No Rastro das Águas – Capítulos 36 e 37

(…)

Dentro dessa realidade, José Bezerra passou a administrar os escassos recursos da Prefeitura, e assim tornou-se um homem público. Não precisou alterar seu comportamento. Nascido e criado numa sociedade pequena e conservadora, sob rígidos padrões de educação, qualquer que fosse a postura, fosse do homem público, fosse do homem privado, sua retidão de caráter estaria sempre presente.


Capítulo 36

O movimento começou cedo na casa do Prefeito. O Plymouth já estava repleto e ainda faltava acomodar alguns pertences. A família aumentou, em 1º de maio de 1937, Haroldo ganhou um irmão, Franklin de Sá Bezerra, nascido em Ceará-Mirim, pois era lá que Yvete contava com os cuidados médicos de seu cunhado. Ela já se adaptara ao Seridó, mas fazia questão de manter contatos com suas raízes. Uma vez por mês, vinham à Capital e no final do ano, a temporada na praia de Muriú era inadiável. Agora, estavam em 1938, de partida para a fazenda Jaú, aproveitando o verde que se espalhava no sertão.

José Bezerra procurava conciliar a vida pública com os momentos junto à família. Não era tarefa muito complicada, pois a administração municipal, apesar das necessidades do município, não dispunha de recursos suficientes, restringindo, assim, sem campo de ação. No ano anterior, dera início ao calçamento das ruas principais, o chão batido passava a ser preenchido pelos paralelepípedos. Em outubro passado, a cidade enfeitara-se toda para o Congresso Eucarístico. Cônego Paulo Herôncio tinha caprichado na festa, o Prefeito colaborou com tudo o que foi possível, inclusive, conseguindo, junto a seu avô materno, Manuel Salustino, a doação da estátua de Cristo Rei.

Desligando-se um pouco das atribuições de Prefeito, José Bezerra apressava Yvete. Estava eufórico com a primeira invernada da família no Jaú. As acomodações de lá eram modestas, mas o entusiasmo e a satisfação de poder desfrutar do primeiro pedaço de chão adquirido com seu próprio esforço minimizavam qualquer desconforto. Quando feita de automóvel, a viagem estendia-se, pois a estrada fazia um grande arrodeio. As seis léguas a cavalo transformavam-se em vinte e uma, sobre as quatro rodas. Mas, uma vez na fazenda, ele transbordava em alegria, parecendo um menino com seu brinquedo novo. Era assim que se sentia junto à terra molhada; sua disposição aumentava e ele revigorava-se para as mais diversas atividades.

Os mugidos dos bezerros despertavam os tratadores. José Bezerra também se levantava e dirigia-se ao curral para supervisionar os trabalhos. Pela abertura da porteira, a quantidade de bezerros que passava era correspondente ao número de tratadores. Esfomeados, eles logo agarravam com vontade as tetas das vacas. O vaqueiro aproximava-se, esperava o bezerro apojar, afastava-o, prendendo-o junto ao corpo da mãe, peiava a vaca, limpava as tetas com a maçaroca da cauda, acomodava-se num banquinho de madeira e aprumava o balde abaixo do úbere carregado. O bezerro observava, imobilizado, sua alimentação indo embora; sentia o cheiro do leite e a baba escorria, involuntariamente, pelo canto da boca. Bem ritmadas, mãos habilidosas iam extraindo o líquido branco, espesso e cheiroso, que se acumulava no balde de flandre. A espuma já estava quase pela borda; José Bezerra não resistia e saboreava um copo de leite morno, ainda na temperatura interna da vaca.

Yvete ainda dormia, mas logo estaria a postos, observando e ajudando no trabalho de Chico Lino, mestre do queijo. Graças ao bom ano de inverno, a vacaria estava bem alimentada e o leite fluía franco, dava para alimentar a bezerrada e suprir as necessidades da fazenda.

Após a ordenha, o leite era colocado para coalhar. Nessa hora, a casa já estava funcionando a pleno vapor. As acomodações eram bastante modestas. Yvete reclamava, não estava acostumada àquela vida. Como os quartos da casa não possuíam janelas, tiveram que escolher a sala para uma dormida mais confortável. A cozinha de fazer queijo era do lado de fora, feita de faxina de varas. O leite demorava quase o dia todo para coalhar, dependendo das condições climáticas e enquanto isso, podiam observar o movimento do curral.

