salvador, e Sílvio Bezerra de Melo, e ainda o amigo Odorico Ferreira de Souza, que também iria cursar Agronomia em Belo Horizonte. Contagiado pelo entusiasmo da viagem, a tristeza foi dando espaço à alegria da juventude.

Despediu-se emocionado de seus pais. Quando o apito do vapor avisou a partida, José e os demais rapazes, muito bem vestidos, estavam todos debruçados na mureta do convés, acenando para a pequena multidão. Passando na boca da barra, avistou a praia da Redinha sob um ângulo diferente. Tantas e quantas vezes, enquanto passava a temporada de veraneio na praia, admirara os barcos partindo mar adentro com destinos diversos, imaginando-se navegando na imensidão do oceano. Agora ele próprio iria enfrentar o desafio. Desde quando avistara o mar pela primeira vez, não sentia emoção parecida.

As águas calmas do rio Potengi deram lugar ao balanço das ondas do mar. José Bezerra ficou admirando o Forte dos Reis Magos afastando-se até se tornar um ponto invisível. Cercado de água, deixou as cores penetrarem em sua mente; assim, as nuances variavam de acordo com a luz do sol: o rosa da aurora logo se dissipava, cedendo lugar ao reflexo do sol que pontilhava a água de brilhos preciosos; sol a pino, o verde translúcido diferenciava-se do azul celeste, parecendo uma invernada; hora do pôr-do-sol e o laranja tomava conta do céu e do mar, lembrando a seca queimando os sertões; a escuridão chegava, mesclando céu e mar numa imensidão infinita, pontilhada de estrelas; noite de lua cheia, a prata debruçando-se sobre o oceano. Embevecido, guardou essas emoções secretamente: no auge de sua juventude não seria conveniente deixar transparecê-las. Ao contrário, agindo naturalmente, demonstraria estar familiarizado com uma simples viagem de navio, pois a fascinação da descoberta transparecia melhor quando criança.

A viagem pelo litoral brasileiro serviu para incrementar seu amor à praia. Durante o percurso, a rapaziada não pôde deixar de presenciar, dia-a-dia, a disputa pela beleza de cada pôr-do-sol. Incrementavam o repertório para o romantismo das declarações de amor às jovens de então. Fotos foram tiradas e, com toda a energia da idade, planejavam as ações para os próximos quatro anos na capital mineira. A viagem no vapor prosseguiu até à capital da República. Extasiados, descobriram a beleza natural do Rio de Janeiro e de lá tomaram o trem com destino a Belo Horizonte.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 20, Capítulo 21, Capítulo 22 e Capítulo 23.

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