No Rastro das Águas – Capítulos 38 e 39

(…)

A onda de nacionalismos extremados, encarnados principalmente pelo nazismo alemão e fascismo italiano, transformou-se num conflito armado. Em 1º de setembro a Alemanha tinha invadido a Polônia; dois dias depois, a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha. A Segunda Guerra Mundial tinha começado na Europa. Os ouvintes ficaram alarmados. Desde a noite anterior, quando uns poucos ficaram sabendo da guerra, não se falava em outra coisa na cidade. O assunto renderia toda a feira a ainda sobraria para os próximos dias. Na época da Primeira Guerra Mundial, não se tinha notícias pelo rádio, pois este nem sequer existia no município, agora, mesmo que só uns poucos possuíssem o aparelho, a população poderia ficar sabendo rapidamente dos acontecimentos. As especulações começaram, ninguém sabia se os conflitos chegariam ao Brasil, muito menos se os afetariam. Nem de longe imaginavam as transformações que a guerra provocaria no solo currais-novense. Por enquanto, o país tinha declarado estado de neutralidade.


Capítulo 38

Aproveitando o sol forte, Antônio Cândido espalhava o feijão para secar. De quando em quando, dava uma parada, tirava o chapéu de couro, coçava a cabeça e punha-se a matutar. A vida não estava nada fácil; no entanto, o inverno daquele ano tinha sido muito bom: o feijão já fora colhido; as catembas de algodão, carregadas, esperavam as mãos a lhes despirem; o milharal quebrado aguardava nas ruas dos algodoais. Mas as quantidades eram por demais reduzidas, para garantirem o sustento da família. Num ano bom de chuva, dava até para passar; mas nas estiagens a situação agravava-se e a pequena faixa de terra não suportava o peso das barrigas.

A última grande seca, em 1932, tinha abreviado a vida de seu pai. O desespero foi grande e ele não suportou tamanho sofrimento. Deixou os filhos no sítio Tamanduá, espremidos numa pequena propriedade. O jeito que tinha era tentar outro meio de vida, pois quando a herança é pequena, a repartição não garante o sustento para as famílias que vão se formando. Já se passaram oito anos desde o suicídio de seu pai e a cada dia sua certeza era maior: precisava arrumar algum trabalho. Soubera que seu vizinho e amigo, José Bezerra, estava precisando de uma pessoa de confiança para gerenciar a fazenda Jaú. Munido dessa certeza, Antônio Cândido fez chegar aos ouvidos do Prefeito sua disposição para o trabalho.

Certo dia, estava no terreiro de sua casa, quando avistou, ao longe, uma montaria. Encostou a mão na testa, na tentativa de apurar a visão e viu de quem se tratava. Entrou em casa, vestiu uma camisa e ainda vinda fechando os últimos botões, quando o cavaleiro apeou e aproximou-se. Tratava-se de José Bezerra. Acomodaram-se nos tamboretes e pediram um café a Ana, esposa de Antônio Cândido. Ela serviu o café e retirou-se. Lugar de mulher era longe das conversas de homens, enquanto eles puseram-se a dar conta da colheita, do inverno e das fofocas da redondeza. A conversa não se esticou, pois como José Bezerra não gostava de arrodeio, disse logo a que veio. Estava atarefado na Prefeitura; soubera das dificuldades do amigo e precisava de uma pessoa para ajudá-lo na fazenda Jaú. Expôs sua oferta: o leite da fazenda, um pequeno salário e a possibilidade de criar umas vinte reses. Deu um tempo para ele resolver e partiu.

Quando José Bezerra saiu, Antônio Cândido ficou com a decisão em suas mãos. Só tinha duas opções: ou juntava seus pertences e partia sem destino, para aventurar no Sul do Brasil, ou seguia o caminho natural e deslocava-se para as grandes propriedades, com a força de seu trabalho. Era assim que faziam no sertão nordestino. De pequeno proprietário, ele se transformaria em assalariado, com relações de trabalho mescladas de ligações pessoais.

Enquanto isso, no Sudeste do Brasil, essas relações modificavam-se. Getúlio Vargas, que tinha chegado ao poder com o apoio, também, das classes operárias, passava a regulamentar os pedidos por melhores condições de trabalho, especialmente nas indústrias. Em 1932, já tinha instituído as 8 horas de trabalho por dia e agora, em 1940, no dia do trabalhador, criou o salário mínimo, que atingiria, especialmente, os operários das indústrias.

