No Rastro das Águas – Capítulo 30

(…)

Os carcarás da política tinham subtraído do Seridó um filho forte. Dr. Otávio foi enterrado de peitoral, traje típico daqueles que campeiam nas matas retorcidas do sertão, protegendo-os dos espinhos do caminho. Junto foi seu habeas corpus, inútil para conseguir sua liberdade.


De combinação, dando os últimos retoques para colocar o vestido branco estendido sobre a cama, a cabeça de Yvete funcionava a mil por hora. Ao mesmo tempo, checava os detalhes do vestido, procurava saber a hora, perguntava pelo fotógrafo, pelo juiz e se estava tudo sob controle. Muito prática e cumpridora dos horários, não queria deixar ninguém esperando, sobretudo seu noivo.

Tinha escolhido um vestido simples, mas não menos elegante. A cerimônia civil seria realizada ali mesmo, na casa de Dr. Otávio Varela, marido de sua madrinha Vanju, seguida da cerimônia religiosa, na capela da Igreja Santa Terezinha.

Com a ajuda de Ivone, colocou seu traje nupcial e deslumbrou-se na frente do espelho. Seus olhos brilharam e seu coração bateu mais forte. Sua mãe e sua madrinha vieram admirá-la. Elogiaram a beleza da noiva, que, internamente, fervilhava de emoções. Estava satisfeita com sua aparência, mas ansiosa por seu destino.

Estava com apenas dezessete anos. Em nove de outubro próximo, completaria os dezoito e deveria estar bem longe dali, morando numa cidade do Seridó, fazendo parte de uma família que nem ao menos conhecia. Desde que avistara José, sentira algo diferente, não era como nos outros flertes, era alguma coisa bem mais forte. Não tinha dúvida de seus sentimentos, mas o medo do desconhecido estava presente. Por um momento, lembrou-se de sua ida para o internato.

Nascera em Ceará-Mirim. Seu avô paterno, Boaventura Dias de Sá, era um comerciante bem-sucedido e seu pai trabalhava com ele. Seu avô materno, Carlos Augusto Carrilho de Vasconcelos, era senhor do engenho Carnaubal. Aos oito anos de idade, fora mandada para Nazaré da Mata, interior de Pernambuco, estudar interna no Colégio Santa Cristina, das Damas da Instrução, onde sua tia materna, Isaura, era vice-diretora. Sentira-se desamparada, desprotegida, mas os sete anos que passara no colégio, sob o regime rigoroso de sua tia e com a ajuda de seu temperamento forte, ensinaram-lhe, de certa forma, a enfrentar o desconhecido e a dispor de uma certa independência para resolver seus problemas.

Agora a situação se repetia, com um agradável atenuante. Teria na sua companhia a pessoa escolhida para passar o resto de sua vida e com muito amor para oferecer. Graças à evolução do tempo, não precisava casar com nenhum arranjo de família, escolhera ela própria seu futuro marido e iria aproveitar cada momento.

Selado o eterno compromisso, cabia aos nubentes fortalecê-lo para juntos enfrentarem alegrias, tristezas e somar individualidades. Cerimônia encerrada, bolo servido, bebida para os presentes, o enxoval, providenciado às pressas nos três meses e meio de noivado, acomodado no carro, despedidas emocionadas – cortava-se o cordão umbilical mais uma vez, a mulher passava da tutela de seus pais para a submissão ao marido. Yvete tentava disfarçar o nervosismo, mas a ansiedade e a expectativa dominavam-lhe. Embarcaram na baratinha verde de seu esposo, com destino a Currais Novos.

No caminho, conversas amenas, comentários sobre a cerimônia, cúmplices olhares, ansiosos por um contato mais íntimo. José Bezerra estava um pouco entristecido: de sua família, só estiveram presentes o seu cunhado, Ezequiel Xavier, e o seu tio, Dr. Tomaz Salustino. Sua irmã, Amália, estava doente e não pôde comparecer; seu pai e sua mãe permaneceram em Currais Novos, aguardando o jovem casal. Na verdade, Antônio Bezerra, apesar de seu temperamento extrovertido, ainda não se recuperara da falência. Um pouco acanhado, por causa da dificuldade financeira, preferira aguardar sua nora em sua cidade. Estava ansioso para conhecê-la e descobrir aquela que conquistara o coração de seu filho.

José Bezerra, então com vinte e seis anos, tinha finalmente decidido casar. À medida que seu relacionamento com Yvete se intensificava, mais uma certeza tomava conta de seu ser. A ansiedade pelo encontro com a noiva encurtava a distância percorrida com destino a Natal, mas o retorno a Currais Novos tornava-se tão cansativo, quanto as antigas viagens no lombo dos animais. Uma ausência dominando-lhe, preenchida apenas pelo contato com a amada. O contentamento que invadia seu ser só era comparado à chegada do inverno. O sorriso no rosto de sua noiva irradiava sua face. Estava apaixonado. Desde o noivado, em janeiro, decidira construir sua futura casa, mas não suportou esperar até sua conclusão e decidiram casar em 1º de maio. Agora estava a caminho do Seridó, levando a seu lado uma brejeira, da Zona da Mata, criada na região da cana-de-açúcar, disposta a enfrentar a aridez de seu amado sertão.

Uma certa apreensão dominava seu interior. Havia nítidas diferenças entre as duas regiões e seus habitantes. A Zona da Mata fora desbravada primeiramente e não possuía as dificuldades naturais do sertão. A chuva era mais constante, o verde da cana dominava a paisagem. A distinção entre as classes sociais era mais acentuada. Os senhores de engenho mantinham o preconceito contra sua mão-de-obra, os descendentes dos escravos, que foram dominados à força, devendo obediência. Não tinham a preocupação com os invernos escassos e a reserva não era praticada com frequência. Havia mais luxo e mais conforto nas residências, apesar de a cana ser produto em decadência no Estado. Estavam mais abertos às transformações. Nesse aspecto, Yvete não encontraria muitas dificuldades; a mulher, por natureza, é muito mais adaptável às mudanças.

O Seridó, ao contrário, tinha sido desbravado posteriormente e à custa de muito sacrifício; os seus conquistadores enfrentando uma vegetação espinhosa, a escassez da água, as secas constantes, o cinza predominando sobre o verde. Seu povo, por enfrentar tantas dificuldades, era mais solidário. A distinção entre as classes era menos acentuada. O dono da terra muitas vezes fazia as atividades em conjunto com seus vaqueiros e moradores, conquistando o respeito de sua mão-de-obra. Era um povo precavido, que aprendera com a escassez e, por isso, não costumava esbanjar; ao contrário, estava sempre tentando garantir alguma reserva. Suas moradias eram bastante simples. O conservadorismo era uma constante, reflexo do atraso com que chegavam as inovações. Contudo, era um povo hospitaleiro e José Bezerra tinha certeza de que sua esposa seria muito bem recebida.

Foram seis horas de uma viagem por um caminho nunca antes percorrido por Yvete, mas cheio de descobertas. A vegetação foi ficando mais escassa, retorcida, mas apresentava-se verde, consequência do bom inverno. O pôr-do-sol à sua frente, por detrás das serras, foi magnífico. Apesar da expectativa, sentia-se segura junto a José e um rubor lhe subiu às faces, pensando em sua noite de núpcias. Exaustos, encontraram Antônio Bezerra e D. Ritinha esperando-os. Foram muito bem recebidos e acomodados na casa de Tomás Galvão, seu primo, que se encontrava na fazenda, pondo-a à disposição dos jovens nubentes até que a deles estivesse pronta.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 26, Capítulo 27, Capítulo 28 e Capítulo 29.

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