As vacas pariram bem, a bezerrada estava bem desenvolvida. Aproveitando a estada na fazenda, tiraram o dia para ferrar os bezerros. O ferro esquentava na brasa. Yvete tomava cuidado para os meninos não se aproximarem do fogo. A coloração laranja indicava o ponto certo. Amarravam as três patas do bezerro, deixando uma livre para a marca, e um berro de dor espalhava-se no ar; o cheiro de couro queimado entranhava no nariz; estava marcado o patrimônio. José Bezerra lembrou-se de uma época não muito distante, logo após a falência de seu pai. Estava dando a volta por cima.

Na parte da tarde o leite já estava coalhado; colocavam-no então para escorrer durante toda a noite, pendurado em sacos de algodão; no dia seguinte, estaria bom para ir ao fogo. A trempe já estava preparada e o tacho de cobre aguardava. À coalhada escorrida, juntava-se mais leite cru, mexendo-se sempre e retirando-se com uma cuia o creme espumoso na superfície que, depois de apurado, transformava-se em manteiga. No ponto certo, retirava-se a massa para escorrer numa urupema; depois de salgada, retornava-a novamente ao fogo. A essa altura, o cheiro do queijo já convidava a um banquete saboroso. Ficavam todos na expectativa da raspa do tacho, ou mesmo de deliciarem-se no queijo derretido com açúcar. Yvete prestava bem atenção; fazia questão de assimilar os costumes do sertão e não poderia deixar de aprender a fazer o famoso queijo de manteiga. Ao final do dia, tinham preparado até vinte quilos de queijos e apurado de dez a doze litros de manteiga. Aguardavam uns dois ou três dias, até que o queijo adquirisse a consistência adequada, quando recebia o ferro, que era a marca registrada do queijeiro.

Além dos queijos, o banho na barragem fazia a alegria da família. O acúmulo das águas, após as chuvas, passava a ser observado diariamente. O sertanejo acompanha cada centímetro acrescido a seu reservatório. Quando a sangria se aproxima, fica de prontidão. As águas podem chegar devagar, ou de uma vez, fazendo romper paredes ressecadas. Nesse caso, levam consigo a esperança acumulada ano a ano. Do contrário, transforma-se num espetáculo maravilhoso. O barulho da sangria é uma melodia para os ouvidos do seridoense. A água correndo convida a um mergulho. Ele integra-se à natureza, deixa-se levar pela correnteza, inunda sua alma do líquido precioso, seiva de sua terra.

Embevecido nesse ritual, o entusiasmo de José Bezerra foi tão grande que não percebeu quando Haroldo caiu no poço atrás da barragem. Se não fosse a rapidez com que foi retirado, o acontecido poderia ter se transformado numa tragédia. Antônio Bezerra, que dedicava uma predileção especial a Haroldo, não tinha ido à fazenda, permanecera na Cacimba do Meio, estava casado em segundas núpcias com Tereza Bezerra de França, nem bem fazia um ano. Apesar de ter abandonado o comércio, recuperava-se financeiramente à custa do plantio do algodão e da pecuária. Quando soube do episódio, ficou uma fera. Passou um grande corretivo em seu filho; chamou-o de irresponsável e inconsequente. Mesmo sendo dono de seu próprio nariz, o Prefeito escutou calado o carão que recebeu, sem ousar questionar uma palavra sequer. O respeito a seu pai era ponto sagrado.

Os dias passaram-se depressa. Logo deveriam retornar a Currais Novos, para os preparatórios das comemorações do mês de Santana. Os moradores da fazenda vieram despedir-se. As relações de trabalho estavam mudando. Antes, o proprietário morava na fazenda; agora, só ia lá para supervisionar os trabalhos. A maior parte do ano, passava na cidade, onde matinha outras atividades. As diferenças entre o setor rural e o urbano acentuavam-se. José Bezerra ainda tinha que retornar às responsabilidades de Prefeito. Mesmo satisfeita com a temporada, Yvete apressava-se para retornar ao conforto de sua casa, levando na bagagem queijo suficiente para passar o ano.

Ao chegarem a Currais Novos, uma notícia trouxe certo alívio ao Prefeito: embora o cangaço ainda fizesse suas vítimas pelos sertões nordestinos, não andava por aquelas paragens. Antônio Silvino, que passara pacificamente no município, anos antes, foi solto em 19 de fevereiro de 1937, aos sessenta e dois anos, já velho e sem recursos, elogiando o povo norte-rio-grandense.

