No Rastro das Águas – Capítulos 52 e 53

(…)

O Rio Grande do Norte mantinha-se como estado agrícola, distante da industrialização que se processava no centro-sul. Nas terras potiguares, a indústria era representada, apenas, pelas usinas algodoeiras e por umas poucas usinas de açúcar que, paulatinamente, ocupavam o lugar dos antigos engenhos. Enquanto isso, no centro-sul, o governo de Juscelino Kubitschek, cumprindo sua meta de campanha, dava incentivos pesado para o desenvolvimento do setor industrial, acentuando a diferença entre o Norte e o Sul do Brasil.


Capítulo 52

Em meio a tantos problemas, José Bezerra, sempre que podia, ia espairecer no seu amado Seridó. Aproveitando o gado gordo da babugem viçosa, divertia-se nas vaquejadas pelo sertão afora. Podiam encontrá-lo nos pátios das fazendas de Currais Novos, São Vicente, Florânia ou arredores. As corridas não eram mais como antigamente, o tempo das apartações ficara distante, o gado não corria mais solto; tinha estacas de cercas e arames a lhe guiar o caminho e diminuir suas chances de escapar. Mesmo assim, as carreiras eram bonitas e despertavam emoção quando quatro patas giravam no ar, levantando poeira.

A diversão diurna encontrava descanso nas redes dos alpendres noturnos. Relaxados, os vaqueiros e seus admiradores colocavam a conversa em dia e relembravam casos passados. Longe de Yvete, José Bezerra podia narrar suas aventuras de outrora. Quando novo, ainda trabalhando na Estação Experimental de Bulhões, começou um namoro com uma cabocla bonita, mas moça “falada”. O caso não era sério, mas entusiasmou o jovem de então. Tanto assim, que certa noite ele saiu, a cavalo, da Cacimba do Meio para ir até Bulhões, distante uns vinte quilômetros. Lá chegando, avistou de longe o cavalo de Horácio Pires amarrado na porta da casa da cabocla, indicando que seu amigo tinha se adiantado e tomado sua vez. Muito contrariado por estar sendo passado para trás e para não perder a viagem, aprontou uma das suas: retirou a sela do cavalo e espantou-o para bem longe, pelo menos assim seu rival não teria condução para voltar para casa e ainda teria que suportar o peso da sela. Perdeu a namorada, mas não perdeu a oportunidade de se vingar do amigo.

Seguindo suas andanças pelo interior, José Bezerra foi dar em Jucurutu. A caminho de Santana do Matos ia visitar seu xará, também José Bezerra de Araújo. Chegando ao centro do município, dirigiu-se ao escritório do amigo. Sem muita conversa, encostou uma pistola em seu estômago e disparou. A ação foi rápida. Os milésimos de segundos entre o estampido e a reação do possível atingido pareceram uma eternidade. Os espectadores aguardaram paralisados. Estavam alarmados e esperaram o desfalecimento da vítima.

Para surpresa de todos, o sangue não espirrou. O silêncio foi quebrado pela risada de José Bezerra. Aquilo tudo era mais uma de suas inúmeras presepadas. Passado o susto inicial, ele explicou como funcionava a inofensiva arma. Trouxera-a de sua viagem à Argentina e ela nada mais fazia do que provocar um estampido muito alto.

Os amigos foram para a fazenda Serrote. Lá, relembraram casos passados. José Bezerra do Serrote contou antigas traquinagens de seu amigo, José Bezerra da Cacimba do Meio.

Certa vez, ia chegando da feira, à tardinha, acompanhado de seu filho Ruy, quando se deparou com um automóvel desconhecido parado na porta de sua casa. Desconfiado, perguntou se Ruy conhecia o dono do carro. Diante da resposta negativa, dirigiu-se a um morador da fazenda. Este informou-lhe, cumprindo o acertado com o proprietário do carro, que se tratava de um vendedor de seguros e que estava lá embaixo, junto aos currais.

José Bezerra afobou-se. Para ele, não podia existir ninguém mais chato e insistente do que vendedor de seguro. Resmungando, com uma pisada forte, foi ter com o estranho para logo despachá-lo. Antes de chegar aos currais, onde estavam amarrados alguns touros para engorda, escutou vários tiros de uma espingarda de soca, disparados por um homem de chapéu encobrindo a cabeça. Era muito atrevimento! Além de entrar na fazenda sem sua permissão, ainda tinha o disparate de usar arma de fogo, assustando os animais.

Pisando nos calos, aproximou-se do sujeito. O desconhecido virou-se e levantou o chapéu. Era o próprio José Bezerra da Cacimba do Meio, armando mais uma das suas. A amizade entre os dois era compartilhada, também, no passatempo preferido por ambos. Sentados à mesa, passavam horas a fio, jogando baralho e proseando.

