No Rastro das Águas – Capítulo 26

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O acontecido foi manchete nos diversos jornais do Estado e José Bezerra lia cada linha com muita atenção, envaidecido com a coragem dos potiguares. Relatando o acontecido à sua noiva, pôde perceber o crescente entusiasmo de sua interlocutora. Atenta a cada palavra, Dulce deu asas à imaginação e viu-se em meio ao tiroteio, fantasiando cenas de mocinhos e bandidos, como nos filmes de faroeste americano, em que travavam um duelo para desfrutarem da simpatia da mocinha. Despertou ao chamado de José Bezerra, que a trazia de volta do sonho distante.


O curso já estava prestes a acabar. Os anos passaram-se depressa. Além dos estudos, diversas atividades sociais preencheram o tempo dos rapazes de Currais Novos: jogavam futebol, frequentavam clubes, praticavam tênis, divertiam-se. Embutidos nos ideais que empolgavam as discussões políticas entre os estudantes, polêmicas eram levantadas em clamorosos discursos.

Ainda em 1927, receberam a boa notícia, vinda de seu Estado. A Lei nº 660, de 25 de outubro de 1927, de iniciativa de Dr. Juvenal Lamartine, com seu espírito progressista, foi aprovada na Assembleia Legislativa e sancionada pelo Governador José Augusto Bezerra de Medeiros, permitindo à mulher potiguar votar e ser votada. O Rio Grande do Norte partiu na frente em prol das mulheres. Em Mossoró, a professora Celina Guimarães Viana solicitou e teve aceita sua inscrição como eleitora.

Seguindo seu exemplo, outras quinze mulheres se inscreveram e votaram nas eleições de 5 de abril de 1928. Posteriormente, os votos dessas mulheres foram cassados pela Comissão de Verificação de Poderes do Senado, alegando que o Estado não poderia ter autorizado o voto feminino cuja lei ainda era objeto de discussão no Senado.

Também em Lages, no Rio Grande do Norte, ainda em 1929, foi eleita com 60% dos votos, a primeira prefeita do Brasil, Alzira Soriano Teixeira. Se havia alguma lei que as impedia de votar, não havia nenhuma lei que as impedisse de candidatar-se. Excelente motivo para discussões.

Numa época em que a sociedade resumia o papel da mulher à simples procriadora, responsável pela educação de seus filhos e à comandante das tarefas domésticas, sem poder de interferência em quase nenhum assunto, a decisão do poder de votar era uma grande conquista, um passo na busca de ser ouvida. As próximas discussões políticas, esperava-se, teriam que levar em consideração o pensamento feminino. O debate começou: de um lado, o furor machista, defendendo que a mulher deveria restringir suas ações ao campo doméstico, pois política era coisa para homem; do outro, os mais sensíveis e progressistas, defendendo o direito de escolha de todo ser humano, quer fosse homem, quer fosse mulher.

As discussões sobre a adoção da atitude do Rio Grande do Norte no restante do país prolongaram-se até o surgimento de alguma outra notícia, que aposentasse a anterior. Em 1929, a política fervilhava no cenário nacional. O Presidente Washington Luiz resolvera quebrar a política do café com leite, indicando como candidato à sua sucessão o paulista Júlio Prestes, conservador e defensor das oligarquias agrárias. Tal atitude conseguiu desgostar mineiros, preteridos na vez, nortistas e sulistas que, na busca de ascender ao poder, engajaram-se na luta dos movimentos revolucionários pela dissolução do sistema de eleição da República Velha, criando a Aliança Liberal.

A crise econômica de 1929, que atingiu especialmente o café, principal produto de exportação do país, o descontentamento da classe média brasileira e da emergente burguesia industrial, ávidas pelo poder político, também foram fatores determinantes dos movimentos de oposição ao sistema, aglutinando forças para a chapa da Aliança Liberal, que contavam com o gaúcho Getúlio Vargas e o paraibano João Pessoa, como candidatos a Presidente e Vice da República, respectivamente.

A escola de Agronomia e Veterinária de Belo Horizonte possuía um quadro de estudantes, na maioria, filhos de grandes proprietários de terras, que eram o alicerce da política predominante no país. Mesmo assistindo à divulgação das ideias revolucionárias, não podiam deixar de apoiar o candidato da situação. José Bezerra fazia parte desse grupo e ainda tinha como Governador do Estado um parente próximo e aliado do Presidente da República e junto com alguns estudantes foram dar apoio ao candidato Júlio Prestes, que os recebeu na capital da República.

No último mês do ano, em plena efervescência política, Jose Bezerra foi diplomado. Terminou o curso de Agronomia, mas não retornou imediatamente à sua terra. Devido ao desempenho verificado no decorrer do curso, e também por influência da família de sua noiva, foi nomeado para um patronato agrícola no interior de Minas Gerais.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 22, Capítulo 23, Capítulo 24 e Capítulo 25.

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