As mudanças trabalhistas não atingiram o interior do Nordeste e as relações de trabalho permaneceram as mesmas, anos a fio. Alheios às modificações processadas no operariado do Sudeste do país, os agricultores continuavam suas atividades. Antônio Cândido recebeu a oferta de trabalho em boa hora; seria tolice não a aceitar. Ambos eram jovens, tinham a mesma idade e um longo caminho a percorrer. Seguindo destinos opostos, encontraram-se na encruzilhada da vida. O filho do pequeno proprietário, deixando de lado o orgulho, consciente de que sua herança não lhe garantia o sustento, passaria a trabalhador do grande proprietário.

O filho do grande proprietário, ao contrário, tinha um futuro promissor. Por seu próprio esforço, já adquirira seu primeiro pedaço de chão e muito ainda teria por herdar. Do lado materno, herdara a fazenda Potengi, passada para sua mãe, ainda em vida, por seu avô Manoel Salustino. Do lado paterno, Seu Antônio Bezerra possuía vasta extensão de terras na região, assegurando, portanto, o bem mais precioso do seridoense a seus filhos.

Antônio Cândido estava decidido; ao invés de arriscar-se numa terra que nem ao menos conhecia e transitar por estradas nunca antes percorridas, para arrumar um trabalho diferente de tudo que tinha feito até então, era mais seguro ficar no seu amado Seridó. Usaria seus conhecimentos no trabalho com a terra e o gado. Continuaria a sentir a poeira cobrindo as secas caatingas; a sofrer a expectativa da chegada das chuvas; a sentir o cheiro da terra molhada, do estrume dos currais; a alegrar-se com o mato em flor; a disputar as vaquejadas; a colher o retorno da incessante labuta. Seu lugar era aqui, junto aos seus e à sua terra. Já que tivera a oportunidade, não deveria desperdiçá-la. Comunicou a Ana sua decisão. Arrumaram as coisas e seguiram para a fazenda Jaú. Junto foi Oliveirinha, seu sobrinho, que era criado como filho, apesar de ser portador de uma deficiência mental.

José Bezerra estava satisfeito. Teria uma pessoa de sua inteira confiança para gerenciar suas terras. De imediato, criou-se uma afinidade entre eles que o fez lembrar-se de Padrinho Tano. Esse, aliás, apesar da idade avançada, estava morando na fazenda Macacos, ajudando Janot. O filho caçula de Antônio Bezerra herdara a metade da fazenda, quando da morte de D. Ritinha e resolver casar, ainda com dezoito anos. Por causa de sua inexperiência, seu pai achou conveniente que Tano fosse morar com ele, para orientá-lo e ajudá-lo.

Agora, Antônio Cândido faria o trabalho do mestre Tano. Novo relacionamento formava-se. Há muito que José Bezerra tinha perdido Sinhá Cândida, mas a vida continuava e outras pessoas foram introduzidas ao seu convívio, fazendo brotar fortes laços de amizade. Ao longo do caminho, estradas se cruzam, personagens entram e saem. Alguns são marcantes, outros nem tanto, mas todos deixam alguma lembrança.


Capítulo 39

De passagem para Muriú, José Bezerra aproveitou para inteirar-se das novidades na Capital. Esteve com o governador Rafael Fernandes. A política local estava tranquila e ninguém sabia até quando permaneceriam no poder, pois a ditadura Vargas continuava fortalecida. As atenções nacionais estavam voltadas para o conflito que se desenrolava na Europa. Passado o impacto inicial da guerra, o Presidente Getúlio Vargas, apesar do estado de neutralidade, mantinha uma política externa dupla: de um lado, integrou-se à política da Boa Vizinhança, preconizada pelos Estados Unidos; de outro, mantinha simpatia pelos alemães, embasada nos ideais totalitários e anticomunistas.

Dentro da política de integração dos países pan-americanos, o governo autorizou a construção, o melhoramento e o equipamento do aeroporto de Parnamirim pela Panair do Brasil. Em julho de 1941, começaram a chegar os técnicos da companhia responsável pelos serviços. Natal, considerada ponto estratégico para se chegar ao continente africano, paulatinamente, passava a receber americanos. A cidade começava a ferver e a ter modificados os costumes. Verificando o movimento intensificar-se, José Bezerra prosseguiu seu caminho.