Quando retornava a Natal, José Bezerra vinha leve e disposto para enfrentar o trabalho na Secretaria. Isso só não acontecia quando encontrava o sertão pegando fogo, sendo incinerado pelo flagelo da seca, com seus habitantes amargando a estiagem e fugindo para campos distantes. Caso contrário, tinha fortaleza para enfrentar qualquer desafio.

Seu novo domicílio permitira estender seu círculo de amizades, mas não esquecia de sua gente e mantinha a convivência com as pessoas de Currais Novos. Sempre que alguma delas estava em Natal, punha-se à disposição para qualquer necessidade. Em outros casos, levava uma palavra amiga aos doentes e enfermos que vinham se tratar nos hospitais da Capital.

Ainda em 1956 internara-se, no Hospital das Clínicas, seu Ernesto, conhecido motorista de Currais Novos, detentor de um aguçado senso de humor. Suas histórias faziam parte do folclore da cidade. Quando possuía seu famoso fordeco 29, deu uma virada na entrada da cidade, porém com pequenas consequências. Naquela época, o número de automóveis da cidade era por demais reduzido e qualquer acidente era assunto certo nas conversas das calçadas. Seu Ernesto vinha passando, quando lhe pediram para relatar o ocorrido; ele não contou conversa e rapidamente retornou ao local, repetindo a cena, para surpresa e alívio do curioso que deu graças a Deus por nada de mal ter-lhe acontecido. Coisas desse tipo fizeram a fama do divertido motorista. Agora ele estava internado e nem assim deixava escapar uma oportunidade de fazer piada.

José Bezerra dirigiu-se ao hospital, a fim de visitá-lo. Lá chegando, ficou aguardando, enquanto seu Ernesto satisfazia suas necessidades fisiológicas. No quarto, estavam presentes Nobinho, seu filho, e Dona Raimunda, sua esposa. Esta, preocupada com a demora do marido no banheiro, a todo instante perguntava se ele tinha terminado o serviço ou se precisava de alguma ajuda. De dentro do reservado, seu Ernesto gritou para o filho: Nobinho, pergunte a sua mãe se estou defecando com o seu monossílabo para ela estar tão apressada! Meio encabulada, mas acostumada ao espírito do marido, Dona Raimunda pediu desculpas ao visitante, que, sem querer constrange-la, engoliu o riso que veio à tona. Deixou de herança para o público norte-rio-grandense, o humorismo de Espanta Jesus, seu neto, que soube tão bem encarar o espírito do avô.

Mesmo em meio às atividades profissionais, José Bezerra sempre encontrava um tempo para dar assistência aos seus conterrâneos e assim ia levando seus dias. O tempo passou e o ano de 1957 chegou com uma novidade. Após quase três anos de luta, a nova residência da família estava concluída. Com uma arquitetura moderna e arrojada para a época, a casa destacava-se na avenida Hermes da Fonseca. Muito ampla e confortável, agradou a todos, para alívio de José Bezerra, que não via a hora de estancar os gastos com a construção, cujo resultado final valera a pena o capital investido.

O arquiteto Moacir Gomes, recém-chegado a Natal, tinha caprichado no projeto. Os três níveis da casa estavam interligados por rampas, sem a presença de batentes. Com uma prole numerosa, Yvete exigiu quartos suficientes para abrigar a todos, sem esquecer dos hóspedes que sempre acolhiam, fazendo valer a hospitalidade sertaneja.

A mudança para a casa recém-construída foi rápida. Haroldo estudava Agronomia em Recife e não pôde usufruir logo do novo conforto. Franklin continuava morando com D. Dulce. Júnior, ainda criança, aproveitava o maior espaço para brincadeiras. Zorilda, Dulcinha, Eleika e Regina divertiam-se desfilando nas rampas, improvisando um concurso de miss, que vivia dias de glória.

As salas amplas, o longo terraço, a piscina refrescante e o espaçoso terreno permitiam recepções agradáveis. Os dezoito anos de Zorilda foram comemorados em grande estilo. As diversões para as moças de então restringiam-se às festas em casas de família e às matinês no América, sempre acompanhadas dos pais ou familiares. Portanto, nenhuma data passava despercebida nas comemorações.

Bem adaptados à nova residência e com mais uma etapa vencida, José Bezerra, Yvete e os filhos terminaram o ano, matando as saudades dos veraneios em Muriú, os quais tinham sido suspensos durante os anos da construção.


