No Rastro das Águas – Capítulo 31

(…)

Foram seis horas de uma viagem por um caminho nunca antes percorrido por Yvete, mas cheio de descobertas. A vegetação foi ficando mais escassa, retorcida, mas apresentava-se verde, consequência do bom inverno. O pôr-do-sol à sua frente, por detrás das serras, foi magnífico. Apesar da expectativa, sentia-se segura junto a José e um rubor lhe subiu às faces, pensando em sua noite de núpcias. Exaustos, encontraram Antônio Bezerra e D. Ritinha esperando-os. Foram muito bem recebidos e acomodados na casa de Tomás Galvão, seu primo, que se encontrava na fazenda, pondo-a à disposição dos jovens nubentes até que a deles estivesse pronta.


As notícias não paravam de chegar. O telégrafo dava conta dos últimos acontecimentos. O movimento comunista eclodiu em Natal. Os rebeldes tinham dominado a Capital e implantado o terror. A anarquia instalou-se, seguida de saques, incêndios, badernas. Ninguém pagava as contas; no bonde, a viagem era de graça. A rebelião começou no 21º B.C. do Exército, às dezenove horas do dia 23 de novembro de 1935. Notícias vindas da Capital, notícias percorrendo as entranhas da caatinga.

Dia seguinte à rebelião, Dinarte Mariz tomou à frente da resistência. O comunismo não poderia se instalar em seu Estado. Os seridoenses, que tinham na terra o seu maior patrimônio, não permitiriam que o mesmo fosse dilapidado, dissipado, retalhado, entregue a baderneiros que instalavam a anarquia na Capital. Braços fortes apresentavam-se, afoitos, para lutar contra os rebeldes. Foram arregimentados homens de Caicó, Currais Novos, Acari, Parelhas e toda a redondeza, comandados pelos tenentes Severino Elias, Pedro Ceciliano e Antônio de Castro.

Os primeiros sessenta homens partiram sob o comando de Raimundo Duarte. Caminhões e automóveis tomaram o rumo da Capital, armas em punho, ânimos exaltados, eufóricos na defesa de seus patrimônios, organizados pelo entusiasmo. O sangue fervia, a adrenalina estimulando os corpos ávidos por um embate. O ocaso fervilhando as emoções, o vermelho predominando sobre o laranja. A poeira barrenta envolvendo o comboio. A vermelhidão embaçando os pensamentos.

O comunismo tinha sido implantado na Rússia em 1917. Baseado nas ideias socialistas de Karl Marx, combatia a propriedade privada, defendia o sistema coletivo de produção e abolia a religião. O Estado passava a ser o único proprietário, repartindo sua produção equitativamente entre seus camaradas, uma verdadeira utopia. O regime ultrapassou as fronteiras russas e difundiu-se em vários países. Surgiram reações nacionalistas extremas. Na Itália, o fascismo; na Alemanha, o nazismo. Essas novas ideologias e mais o comunismo espalhavam-se no mundo.

No Brasil, duas frentes opostas ganhavam terreno. De um lado, a Ação Integralista Brasileira, fundada por Plínio Salgado, em 1933, que tinha inspiração fascista, com uma doutrina nacionalista, tradicionalista e autoritária. Do outro, a Aliança Nacional Libertadora – ANL, criada em 1935, frente anti-imperialista e antifascista, de militância esquerda, que ganhava adeptos, apesar de estar na clandestinidade. Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, após seu exílio na Bolívia, Uruguai e Argentina, passou a assimilar os ideais marxistas. Em 1930, foi convidado a participar da Revolução, mas declinou do convite e, já imbuído do ideal comunista, publicou um manifesto, rompeu com os tenentes e partiu para Moscou. Em 1935, volta ao país, depois de ingressar na Internacional Comunista, para armar o movimento revolucionário.

No Rio Grande do Norte, o Partido Popular, sob a liderança do Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, tinha conseguido eleger o Dr. Rafael Fernandes, apesar de toda a barbárie praticada. O primeiro resultado das eleições suplementares deu a vitória aos partidários do Interventor Mário Câmara; houve apelação e, finalmente, em outubro de 1935, o Superior Tribunal Eleitoral autorizou a instalação da Constituinte Estadual com maioria do Partido Popular, que elegeu o governador. Mesmo assim, o clima continuou tenso. Os comunistas encontraram, então, espaço entre os opositores ao novo governo estadual.