Quando anos antes, o menino José vira, pela primeira vez, o mar, encantara-se com sua imensidão. Já homem feito, a paixão pelo oceano permanecia em seu íntimo, alimentada pelos veraneios em Touros e na Redinha. O casamento com Yvete deslocou-o para Muriú, praia do município de Ceará-Mirim. Todo ano, a família passava uma temporada, que se estendia dos derradeiros aos primeiros meses do ano, época de seca no sertão. Para a sorte de José Bezerra, ele tinha para onde ir, enquanto o Seridó pegava fogo. Seu corpo vinha revigorar-se no verde do mar, mas a cabeça permanecia ligada à sua terra.

Tentava conciliar os deveres de Prefeito com o estar junto à família, que, por sinal, continuava a crescer. Franklin, segundo filho, passava a maior parte do tempo com D. Dulce. Tinha sido assim desde seu nascimento, quando a febre tifoide acometeu José Bezerra e Yvete retornou com ele para Currais Novos, deixando seu bebê aos cuidados de sua mãe, com uma ama de leite. Além dos meninos, mais duas meninas já faziam parte da família, Zorilda e Dulce, ambas nascidas em Natal, na casa dos avós maternos, na avenida Deodoro. Com tanta gente, a viagem para Muriú era uma festa.

Ainda na estrada, bem próximo à praia, ao vislumbrar o horizonte, com o azul celeste delimitando o verde marinho, o coração de José Bezerra aliviava-se. Inspirava a brisa refrescante e lembrava-se do inverno chegando, quando a terra exala um perfume característico, suspiro vertente da água penetrando suas entranhas. No litoral, o ar tem cheiro de molhado. Entra ano e sai ano e a água está lá, temperada de sal, espalhando maresia. A visão do oceano era um engodo para sua alma sertaneja, acostumada à escassez do líquido, que o transforma em preciosidade. Quando se nasce, se cresce e se vive racionando um bem essencial, defrontar-se com esse bem em abundância, é como descobrir um filão de diamantes. Junto ao mar, era assim que ele se sentia.

O veraneio era um alívio para seu espírito; era como revigorar-se na invernada. No sertão, o ciclo da vida segue as estações do ano; na praia, as fases da lua. À tardinha, ao chegar a Muriú, encontrou o mar com toda sua fúria. As ondas arrebentavam ferozmente, numa clara demonstração de força, enquanto o sol se punha. Acomodaram a bagagem e trataram de acender as lamparinas. A escuridão da noite realçava o brilho das estrelas. No céu, apenas um filete de lua nova. O cansaço da viagem tomou conta dos viajantes, a conversa no terraço durou pouco, o mar acalmou-se, mas como nunca silencia, embalou o sono dos recém-chegados.

A maré alta despertou para mais um dia. A criançada acordou cedo, para aproveitar o banho de mar. José Bezerra foi dar seu passeio matinal. Gostava muito de conversar e logo integrava-se à comunidade praieira. Para brindar sua chegada, justou, de imediato, um passeio ao Buraco da Velha, denominação dada à maior piscina natural que se formava nos arrecifes próximos à costa. Com a maré de lua nova, a baixa-mar deixava as pedras desnudas, formando um paraíso de piscinas naturais.

Para chegar até lá, utilizavam a jangada, que deslizava mais rápido quando molhavam sua vela. O vento batia forte e encontrava resistência, impulsionando a embarcação. Na hora de dar o bordo, era preciso avisar aos presentes para abaixarem a cabeça, caso contrário, seriam nocauteados pelo giro de cento e oitenta graus que a tranca da vela fazia. Quando os arrecifes se aproximavam, o pescador, velejador experiente, levantava a bolina para não a arrebentar. Depois de ancorarem, os banhistas podiam mergulhar à vontade, desde que tivessem o cuidado para não se machucar nas pedras. Os sertanejos deliciavam-se nas águas rasas, calmas e mornas, rodeados de espécies marinhas, como as algas e os cardumes de peixes das mais variadas cores e formas. Podiam encontrar meros, lagostas, lagostins e polvo, mas tinham que ter cuidados com as locas que escondiam as temíveis moreias.

A volta era determinada pela maré. Quando as águas subiam e não se dava mais pé, estava na hora de partir. Ao colocar os pés em terra firme, o cansaço, provocado pelo sol, convidava a um bom cochilo. Antes do almoço, um banho de cuia tirava o sal do corpo. A água fria reanimava os corpos enfadados, que de barrigas cheias, refestelavam-se nas redes penduradas no terraço. O farfalhar das palhas dos coqueiros provocavam um estado de dormência.

