No Rastro das Águas – Capítulo 5

(…)

Antônio Bezerra percebera esta realidade. Na expectativa de recuperar as perdas provenientes dos dois anos consecutivos de seca, já planejava a poda e limpa dos campos. Retiraria o gado dos algodoeiros e sustentá-lo-ia, até chover, com o cardeiro, vegetação resistente à seca que era encontrada com frequência na caatinga; bastava apenas cortá-lo e queimá-lo, para que os espinhos não machucassem as reses. Chegando à fazenda, apeou ligeiro do cavalo e foi tratar com Tano.


Nem bem o galo cantara, Salustiano já estava de pé. O chuvisco da madrugada despertara seus ânimos. Levantou-se mais cedo para a ordenha, tomou o café quente com batata e tratou de cuidar dos animais. Quanto mais cedo terminasse as obrigações com o gado, mais tempo teria para cuidar de sua lavoura.

O regime de parceria foi a forma encontrada pelos proprietários de terra para harmonizar as relações de trabalho. Os moradores recebiam uma casa de moradia, um roçado cercado, uma garrafa de leite no curral, ou uma vaca para comer leite – se tinham filhos pequenos – em troca de metade da produção e do trabalho nas plantações de algodão. Aliás, como o Seridó foi desbravado graças à pecuária, e a agricultura tradicionalmente praticada era a de subsistência, a cotonicultura teve que se adequar ao sistema já estabelecido, no qual predominavam características do regime feudal.

O capital acumulado até o ciclo do algodão foi proveniente da pecuária. Com a expansão da cotonicultura, aos poucos novos elementos foram introduzidos nas relações econômicas. Surgia a circulação de dinheiro, já que antes a economia local era bastante fechada, com uma circulação mínima de moedas, devido à produção agrícola ser quase que totalmente destinada à subsistência, destinando-se o excedente para reservas eventuais. O algodão adquiriu importância econômica e junto com a tradicional atividade pastoril tornaram-se os novos vetores de acumulação.

Após as atividades realizadas no curral, Tano foi banhar-se na cacimba, tempo em que providenciava a água para abastecer a casa da fazenda. Homem de confiança do Coronel José Bezerra, da Aba da Serra, Salustiano ou Tano, como era conhecido em seu meio, veio para Cacimba do Meio quando do casamento de Antônio Bezerra com Ritinha, para ajudar na lida da fazenda. Tinha pelo Coronel admiração e respeito, os quais eram recíprocos. Tanto assim, que Antônio costumava chamá-lo de padrinho, tradição mantida por José nos anos vindouros.

O entrosamento refletia bem as relações econômico-sociais vigentes entre o proprietário e seu homem de confiança. Tal situação remonta ao início da colonização, quando as sesmarias eram distribuídas a seus proprietários e estes antecipavam a vinda dos desbravadores. Com o passar dos anos, e após a instalação definitiva desses homens que, em muitos casos, se tornavam proprietários, é que chegavam os donos da terra.

Com a repartição da terra, por meio de herança, os módulos das fazendas foram, gradativamente, diminuindo. Quanto atingia o ponto de ser economicamente inviável, ou quando não dava para sustentar a própria família, os pequenos proprietários vendiam seus pedaços de chão e transferiam-se para as grandes fazendas, ou permaneciam com suas pequenas lavouras, desde que tendo de trabalhar como meeiros dos grandes proprietários.

Esse deslocamento provocou um menor distanciamento entre o fazendeiro e seus meeiros que, em muitos casos, pertenciam à mesma família. O proprietário fornecia o dinheiro, sem juros e parcelado, de acordo com a evolução dos tratos das culturas, não deixando ultrapassar cinquenta por cento do valor da safra, que representava a parte do meeiro. Em contrapartida, os meeiros e filhos limpavam e semeavam os campos de algodão, aproveitando os intervalos dos algodoeiros para plantarem milho e feijão consorciados. Ao final da colheita, repartiam a produção do algodão. Além do pequeno roçado para cultura de subsistência, podiam dispor, também, das vazantes dos rios e açudes. Mas tinham a obrigação de zelar pela carca do seu roçado e pela moradia, além de participar dos trabalhos de manutenção das cacimbas.

Quando começavam a colher, faziam questão de presentear o fazendeiro com os melhores exemplares de sua lavoura; era uma forma de expressar gratidão, por disporem de terra para cultivar o alimento de suas famílias.

Como a agricultura praticada necessitava de braços na lavoura, a chegada de novos filhos servia para aumentar o contingente de mão-de-obra. Quanto maior o número de filhos, maior a necessidade de gente para trabalhar na terra, embora não pensassem que este aumento populacional implicava mais gente para cuidar e alimentar.

Em tal sistema não era necessária a presença de feitores para controlarem o trabalho. Ao contrário, cada um possuía uma certa independência para desenvolver suas atividades e respondiam com dedicação e capricho, sem espaço para preguiça. Esta relação só não funcionava quando a seca castigava o sertão, retirando famílias inteiras de seu solo querido, em razão de não possuírem nenhum capital acumulado que permitisse sua sobrevivência em época de escassez.

Mas a seca também servia como alternativa para o fazendeiro selecionar sua mão-de-obra. Quando o êxodo rural se tornava inevitável, o proprietário da terra procurava inventar serviço, a fim de segurar os melhores trabalhadores.

Desta relação, destacava-se um ou outro meeiro que, desfrutando da confiança do fazendeiro, tornava-se uma espécie de capataz, responsável também pela pecuária da fazenda. Criavam-se, então, laços de amizade, de modo que ambos compartilhavam atividades diárias, enquanto seus filhos dividiam as brincadeiras nos terreiros.

Não existia casa na redondeza que não possuísse um afilhado do fazendeiro. E dos velhos vaqueiros, jovens como Antônio retiravam aprendizados da lida do gado e da terra. O respeito aos ensinamentos dos mais velhos talvez até tenha contribuído para a resistência às novas técnicas de cultivo e manejo de gado.

Terminando de banhar-se e limpar a cacimba, Tano mandou Nego carregar a água e levar para casa, onde já deviam estar esperando. Nas fazendas, os descendentes dos negros, assim como seus ascendentes, encarregavam-se das tarefas domésticas, muito embora alguns se tornassem vaqueiros. Mas a agricultura e a pecuária eram praticadas, preferencialmente, pelos brancos e mestiços indígenas.

Enquanto esperava pelo almoço, sentado no tamborete na porta de casa, observando o sol castigando a paisagem e acompanhado de seu fiel cachorro, Tano viu Antônio Bezerra aproximando-se ligeiro, com um sorriso nos lábios. Conhecendo aquela cara desde menino e deduzindo do que se tratava, esboçou um certo ar de sabedoria. Segurou os estribos e as rédeas do cavalo, enquanto Antônio apeava. Na cumplicidade de experiência e instinto, trataram logo de organizar as tarefas dos próximos meses, na esperança de um ano regular de inverno.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 1, Capítulo 2, Capítulo 3 e Capítulo 4.

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4 comments

  1. Elza, estou amando No rastro das águas! Meu sangue seridoense deve explicar o encanto que sinto por aquela região. Ansiosa pelo capítulo 6. Parabéns!!!

    1. Que bom Sheila! O livro foi publicado em 1997, mas muita gente me cobrava uma reedição. Preferi lançar no blog em capítulos. Serão 71 ao todo. Espero manter sua atenção nos costumes seridoenses. Muito obrigada!😘

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