No Rastro das Águas – Capítulos 44 e 45

(…)

E assim ele ia levando a vida. Em meio à seriedade costumeira, principalmente quando tratava de negócios, sempre achava um tempinho para as brincadeiras com os amigos. Divertia-se bastante nesses casos e não desperdiçava uma boa oportunidade para armar das suas. Essas brincadeiras serviam até para desanuviar o clima tenso dos últimos dias da guerra, que continuava, infelizmente, a fazer vítimas.


Capítulo 44

Agora era pra valer. O Presidente Getúlio Vargas já adiara o possível. Em julho de 1944, embarcou o primeiro escalão da FEB, com destino a Itália. A fase de intensos preparativos ficara para trás; a partir de então, os combates seriam verdadeiros. Os pracinhas brasileiros, muitos dos quais vindos do interior, iriam juntar-se aos Aliados, para a derrubada dos exércitos alemães. A época coincidia com o avanço das tropas anglo-americanas rumo a Paris. Em 06 de junho, no famoso dia “D”, o General Eisenhower comandou o desembarque na Normandia. Os alemães tentaram e até conseguiram, por um curto período de tempo, mantê-las entrincheiradas na praia da costa francesa, mas os Aliados persistiram, apesar das baixas, e avançaram para libertarem Paris. O ataque foi decisivo para o desfecho da guerra.

Como represália, fazendo uso de sua última cartada, Hitler bombardeia ferozmente a Grã-Bretanha, com os famosos foguetes V-1 e V-2, mas o cerco fechava-se. A União Soviética avançava em direção a Berlim. A Itália já tinha se rendido. O sonho da supremacia ariana dominar o mundo desmoronava-se.

O Brasil ainda enviou mais quatro escalões, que participaram da conquista de Monte Castelo, da tomada de Montese e da batalha de Collechio, todas elas em 1945. O coração das famílias dos pracinhas postavam-se à frente dos rádios, esperançosos de que as batalhas não vitimassem seus filhos. O sangue parava de fluir quando chegava algum comunicado das Forças Armadas; o sonho estava desfeito e a dor enlutava os lares brasileiros, felizmente, numa proporção bem inferior àquela verificada nos lares europeus; mas nem por isso menos traumática. Na concepção materna, de nada valia uma medalha num herói enterrado; melhor seria um covarde vivo.

Em 12 de abril de 1945, a comunidade americana em Natal, assim como os Estados Unidos e o restante do mundo, foram surpreendidos pela notícia da morte súbita do Presidente americano. Franklin Delano Roosevelt faleceu pouco tempo antes de presenciar a vitória da democracia sobre o totalitarismo. Um vencedor das urnas, pois acabara de reiniciar seu quarto mandato, deixou o cargo vago para seu Vice-Presidente, Harry Truman, assumi-lo. Os americanos ficaram chocados, mas não se deixaram abater; revigoraram as forças para concluírem a missão determinada por seu Presidente.

A corrida agora era para ver quem ocuparia Berlim primeiro. Além do fato desta ação pôr um fim ao conflito europeu, por baixo do pano, as grandes nações envolvidas tinham interesse em se apoderarem dos segredos militares alemães, tão bem trabalhados durante a guerra.

Sentindo-se encurralado, Hitler não se deixaria dominar. Sua obsessão pelo poder, a liderança que exercera sobre seu povo e a força que transmitira não podiam ser subjugadas. Não permitiria que seus comandados presenciassem a sua submissão aos Aliados, a humilhação de ser julgado pelos crimes de guerra e a condenação por raças inferiores. Afinal, quem está na guerra é para matar ou morrer, mas apenas os dominados serão julgados e esse não seria o seu destino. A saída mais honrosa seria o suicídio, consumado em 30 de abril de 1945. Dois dias depois, Berlim foi ocupada pelos soviéticos.

Em 08 de maio, a Alemanha assina a rendição. Derrotada, passará pela humilhação de ser repartida entre capitalistas e comunistas. Restava a capitulação do Japão, que persistia nos combates asiáticos. Desesperados, vendo a derrota dos países do Eixo, os kamikazes atacam em voos suicidas. Longe dali, os americanos testavam uma nova e poderosa arma. O ataque a Pearl Harbor teria uma retaliação definitiva. Pilotos da mais alta confiança partiram numa missão altamente sigilosa.