Lampião, ao contrário, continuava a desafiar as forças policiais. Mas cada qual tem sua hora. Na madrugada do dia 28 de junho de 1938, foi surpreendido e abatido pelos macacos, sob o comando do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva. Estava na grota do Angico, em Sergipe. Ao seu lado, tombou Maria Dea, ou Santinha como ela a chamava, ou Maria Bonita, como fez fama no Brasil, sua companheira desde 1930. Mais oito cabras do seu bando e Enedina também morreram no tiroteio que durou entre quinze e vinte minutos. A polícia cortou as cabeças dos bandidos e percorreu o sertão nordestino, expondo-as até chegarem a Maceió. Por onde passavam, chamavam a atenção da população, que fora tão massacrada pelas ações do “Governador dos Sertões”. As torturas, os saques, os incêndios, as castrações, os estupros, as violações, as surras, os sangramentos, a ferração, as mortes, todos os bárbaros crimes praticados pelo rei do cangaço estavam reunidos naquela cabeça, enquanto que para os aliviados sua alma já deveria estar queimando nos quintos do inferno. A exposição nefasta era uma vingança da polícia contra aqueles que, durante tanto tempo, conseguiram escapar ao seu cerco, espalhando terror! Uma lição para aqueles que tentassem o mesmo caminho: o início do fim do cangaço, que passaria a ser encontrado de outras formas no sertão nordestino. De Maceió, as cabeças de Lampião e Maria Bonita seguiram para Salvador, onde permaneceram em exposição até serem sepultadas, em 1969. A notícia da morte de Lampião percorreu as manchetes de todo o Brasil. O Presidente chegou a receber, em audiência, o Tenente João Bezerra. O sertão respirava mais aliviado.

No entanto, como toda história tem, pelo menos, dois lados. Para muitos, Lampião transformou-se em “Santo”, uma espécie de Hobin Hood do sertão, defensor dos oprimidos.


Capítulo 37

Braços fortes aliviavam a carga dos animais. Comboios inteiros, vindos da Paraíba, descarregavam seus pertences. Ainda era escuro e os currais de trato já estavam cheios. Os feirantes acomodavam suas mercadorias, a feira ganhava forma. Antes do amanhecer, tudo deveria estar em seu devido lugar. A segunda-feira começava mais cedo do que o habitual em Currais Novos. Muitos consumidores chegavam antes de a barra quebrar, pois as melhores mercadorias iam parar nas mãos dos madrugadores.

José Bezerra fazia questão de chegar bem cedo, ainda mais naquele dia, quando levava uma notícia tão importante. Segundo ele, era lá que tomava conhecimento de tudo o que se passava na redondeza. A feira era o termômetro das acontecências. As pessoas convergiam de vários lugares. Os habitantes da zona rural traziam e levavam notícias. Aos comerciantes, juntavam-se os pequenos agricultores ou os feirantes eventuais, que traziam o excedente para comercialização, tentando ganhar uma renda extra. Apesar do burburinho, havia uma organização preestabelecida. Os espaços eram delimitados. Havia a feira da lenha, do carvão, da troca de animais. Porcos, galinhas, bodes, cabritos, patos, guinés, perus, todos com seus sons característicos, formavam uma balbúrdia. Seriam trocados de mãos, muitas vezes, indo parar no fundo da panela.

Quem morasse próximo à feira, tinha que despertar mais cedo. O bate-bate de panelas, caçarolas, caldeirões, baldes, bacias e toda sorte de apetrechos de alumínio, flandre e zinco só acalmava depois que os mesmos estivessem devidamente arrumados, expostos à escolha dos fregueses, que os levava para casa, onde seriam ariados com bucha e areia de rio. Os utensílios mais finos eram feitos de ágata; para mexer a comida, nada melhor que as colheres de pau, encontradas em diversos tamanhos.

Contrastando com as peças de metal, o barro destacava-se por sua rusticidade. Quartinhas, potes, travessas e alguidares ganhavam forma nas mãos dos negros do Riacho, descendentes de escravos que formavam uma comunidade fechada e vivia nas proximidades da cidade. Suas louças ganhavam fama; eram reconhecidas por darem melhor sabor à comida e reproduzidas em miniaturas para a alegria das meninas. Eles já dispunham de local para expor suas mercadorias, quase sempre junto aos currais de trato, pois era lá que recebiam alguns trocados para uma bicada ao final do dia. Vez por outra, assim como muitos dos frequentadores da feira, excediam-se e formavam alguma confusão ou chegavam a passar mal.