Natal foi a primeira capital onde espocou o movimento comunista. Um Comitê Popular Revolucionário assume o poder. Posteriormente, surgem levantes em Recife e no Rio de Janeiro, logo debelados. A capital potiguar é a única que consegue sustentar o movimento por quatro dias, com os rebeldes partindo para conquistar o interior do Estado.

Nos caminhões, a euforia da resistência seridoense vai dissipando-se com a sombra do anoitecer. O silêncio vai tomando conta de mentes em suspense. Os batimentos cardíacos aceleram o compasso da espera. Ao longe, avistaram a luz de um carro. O comboio para. Raimundo Duarte pergunta quem vai fazer o reconhecimento. Sugerem o nome de José Bezerra. Temeroso, ele parte com mais dois companheiros no carro, param mais adiante e continuam a pé. Mosquetão em punho, bala na agulha, um bisaco com bolacha e rapadura a tiracolo, segue pela estrada. Seus companheiros seguem um para cada lado, enquanto ele fica exposto, bem no meio do caminho.

O carro para, focando em sua direção. Mesmo encandeado, vislumbra o para-brisa quebrado. Reconhece o motorista de parelhas. Descem um sargento do exército e mais outras pessoas que o envolvem, logo inquirindo de que lado estava, se contra ou a favor da força revolucionária. Afirmam que já tinham tomado São Paulo, Minas e Natal. José Bezerra pensa um instante e responde que faz parte da força do Seridó com a Polícia Paraibana, que está estacionada a uns duzentos metros e fora encarregado de fazer o reconhecimento. A pergunta inicial é ratificada, ao que ele explica que a resposta depende de seu comandante, um capitão da polícia da Paraíba. Pede permissão para comunicar-se com ele e afasta-se a pé. Pega o carro e retorna ao ponto onde deixara Raimundo e o restante da tropa.

O caminhão do exército não espera e prossegue o caminho com destino ao Seridó, passando sem perceber a tropa. José Bezerra estava assombrado; tinha visto uma metralhadora e o para-brisa do carro quebrado, indicando sinais de combate. Era melhor ser cauteloso. Sugeriu, então, que mandassem um carro à divisa da Paraíba, para pedir auxílio. Era cedo ainda, umas nove horas da noite. Raimundo não aceita a sugestão e resolve prosseguir até Natal; queria ser o primeiro a entrar na cidade.

Um pouco antes de Serra Caiada, tiveram o primeiro combate com os revolucionários. Puseram o caminhão atravessado na estrada e travaram um tiroteio de uns cinco minutos. Os comunistas abandonaram alguns armamentos e recuaram assustados. Alguns sertanejos protegeram-se em buracos no chão. Entre muitos, estava lá, Padre Walfredo e Capitão Severino Elias. Tinham conseguido prender um cabo do exército e mais quatro soldados.

José Bezerra escoltava um soldado; tinha até ficado com o revólver dele, um trinta e oito. Este contou-lhe que tinham dominado o quartel da polícia em Natal. Quando saiu, ainda trocavam tiros, mas já estava praticamente dominado. Escutando aquele relato, o medo foi crescendo. Abandonaram o caminhão, todo baleado, e seguiram com os carros para Serra Caiada. O caminho foi repleto de reflexões.

Aquele tinha sido um ano atípico para José Bezerra. Em fevereiro, ainda, perdera um de seus melhores amigos. Em maio, tinha se casado, mas a alegria fora interrompida por mais um acontecimento triste. Com dez dias de casado, sua mãe adoecera. Não foi tratada a contento. Aliada à falta de cuidado medicinal, juntou-se o regime severo prescrito pelo médico, que culminou numa tuberculose. Em 06 de outubro, ela faleceu. À sua tristeza, somou-se a preocupação de Yvete, que se sentiu desamparada, pois aos dezessete anos já estava grávida de seu primeiro filho. D. Ritinha era o ponto de apoio e orientação para sua nora, mas partira prematuramente, vítima de uma doença que dizimava a população brasileira.