Cumprindo ordens presidenciais, apertaram um único botão. Um clarão ofuscante, seguido de um estrondo sentido a milhas de distância, e a fumaça toma a forma de cogumelo, resultando em milhares de pessoas carbonizadas; destruição por toda parte. Numa fração de segundos, em 06 de agosto de 1945, Hiroxima fora devastada. Os poucos sobreviventes ficariam com sequelas pelo resto da vida. Três dias depois a cena se repete em Nagasaqui. Diante de arma tão letal, o Japão capitula. A explosão da bomba atômica põe fim à Segunda Guerra Mundial e dá início à corrida nuclear que desembocará na Guerra Fria, promovida por duas nações aliadas, Estados Unidos e União Soviética.

O fim da guerra estabelece uma nova ordem mundial. De um lado estarão os ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, na defesa do regime capitalista; do outro a União Soviética, difundindo o comunismo entre seus seguidores. A luta pelo poder encerra uma batalha; milhões de pessoas foram sacrificadas. O momento agora é de contar os mortos, julgar os vencidos e reconstruir o que fora destruído.


Capítulo 45

Um choro delicado de criança misturava-se à chiadeira costumeira do rádio. D. Dulce carinhosamente aninhava Regina no colo, tentando acalmá-la para que os ouvintes não perdessem uma notícia sequer. O nascimento daquela menina coincidia com o final dos combates na Europa. Ela, a sexta dos filhos de José Bezerra e Yvete, chegou nos festivos dias do fim da guerra. Assim como toda população, seus pais estavam entusiasmados, sentindo a onda de mudança que pairava no ar.

Poucos meses antes, o Brasil todo aguardava ansioso o retorno de seus pracinhas e oficiais. As pessoas de melhores condições dirigiram-se ao Rio de Janeiro, local onde desembarcaria o primeiro grupo de heróis nacionais, para recepcionarem seus familiares. O Presidente Getúlio Vargas fazia questão de comparecer aos desembarques e ser fotografado junto aos expedicionários da FEB. Ninguém como ele para saber o que agradava ou não à multidão. Mas o sorriso reproduzido nas fotografias não revelava seu momento de inquietação.

Embora simpatizante dos regimes nazifascistas, Getúlio Vargas, em troca de benefícios financeiros para o país, juntara-se aos aliados e levara o Brasil ao conflito. Essa atitude fortaleceu, sobremaneira, as nossas Forças Armadas. À medida que a situação se invertia no desenrolar dos combates, com os exércitos alemães perdendo as posições anteriormente conquistadas, os opositores à ditadura organizavam-se na tentativa da redemocratização do país.

A ascensão de Getúlio Vargas ao poder, em 1930, justificou-se pela necessidade de derrubar a Velha República, a fim de garantir um pleito livre e democrático. O golpe de 30 contou com o apoio do tenentismo e de vários setores da classe média. No entanto, o voto livre e secreto nunca se concretizou na escolha do Presidente; ao contrário, seguindo o modelo de alguns países europeus, que implantaram regimes totalitários de governo, o Presidente deu um novo golpe de estado, em 1937, e implantou uma ditadura. Esse fato foi de encontro à proposta democrática inicial e provocou o rompimento de antigos correligionários.

Getúlio voltou-se, então, para as massas trabalhadoras. Espelhando-se nas lideranças exercidas por Franco, na Espanha, e Salazar, em Portugal, valeu-se de seu carisma pessoal e buscou o apoio necessário no operariado, garantindo-lhe benefícios nunca antes conquistados, muito embora mantivesse o controle dos sindicatos representativos.

Nos conchavos políticos, o Presidente revelou-se um talentoso articulador, acomodando interesses de um e de outro. Todavia, de vez em quando conseguia desgostar amigos e colaboradores, que terminavam passando para a oposição. Aliás, esta soube aproveitar quando as atenções se voltaram para o desfecho da Segunda Guerra e a vitória da democracia estava iminente: conseguiu furar a censura imposta aos meios de comunicação, divulgou manifestos pela redemocratização e lançou o nome do Brigadeiro Eduardo Gomes como candidato à presidência, exigindo a realização de eleições.

Ciente de que tinha que acompanhar o rumo da história para manter-se no poder, Getúlio Vargas marcou eleições para 2 de dezembro daquele ano, decretou anistia política e fez retornar o pluripartidarismo. A oposição anti-Vargas aglutinou-se e formou a UDN (União Democrática Nacional), que comportava várias facções; Vargas ajudou a fundar o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e o PDS (Partido Social Democrático); o PC (Partido Comunista) saiu da clandestinidade; o PRP (Partido de Representação Popular) substituiu a Ação Integralista; surgiram, ainda, o PSP (Partido Social Progressista) e outros de menor representação.

A época coincidiu com a vitória dos Aliados e o retorno dos heróis de guerra que foram à Europa justamente para derrubar o totalitarismo, ainda presente em nosso país. O caminho estava aberto para a redemocratização. As campanhas eleitorais passaram a ocupar as atenções dos brasileiros, satisfeitos por terem seus filhos de volta, muito embora, ainda chorando as perdas de alguns bravos heróis.

Getúlio conseguiu coligar o PTB-PSD e lançou o General Eurico Gaspar Dutra como seu candidato, com o qual rompeu posteriormente. Não iria entregar o poder de mão beijada. Seu prestígio ainda era grande; assim como todos os grandes líderes populares, não havia meio termo: era ser amado ou odiado. Foi quando surgiu o movimento queremista, que pregava sua permanência no cargo. Fazendo uso de sua última cartada, ele chegou a aliar-se a Luiz Carlos Prestes, comunista, combatido veementemente no seu governo, que tinha sido preso juntamente com sua esposa judia, Olga Benário, deportada e entregue à fúria dos nazistas.

Diante desta atitude, os militares perceberam que Getúlio Vargas estava disposto a conturbar o processo eleitoral e o depuseram em 29 de outubro de 1945, para garantirem a lisura do pleito. O Presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares, assumiu interinamente o governo, até à posse do novo Presidente eleito. Chegava ao fim a ditadura Vargas, que vigorou durante quinze anos. Mas Getúlio não estava enterrado e sua força ainda seria demonstrada posteriormente.

A campanha presidencial ganhou as ruas. O povo estava entusiasmado com a volta das eleições. Os lenços brancos, representando a esperança da renovação, tremulavam nos comícios do Brigadeiro Eduardo Gomes. Figura vistosa, bonito e elegante, fazia sucesso entre as mulheres. Em recepções privadas, a ala feminina esmerava-se em servi-lhe os melhores quitutes; foi daí que surgiu o docinho brigadeiro, que até hoje faz sucesso. Mas, com a ajuda dos queremistas, pouco a pouco sua candidatura passou a ser associada à classe média, distante das massas.

Do outro lado, o General Dutra, não tão garboso, passava a conquistar a simpatia dos trabalhadores, mesmo após o rompimento de Getúlio. O entusiasmo inicial pelo candidato da UDN, que contava com aliados importantes como Carlos Lacerda, Virgílio de Mello Franco, Juracy Magalhães, Juarez Távora, entre outros, parecia inverter-se.

Em Currais Novos, José Bezerra sentia-se à vontade para organizar o partido opositor ao governo Vargas. Mesmo tendo permanecido seis anos à frente da administração municipal, nunca escondeu sua antipatia pelo governo federal. Fundou a UDN no município e tornou-se seu presidente. Enquanto divulgava a plataforma de seu candidato, Yvete trabalhava no bureau de alistamento eleitoral. Desacostumado a votar, o eleitorado dava bastante trabalho, que era superado pela vontade de escolher o Presidente.

A eleição deu a vitória ao General Dutra. Além do Presidente da República, foram eleitos os trezentos e vinte parlamentares que formariam a Assembleia Nacional Constituinte, instalada na Capital Federal em 2 de fevereiro de 1946, e que elaboraria uma das mais democráticas constituições que vigoraram em nosso país. Pelo Estado do Rio Grande do Norte, foram eleitos: os Senadores Georgino Avelino (PSD) e José Ferreira de Souza (UDN); e os Deputados Federais José Augusto Bezerra de Medeiros (UDN), João Café Filho (PRP), Dioclécio Duarte (PSD), José Augusto Varela (PSD), Walfredo Gurgel (PSD), Mota Neto (PSD) e Aluízio Alves (UDN). Getúlio Vargas demonstrou sua força política. Já que a legislação eleitoral permitia, candidatou-se e elegeu-se Deputado e Senador por diversos estados, sendo diplomado como Senador do PSD do Rio Grande do Sul.

No Rio Grande do Norte, as eleições para Deputados Estaduais Constituintes, Governador do Estado e o terceiro Senador da República só ocorreram em janeiro de 1947. O candidato pelo PSD, José Augusto Varela foi eleito governador e João Câmara, também pelo PSD, Senador da República. Depois de quase vinte anos, o povo norte-rio-grandense pôde escolher, novamente, seu governante.


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