Para esse mal e outros que castigavam o corpo ou a alma do sertanejo, encontrava-se uma diversidade de raízes, ervas, sementes ou remédios naturais. As vantagens e o emprego de cada um eram difundidos de pai para filho; a forma de utilização e a dosagem recomendada era conhecida por todos: quebra-pedra para os rins, romã para a garganta, boldo para digestão, mastruz para inflamação, óleo de coco para o cabelo, batata-de-purga para limpar o sangue, banha de tejuaçu para a garganta. Para que surtissem efeito, era necessário seguir à risca as recomendações.

Os feirantes estendiam as esteiras de carnaúba e acomodavam, sobre elas, as mercadorias. Estavam prontos para propagar as suas qualidades. As sacas de milho, açúcar, feijão de arranca, arroz da terra, fava, goma seca e farinha de mandioca estavam à disposição dos compradores. Para medir, utilizavam a cuia ou o litro; em alguns casos, era a balança que auferia, com uma ou outra sabedoria, o pedido do freguês, já de posse dos sacos de algodão trazidos de casa, para acomodar suas compras. Aos poucos, os balaios ficavam repletos, ou mesmo os carrinhos de madeira dos jovens carregadores, que aproveitavam a oportunidade para ganhar alguns trocados, levando as compras até à casa do consumidor.

Antes, tinha que comprar a mistura. Podia escolher entre a carne-de-sol, costelas de carneiro ou de porco no sal preso, bode, linguiça, toucinho para temperar o feijão, ou ainda entre uma variedade de caças, como: o peba, o mocó e a ave de arribação. A carne fresca, somente nos sábados e domingos, dias de matança.

Completada sua feira, José Bezerra mandava deixá-la em casa, onde Yvete aguardava, para orientar a arrumação. Em sua casa, ela contava com um privilégio para o município: o uso da geladeira, movida a querosene, uma novidade em Currais Novos, embora já conhecesse a utilidade desse eletrodoméstico na casa de seus pais.

Voltando à feira, deixando-se de lado a parte de alimentação, chegava-se às miudezas. Lá, encontrava-se de tudo. Tecidos, roupas, calçados e brinquedos. Como estavam em época de colheita, os agricultores aproveitavam para comprar, com o dinheiro apurado, alguns artigos supérfluos. As bonecas de pano faziam parte da infância das meninas e os carrinhos de lata, da dos meninos.

Procurando por um sapato, podiam seguir o olfato, que davam direto nos artigos de couro. Do chapéu à bota, passando pelas perneiras e o gibão, até a chibata, encontrava-se toda a vestimenta do vaqueiro. Para descansar os pés cansados da lida, nada melhor do que uma alpercata de couro. Os artesãos faziam fama e disputavam as melhores selas e os arreios mais bem-acabados. Era a oportunidade de os compradores experimentarem nos seus animais, pois quase sempre traziam um para montaria e outro para a carga.

Em meio a essa tribuzana, ainda surgiam os repentistas para animar o ambiente, tirando mote com um ou outro. A feira transformava-se numa festa, num encontro de toda a população, fosse ela urbana, fosse rural. Como acordavam mais cedo naquele dia e a exposição dos mais variados alimentos despertava o apetite de todos, uma pausa para um cafezinho não era nada mau. A oportunidade certa para as mais variadas conversas. José Bezerra aproveitou para contar a novidade a seus conterrâneos. Estavam no início de setembro de 1939, em sua casa, ela já dispunha de um rádio à bateria. Toda noite, à vinte e uma horas, escutava a BBC de Londres e as notícias da noite passada não tinham sido nada boas.

A onda de nacionalismos extremados, encarnados principalmente pelo nazismo alemão e fascismo italiano, transformou-se num conflito armado. Em 1º de setembro a Alemanha tinha invadido a Polônia; dois dias depois, a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha. A Segunda Guerra Mundial tinha começado na Europa. Os ouvintes ficaram alarmados. Desde a noite anterior, quando uns poucos ficaram sabendo da guerra, não se falava em outra coisa na cidade. O assunto renderia toda a feira a ainda sobraria para os próximos dias. Na época da Primeira Guerra Mundial, não se tinha notícias pelo rádio, pois este nem sequer existia no município, agora, mesmo que só uns poucos possuíssem o aparelho, a população poderia ficar sabendo rapidamente dos acontecimentos. As especulações começaram, ninguém sabia se os conflitos chegariam ao Brasil, muito menos se os afetariam. Nem de longe imaginavam as transformações que a guerra provocaria no solo currais-novense. Por enquanto, o país tinha declarado estado de neutralidade.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 1, Capítulo 2, Capítulo 3, Capítulo 4 e Capítulo 5.

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