Enquanto repassava esses tristes momentos em sua mente, um pavor avolumava-se em seu ser. Sentia o medo da morte. Decidira participar da resistência, pois não era de ser omisso em suas ações; tampouco permitiria que aventureiros e demagogos as apoderassem de sua terra natal. Mas não poderia correr riscos naquele instante. Seu pai precisava dele vivo, sua esposa estava em Muriú, praia de veraneio frequentada por sua família, grávida de seu primeiro filho. Decidiu, então, fugir para a Paraíba.

Quando chegaram em Serra Caiada, comunicou a Raimundo Duarte que não iria prosseguir, ao que ele reafirmou sua convicção de continuar até a Capital e pediu que José guardasse reserva. Não precisava pedir, certamente podia contar com sua discrição. Retirou-se para dormir na casa de Nezinho Xavier, enquanto assistia ao contingente enorme que chegava do Seridó. Já iam pra mais de trezentas pessoas.

No dia seguinte, a resistência rumou para Panelas, atual Bom Jesus, enquanto mandaram deixar José Bezerra na fazenda de Dr. Jacinto, em Umbuzeiro. De lá, ele seguiu para Araruna, na Paraíba, onde se encontrava o Prefeito de Guarabira, Dr. Bandeira. Recebeu a notícia de que o movimento tinha fracassado em Natal. A Força do Seridó tinha se confrontado em Panelas, mas tivera que recuar até a Serra do Doutor, onde conseguira, finalmente, com a ajuda de forças paraibanas, derrotar os rebeldes. Tão logo recebeu a notícia, José Bezerra partiu com destino a Nova Cruz, onde a polícia paraibana estava aquartelada com um cento e tantos homens.

Quando ia chegando, pararam seu carro, botaram as armas em cima e um sargento perguntou de quem se tratava. Respondeu que era de Currais Novos e chamava-se José Bezerra. Reconhecendo o nome, o sargento indagou o que era do Coronel José Bezerra. Ele respondeu que era neto. O clima hostil dissipou-se, pois seu inquiridor era o sargento Chaves, que fora criado na fazenda de seu avô. José Bezerra comunicou que estava à procura do comandante da força e pediu que o levassem até ele, sendo prontamente atendido. Passou a noite em Nova Cruz.

Tão logo amanheceu o dia, partiram no trem Bacurau, com destino a Natal. Logo na Penha, encontraram-se com o Capitão China, que tinha passado três meses na fazenda de seu pai, escapando de um problema em Pernambuco, o Capitão Vinícius e o doutor Orlando Azevedo. Souberam, então, que João Galvão e vários outros já tinham sido presos, pois a polícia paraibana tinha vindo pelo litoral, enviada pelo Governador Argemiro de Figueiredo, para combater os rebeldes. Quando chegaram a Natal, encontraram uma cidade abandonada, com Dr. Rafael Fernandes na casa de Júlio Maia, próxima ao Rio Grande. As providências pós-rebelião foram tomadas, inclusive com o auxílio da polícia paraibana, que passou oito dias na cidade.

Quartel da Salgadeira – Foto capturada no site www.curiozzo.com

Averiguando os estragos promovidos na cidade, José Bezerra deparou-se com sua baratinha verde toda depredada. Por economia, tinha deixado o automóvel na Capital, viajando de condução para o interior. Seu procedimento custara caro. Enquanto caminhava, refletia sobre o movimento comunista, fracassado ao amanhecer do dia 27 de novembro. A Intentona Comunista, como ficou conhecida a rebelião, não contou com o apoio popular; muito ao contrário, a grande massa trabalhadora rural, que seria a mais beneficiada pelas ideias comunistas, analfabeta e ignorante, não tinha o menor conhecimento sobre a doutrina do partido. A Igreja Católica, perseguida na Revolução Russa de 1917, mantinha-se veementemente contrária ao comunismo e pregava sua posição.

No auge do movimento, a debandada no interior norte-rio-grandense foi geral: muitos partiram para as terras paraibanas, por questões de segurança. Os habitantes rurais associavam a palavra comunismo a um bicho de outro mundo, destruindo tudo por onde passava e confiscando tudo o que fosse propriedade privada. O quebra-quebra promovido na Capital e divulgado no interior contribuiu para essa tese, associando comunistas a baderneiros. Essa associação manteve-se por muito tempo na cabeça dos mais humildes. De certa forma, o movimento fracassado tornou-se um aliado dos donos das terras potiguares.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 27, Capítulo 28, Capítulo 29 e Capítulo 30.

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