O baralho dominava a tarde dos veranistas. As apostas eram baixas, suficientes apenas para animar a disputa. Como o carteado durava todo o veraneio, devia servir como motivo de diversão e não de apreensão. A maré alta da tardinha divertia os banhistas, que deslizavam nas ondas, pegando cavaletes. Com a noite, chegava o cansaço. A lua começava a crescer e o mar repousava. Tornava-se preguiçoso, suas ondas batiam devagar, parecendo mar morto; descansava para responder à força da lua.

Os banhos no Buraco da Velha ficavam para a próxima lua cheia. Enquanto ela não chegava, divertiam-se na despesca dos currais. Os pescadores levavam as redes nas catraias, arriavam-nas na boca estreita daqueles aglomerados de estacas e arrebanhavam os peixes que ficaram aprisionados. Depois de esvaziados, a meninada aproveitava para um delicioso banho dentro dos currais vazios. Além do mar, aproveitavam, também, os banhos de riachos e lagoas da região. José Bezerra gostava de sair à procura dessas maravilhas, desbravando a redondeza. Enchia o carro de gente, levava comida e água e divertia-se no piquenique. Retornava a tempo de esperar a chegada das jangadas.

De cima do trapiche, avistava, na linha do horizonte, brancos pontos que se confundiam com o rebojo das ondas. Aos poucos, a espuma branca ia ganhando forma, destacando-se na imensidão do oceano, para alívio das famílias dos pescadores. Dois dias antes, tinham partido mar adentro, munidos de anzóis, linhas, facão, água potável, casaco para espantar o frio da madrugada, chapéu de palha para protegerem-se do sol, muita coragem e reza forte. Em casa, ficavam as esposas, orando para São Benedito, o padroeiro da praia, torcendo para que o mar lhes devolvesse, são e salvos, os seus maridos. O ponto multiplicava-se; surgiam vários ao mesmo tempo. Em terra firme, os companheiros aprontavam os rolos de coqueiros que serviam para deslizar a jangada até a areia. Os pescadores chegavam com os corpos impregnados de sal e maresia. O sorriso na face era sinal de fartura, o samburá estava repleto de peixe, o mar tinha sido generoso. Ali mesmo tratavam o sustento da família. Os restos ficavam por lá, os que não iam parar na barriga dos urubus, o mar levava de volta. José Bezerra e Yvete podiam escolher à vontade; teriam peixe fresco para o jantar.

Os dias prolongavam-se. Um passeio na beira da praia era por demais relaxante; a água molhando deliciosamente os pés, demonstrava sua força; por onde passava, semeava vida. Recolhendo-se, deixava, em seu rastro, tatuis a respirar e siris correndo para esconder-se sob a areia. Os pescadores lançavam suas redes ao mar, juntavam as forças para o arrastão; os veranistas ajudavam, gostavam de ver os peixes debatendo-se, tentando escapar das cordas. Além deles, arrastavam camarões, siris, águas-vivas, tinteiros e tudo que estivesse no caminho. Com a mudança do vento, as ondas traziam enorme quantidade de sargaço, que formava um tapete de cheiro desagradavelmente forte na beira-mar. Era preciso o mar avançar novamente, para recolher seus dejetos.

Na direção oposta ao pôr-do-sol, por entre o coqueiral, um filete dourado surgiu no oceano, delimitando céu e mar. Logo foi roubado por uma nuvem inoportuna. O sumiço momentâneo só serviu para realçar sua beleza; quando reapareceu, transformou-se numa imensa bola dourada, clareando a noite. A lua cheia veio saudar os veranistas. O mar refletia seus encantos, o momento era especialmente romântico. As serenatas inundaram os ouvidos da praia.

O dia de retornar a Currais Novos estava próximo. Antes do anoitecer, José Bezerra dirigia-se até um alto, próximo a Muriú, observando a existência de “torres” pros lados do sertão. Aguardava a noite chegar, na tentativa de vislumbrar relâmpagos na mesma direção. Seu coração estava apreensivo. Não tinha notícias de chuva, tudo indicava para mais uma seca. A lua começava a minguar, levando consigo a esperança do sertanejo. A maré morta despediu-se dos veranistas. Revigorado pela temporada no litoral, José Bezerra podia retornar à sua terra. Antes, porém, deveria passar na Capital para inteirar-se dos últimos acontecimentos da guerra.  


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 1, Capítulo 2, Capítulo 3, Capítulo 4 e Capítulo 5.

Leia também

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *