No Rastro das Águas – Capítulos 46 e 47

(…)

No Rio Grande do Norte, as eleições para Deputados Estaduais Constituintes, Governador do Estado e o terceiro Senador da República só ocorreram em janeiro de 1947. O candidato pelo PSD, José Augusto Varela foi eleito governador e João Câmara, também pelo PSD, Senador da República. Depois de quase vinte anos, o povo norte-rio-grandense pôde escolher, novamente, seu governante.


Capítulo 46

Ao pôr-do-sol, assim que terminou o trabalho no curral, Antônio Cândido foi banhar-se apressadamente, não sem antes pedir a Ana o seu jantar. Bom proseador, não queria demorar. Soubera das últimas e aproveitaria a estada de José Bezerra para saber mais detalhes. Afinal, em plena comemoração da Festa de Santana, não era comum encontrá-lo na fazenda quando todos estavam na “rua”, participando dos festejos da padroeira. Engoliu a janta, quase engasgando-se e pôs os pés na curta estrada que o separava da casa grande da Cacimba do Meio. Já tinha fechado a porteira, quando ouviu sua esposa, recomendando cuidado para que o café quente junto ao sereno não fizesse apanhar um ramo. Nem deu ouvidos às recomendações.

De longe avistou José Bezerra deitado em sua rede no alpendre, embalando os pensamentos com um leve toque dos pés no chão. Como acontecia sempre que tinha que tomar uma decisão importante, era junto à terra que se sentia mais confiante para fazer sua escolha. Apesar de preferir estar sozinho naquela hora, não podia negar a seus moradores o direito de saberem dos últimos acontecimentos; e foi assim que aguardou a chegada de cada um dos frequentadores do paleio noturno na casa grande.

O céu estava estrelado e o vento soprava, levando para longe as esperanças do sertanejo, já no segundo ano consecutivo de estiagem. Após o jantar, os mais íntimos aproximavam-se. Antônio Cândido era o primeiro a chegar; abancava-se, seguido pelos demais. Os mais recatados encostavam-se no chão do alpendre, elevado em relação ao nível do solo, formando um banco improvisado. Um morador mais velho pediu licença para acender seu cigarro de palha, enquanto aguardava o início da narrativa. Logo que todos estavam presentes, José Bezerra pôs-se a falar, pausadamente, bem ao seu estilo de narrar uma história. Apesar da seca, que provocava desânimo geral, os interlocutores estavam atentos e não perdiam uma palavra sequer, pois as notícias eram importantes e prendiam a atenção dos ouvintes.

Estavam em julho de 1951 e no último dia 12, uma quinta-feira, o Rio Grande do Norte enlutou-se com o desastre aéreo que vitimou seu Governador, Jerônimo Dix-Sept Rosado Maia. Ele que saíra vitorioso na eleição do ano anterior, tendo tomado posse no último dia 31 de janeiro, perdera a vida em terras sergipanas. O avião das Linhas Aéreas Paulistas, que transportava o Governador e mais três auxiliares da administração, caiu nas águas do rio do Sal, nas proximidades de Aracaju. Quem escapou do impacto da queda, viveu momentos de horror ao ser sufocado pelas águas. Não houve sobreviventes.

Após relatar o acidente, José Bezerra relembrou um outro acontecido em Muriú, em janeiro de 1946, logo após o final da Segunda Guerra, quando grande parte dos americanos ainda permanecia na capital potiguar. Mesmo que seus interlocutores já conhecessem a história de cor e salteado, pois ele gostava de contar detalhadamente os fatos que testemunhara, não perderia a oportunidade de fazer um comparativo entre a tragédia ora vivida pelos norte-rio-grandenses e o acontecido de anos antes.

Retornando cinco anos no tempo, viu-se novamente em Muriú, o barulho assustando os nativos e veranistas da praia, acostumados à passagem de aviões militares durante a guerra. Aqueles pareciam muito próximos à água; caso não exercitassem manobras estratégicas, arriscavam-se demais. As pessoas pararam o que estavam fazendo e passaram a acompanhar os aviadores afoitos. Os olhos não desgrudavam das aeronaves americanas e ao mesmo tempo temiam pela sorte da pequena jangada que chegava, depois de dois dias ao mar, e punha-se na rota das manobras. As cenas seguintes aconteceram num piscar de olhos. Um dos aviões, voando muito baixo, bateu no mastro da jangada, perdeu o controle, partiu o “olho” de um coqueiro e, já completamente desgovernado, caiu mais adiante num charco, incendiando-se e matando seus oito tripulantes.

A população, mesmo sem acreditar no que via, correu em direção aos destroços. A cena parecia retirada da guerra, que tinha acabado nem bem fazia seis meses. Lá chegando, nada puderam fazer, pois o fogo ainda permanecia e os corpos estavam totalmente carbonizados. José Bezerra estava veraneando e, junto com Ary Alecrim, vieram até Parnamirim, comunicar o fato à base aérea. Os veranistas foram muito bem recebidos pelos militares, que externaram os mais sinceros agradecimentos. O comandante até ofereceu-se para pagar a viagem, o que foi educadamente recusado. As providências foram tomadas: enviaram ambulâncias, médicos e pastores, que nada puderam fazer, senão transportarem os corpos e recolherem os escombros para investigação. Após o trabalho de resgate, os mais curiosos aproveitaram para ver se conseguiam salvar alguma coisa em meio aos destroços.

José Bezerra retornou o mais rapidamente a Muriú. Na casa de seu sogro, onde veraneava, estavam todos ansiosos pelos mínimos detalhes da viagem a Parnamirim. A conversa prolongou-se no terraço, com mais candeeiros acesos do que o necessário, num leve reclame de liberdade, já que na época da guerra foram proibidos de acender qualquer luz externa que possibilitasse a indicação de terra para navios e submarinos inimigos. Naquele dia, ele foi dormir mais tarde do que o habitual e as cenas da queda do avião não saíram do seu pensamento. Tempos depois, recebeu uma carta de agradecimento do comandante da base aérea.

Voltando ao alpendre da fazenda, os ouvintes passaram a expressar suas opiniões. Muitos deles asseguravam que os acidentes aéreos não passavam de castigo de Deus, pois apenas os pássaros receberam a bênção divina para voar; o lugar do homem era em terra firme, deixassem o céu para as aves. Os mais esclarecidos defendiam que o homem devia utilizar sua inteligência para evoluir e o avião era uma prova disso. Discussões à parte, o certo era que o Estado perdera seu Governador. Ele tinha sido Prefeito-revelação de Mossoró e por sua destacada administração, era dado como certo para disputar a eleição para governador pelo PSD, partido da situação. No entanto, o Governador José Varela preferiu lançar seu primo, Manoel Varela, como candidato. O clima esquentou e provocou rompimentos. Ao final a eleição foi disputada entre Manoel Varela, pela coligação Aliança Democrática Trabalhista, formada pelo PST e UDN, e Dix-Sept Rosado, pela coligação formada pelo PSP, PSD e PR. Este último, vencendo pleito com grande vantagem.

A conversa tinha tomado o rumo da política. José Bezerra lamentou a perda do político-populista. Os norte-rio-grandenses perderam seu Governador, mas a ordem constitucional estava preservada e o Vice-Governador, Sílvio Pedroza, assumiria o Governo. Em meio ao debate político, comentaram os fatos em nível nacional. Ao final do mandato do General Dutra, na Presidência da República, realizaram-se novas eleições. A UDN insistiu na candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes, que foi novamente derrotado, então pelo ex-Presidente Getúlio Vargas. Este voltando ao Palácio do Catete, candidato pelo PTB, com a força do queremismo, que o ajudou a eleger-se pelo voto direto depois de ter passado 15 anos governando o país através da ditadura. Como Vice-Presidente da República foi empossado o norte-rio-grandense Café Filho, filiado ao PSP, que participara da Constituinte em 1946.

Com o adiantado da hora, os proseadores tiveram que retornar a suas casas, pois enfrentariam trabalho árduo no dia seguinte e os serviços começavam de madrugada. A conversa tinha sido proveitosa. Mesmo com a crescente utilização do rádio nos grandes centros urbanos, o morador do campo ainda se mantinha distante desse meio de comunicação e só contava com a comunicação verbal para se manter a par das notícias.

Sozinho novamente, José Bezerra pôde retomar suas divagações. Há muito que vinha pensando em transferir-se para Capital. A pressão vinha aumentando e chegara a hora de uma decisão. Com uma prole numerosa, já contava com seis filhos, era difícil assegurar uma boa educação no interior do Estado. Ele próprio concluíra seus estudos longe de sua terra e colhera bons frutos graças ao ensino recebido. Atualmente, Haroldo estudava em Natal, ficando na casa de sua avó materna, que cuidava também de Franklin. Zorilda e Dulcinha passaram um ano internas em Garanhuns, Pernambuco, mas ficava oneroso mantê-las distante; então elas passaram a estudar no Colégio das Neves, em Natal. Com as crianças estudando na Capital, D. Dulce insistia na mudança e Yvete estava cada vez mais convencida. Compreenderam, então, que seria a melhor opção.

Contudo, um ponto muito importante deveria ser levado em consideração. Os anos passados à frente da administração municipal permitiram que José Bezerra construísse uma liderança política em Currais Novos. O seu estilo de resolver as questões, quer fossem de ordem pública, quer fossem de ordem privada, muito lembrava as ações do Coronel José Bezerra. Quando Prefeito, seu neto era procurado para solucionar problemas de cercas, brigas de vizinhos, questiúnculas de compadres. Com seu jeito pacificador e senso de justiça, ouvindo sempre os dois lados envolvidos na questão, sem alterar seu tom de voz, conquistou a simpatia do povo, com quem sempre conversava. Muito respeitado, fazia as vezes de juiz ou de delegado de polícia e fez prevalecer a moral herdada do avô.

Com a redemocratização do país, já afastado da Prefeitura, José Bezerra ajudou a fundar a UDN em Currais Novos. Vivaldo Pereira e Antônio Rafael, chefes políticos locais, acharam por bem indicá-lo presidente do partido no município, devido à atuação política e por representar cara nova no cenário político, que bem condizia com a renovação que se processava no resto do país.

Os anos passaram-se e ele foi, cada vez mais, consolidando sua liderança política. Na eleição para Prefeito, em outubro de 1947, ajudou a eleger seu primo, Dr. Sílvio Bezerra de Melo, candidato pela UDN, mesmo tendo Dr. Tomaz Salustino, pai do candidato, ligado ao PSD, partido opositor.

Pelo caminho traçado, para decidir a transferência para Natal, deveria pesar, e muito, a possibilidade de perder posição na política municipal. A decisão era por demais importante, principalmente depois de ter o sangue contaminado pelo vírus da política. A ida para Capital poderia significar o fim de sua carreira ou a sua ascensão. Lembrou-se, então, da paisagem da Serra de Santana, quando anos atrás teve que decidir se aceitava ou não ser candidato à Prefeitura de Currais Novos.

Envolvido nesses pensamentos, o sono não teve espaço em sua mente, ocupada em avaliar os prós e os contras de sua decisão e em checar todas as providências necessárias. Os meninos estavam de férias em Currais Novos, aproveitando os festejos da padroeira. Yvete já pedira a sua mãe para procurar uma casa para alugar. A mudança para a Capital seria em breve, coincidindo com o início do segundo semestre do ano letivo. A fazenda ficaria aos cuidados de Antônio Cândido, que já demonstrara ser cumpridor de suas obrigações. Ele, aliás, tinha afinidade especial com Haroldo e até fizeram uma sociedade de criação de galinhas, motivo de gozação por parte de José Bezerra brincando que logo, logo, eles ficariam ricos com a multiplicação dos ovos.

As horas passaram rapidamente. A cruviana chegou, obrigando-o a agasalhar-se, mas ele não arredou de sua rede. A noite no sertão estava esplendorosa. Uma vastidão infinita apontava a insignificância do ser humano, e reduzia-o a simples observador da imensidão, capaz apenas de registrar esses momentos de quietude e solidão sem, contudo, modificá-los. Sem a luz da lua, nem a claridade artificial dos homens, a terra desaparecia na escuridão, traída na sua existência pelos barulhos emitidos por seus habitantes noturnos. Contemplando o céu estrelado, José Bezerra deixou-se dominar pelo brilho das estrelas. Estas podem adotar contornos infinitos na imaginação do observador, que as confundiu com brancas plumas do algodoal, escassas naquele ano, esmagadas pela força da estiagem. Os sonhos dominaram-no e o levaram para longe do seu amado sertão, invadindo a Capital, como retirante da seca.


Capítulo 47

Poucos dias depois, estava ele na Cacimba do Meio, checando as últimas providências para a mudança. Os meninos estavam eufóricos e até mostravam-se demasiadamente prestativos, se bem que não ousavam desobedecer a qualquer mandado de seus pais, sempre rigorosos na educação. Yvete, muito satisfeita e entusiasmada para vir morar junto aos pais, não poupava esforços na arrumação.

José Bezerra, sempre muito contido em suas emoções, revivia os derradeiros momentos antes de sua transferência para a “rua”, ainda menino e inexperiente. Naquele tempo, os companheiros de brincadeira vieram despedir-se. O tempo passou e, agora, muitos daqueles meninos continuavam em suas terras, outros tinham partido para lugares distantes, mas os que ficaram transformaram-se em trabalhadores, pais de famílias que, assim como ele, tinham a responsabilidade de cuidar de suas crias e estavam ali assistindo à partida do patrão para a Capital. Com olhares aflitos, temiam, em seus interiores, pela sorte da fazenda. Afinal, com o dono das terras tão longe, com quem poderiam contar na hora do aperto?

Percebendo os olhares temerosos de seus moradores, José Bezerra tratou de tranquilizá-los: estaria longe sim, mas poderiam contar com Antônio Cândido, seu homem de confiança e que assumiria a responsabilidade em sua ausência; a Capital era distante sim, mas, com as estradas e automóvel, viria com frequência à fazenda. Nada deveriam temer: o algodão continuaria a ser plantado em suas terras e o gado a procriar na árida caatinga.

Mais uma volta na chave e a porta estaria bem trancada. O filho de Antônio Bezerra entregou a chave da casa grande a Antônio Cândido e com ela a responsabilidade de cuidar das terras em sua ausência; em seguida, entrou no carro, ligou o motor e seguiu lentamente, como se não quisesse se afastar daquele lugar. Suas raízes estavam bem fincadas e por isso a dificuldade em partir. Deixar para trás o seu amado sertão não era tarefa fácil.

O carro, finalmente, começou a andar. Ao longo da estrada, José Bezerra aspirou o ar seco e o cheiro do estrume penetrou em suas narinas, trazendo à boca o sabor do leite cru no curral e a consistência da coalhada na ceia noturna. Mais adiante, ao gado roçando o focinho no solo ressequido lembrou-lhe as derrubadas de boi. Ele, que se criou nos pátios de vaquejadas, sentiria falta dos galopes desenfreados em cima de um cavalo na tentativa de buscar a supremacia humana sobre os touros bravios, da vibração pelas belas corridas e dos destemidos vaqueiros, das noites passadas nos alpendres das fazendas, descansando da árdua tarefa de juntar o gado durante o dia, das conversas e brincadeiras com Jacó Pires, Manoel Lopes e seu primo Tomás Galvão, amigos fiéis.

A saudade não tinha fim. Em seu coração misturavam-se sentimentos antagônicos. Não podia esquecer a alegria de assustar-se com o estrondar dos trovões, de ver a água penetrar em solo sedento, a babugem brotando, o gado engordando, o algodoal florindo, as flores se abrindo, o branco inundando a caatinga, o verde exalando perfume; nem a tristeza de abater-se quando as águas se iam, secando o mato, definhando o gado, provocando sede e expectativa de chuva, enquanto o cinza dominava, sob o império da seca.

Naquele momento, prevalecia a tristeza da partida, guardada bem fundo, longe de ser transparecida e sufocada pela constatação de uma melhoria de vida. Sabia que estava progredindo e a transferência para Capital era um claro indicativo. Ao contrário dos retirantes de seu sonho, não estava fugindo da miséria, sem perspectiva e em busca de sobrevivência; estava em boa situação, tanto assim que podia efetuar essa mudança, mantendo suas atividades produtivas, que poderiam ser incrementadas em Natal. Vivia de suas fazendas, tinha entrado no comércio de minérios e atuava na política de seu município. A família era grande e necessitava ser bem preparada para os desafios da vida. Numa cidade maior, as oportunidades seriam melhores.

Envolto nesses pensamentos, seguiu com a família para Currais Novos. A visão de sua cidade era um tanto quanto diferente. Costumava ir e vir por aquelas ruas, mas naquele instante, a via com olhos diferentes, olhos de quem está partindo. Gravava em seu interior o cotidiano de sua amada cidade. Com passos lentos, seus moradores levavam a vida. Já estavam no final de julho, com a festa de Santana encerrada. Devido à estiagem, a diversão perdera um pouco do brilho, mas as súplicas dirigidas à Avó de Jesus renovaram a fé dos currais-novenses, o momento de desalento fortaleceu o lado espiritual dos fiéis e transformou a procissão do dia vinte e seis num congraçamento único do povo, pedindo as bênçãos de sua protetora.

Passados os festejos da Padroeira, restava aos homens da cidade interiorana, entre eles José Bezerra, a distração do carteado, que sentiria saudades daquele jogador comedido. Enquanto os homens divertiam-se com o baralho, as mulheres distraiam-se debruçadas nas janelas altas das casas, de onde tudo assistiam e de onde partiam os mexericos que esquentavam as conversas vespertinas nas calçadas. Os currais-novenses desarmavam as últimas barracas da festa da Padroeira. O sol escaldante levava as pessoas a procurarem abrigo nas árvores pouco frondosas ou nos terraços das residências.

Vistoriando a casa construída logo após seu casamento e que ficaria ocupada por seu primo Tomás Galvão, José Bezerra lembrava-se do tempo em que fora Prefeito, quando os batentes de sua casa amanheciam repletos de pessoas em busca de uma solução para seus problemas. Em frente à casa, o velho mercado mantinha-se firme como ponto de convergência, localizado na praça central, sendo o lugar de fazer negócios e de saber das notícias. O edifício da Prefeitura, ocupada então por seu primo, Sílvio Bezerra de Melo, que se revelava um dos administradores mais dinâmicos do município, era o lugar para onde se dirigia o povo, a fim de ver atendidas as suas solicitações. Um pouco mais adiante, a Igreja de Santana, ainda com os restos ornamentais da festa, depósito de súplicas, louvores e agradecimentos de um povo sofrido, mas inabalável na fé.

Na praça, à esquerda da Matriz, o Cristo Redentor, de braços abertos dando as boas-vindas aos visitantes, que não eram poucos, atraídos pela febre da scheelita. A pedra pesada garantia uma boa fonte de renda para o município. Graças a ela, muitos podiam permanecer em solo seridoense, mesmo numa época de estiagem como aquela. Além da mina Brejuí, outras minas foram descobertas na região, com a Cafuca, de Aristófanes Fernandes e a Bodó, de Sérvulo Pereira e o tungstênio, minério extraído da scheelita, continuava a abastecer as nações envoltas na guerra fria e nos combates em solo asiático.

O carro deu partida e tomou a estrada de piçarro com destino a Natal, levando José Bezerra, Yvete e os meninos. Ela, que fora tão bem recebida pelos sertanejos, que passara anos felizes no chão seridoense, partia com uma saudade imensa no coração, sem conseguir conter as lágrimas que teimavam em rolar na sua face. A viagem iniciou-se num profundo silêncio, que indicava o estado de espírito dos adultos, logo quebrado pela euforia dos meninos, alheios aos sentimentos de seus pais. A bagagem seguiu separadamente, sendo transportada de caminhão. À medida que se afastava de Currais Novos, o coração de José Bezerra apertava-se. Estava transferindo-se para uma cidade maior, para oferecer melhores estudos a seus filhos; mas se todos tomassem o mesmo rumo, como ficaria o sertão?

Ele debatia-se entre a saudade e o entusiasmo, com a transferência. Sabia que encontraria novas oportunidades na Capital, mas temia pelo destino daqueles que continuava a residir, em sua maioria, na zona rural. Com as diferenças entre o campo e a cidade acentuando-se, com o dono das terras partindo para longe das fazendas e com as constantes secas que assolavam a região, sem assistência adequada, mudanças não tardariam a acontecer.


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