Capítulo 53

Defronte à imensidão do oceano, os pensamentos de José Bezerra disvisavam a linha do horizonte. Com um olhar absorto, sua cabeça traçava mil planos. O ano de 1958 iniciou-se com as eleições para senador e deputado marcadas para outubro. Os conchavos e as alianças políticas começavam a ser traçados. O Governador Dinarte Mariz realizava um bom governo. Prestigiado, não teria dificuldades em eleger seus candidatos. José Bezerra mantinha-se à frente da Secretaria, desfrutando da confiança e da amizade do Governador. Sua carreira política estava em ascensão; ele pretendia voos mais altos e quem sabe disputar uma vaga à Assembleia Legislativa.

Independentemente de suas pretensões políticas, não parava suas atividades. Nas idas e vindas de Muriú a Natal, fazia valer seu costume sertanejo e, como bom seridoense, inquiria sobre as notícias de chuvas. Mas as observações da natureza não traziam bons presságios. Não se tinha notícias de chuvas pras bandas do Piauí e, bem próximo a Muriú, suas visitas de final de tarde aos pontos mais altos da estrada, para acompanhar a formação de torres ou o clarear de relâmpagos, eram tentativas frustradas de antever um bom inverno.

Preocupado, via o fantasma da seca rondando seu Estado. Na verdade, toda a década de 50 tinha sido de chuvas razoáveis, sem nenhum inverno rigoroso. Os dias foram se passando e as esperanças esvaindo-se. Para ele, a seca não era mais uma questão restrita apenas aos domínios de suas fazendas; ocupando um cargo público diretamente ligado à terra, as providências a serem tomadas, para amenizar o sofrimento causado pela estiagem, também eram de sua responsabilidade.

Sem perder tempo, pôs os pés na estrada, percorrendo o interior ressequido. Ao escutarem, ao longe, o ronco do motor, moradores de localidades isoladas acudiam às janelas das casas para avistarem os passantes. A meninada, correndo para abrir as porteiras, estendiam mãos encardidas, calejadas e sofridas, à espera de algum trocado.

Os poucos reservatórios de água existentes baixavam de nível a cada dia e a chuva não chegava. São Pedro não estava sendo muito condescendente com o nordestino. Naquele ano, o dia de São José passou em seco, acabando de vez com as esperanças de um bom inverno. No solo encharcado de antes, onde as águas ajuntavam-se, restava apenas uma lama dura, seca e repartida, rachada pelo sol abrasador e que muito bem representava os corações sertanejos despedaçados pela estiagem.

Sem água, as plantações não vingaram, a babugem permaneceu adormecida e os animais padeciam de fome e sede. Para aqueles que dispunham de recursos, a torta do algodão era uma alternativa para salvar o rebanho; mesma sorte não tinham os desafortunados. O Governador e seus auxiliares instalaram frentes de trabalho, numa tentativa de garantir a permanência do homem no campo, mas os recursos eram insuficientes. Os apelos ao governo federal intensificaram-se, porém a construção de Brasília e os incentivos à industrialização do Sudeste consumiam os recursos existentes. O Nordeste ficava mais uma vez desamparado.

O êxodo rural tornou-se uma constante. As longas caminhadas de outrora, em estradas desconhecidas, esfolando os pés dos retirantes e deixando um rastro de cruzes e esqueletos andantes, seriam trocadas pelo chacoalhar nos paus-de-arara, que levariam os nordestinos para o centro-sul do país, onde as esperanças de oportunidades melhores nem sempre seriam alcançadas.

Se o retirante dispusesse de dinheiro para pagar a passagem, podia prosseguir a viagem até mais distante. Nas terras barrentas do Centro-Oeste, erguia-se o sonho do Presidente Juscelino. A construção de uma nova capital para o país prosseguia assimilando a mão-de-obra barata que fugia da seca nordestina. Quando não tomavam o rumo do Planalto Central, os nordestinos desviavam-se para a região Sudeste: utilizariam a força de suas mãos para erguerem as construções dos grandes centros urbanos, onde a indústria recebi injeções de capitais estrangeiros, dando um salto em direção à lacuna que a separava dos países precursores da Revolução Industrial.

A constatação desse quadro provocava uma dor profunda em José Bezerra. A fisionomia séria e taciturna tomava o lugar de seu espírito brincalhão. Privilegiado diante de tantos outros conterrâneos, convencia-se de que deveria lutar para representar os interesses de sua região. Resolveu candidatar-se a Deputado Estadual.

Nesse meio tempo, um acontecimento histórico no futebol brasileiro veio amenizar o sofrimento causado pela seca. A Seleção Brasileira deslumbrou os torcedores que lotaram os estádios suecos, durante a realização da Copa do Mundo. Nos pés de Vavá, Didi, Garrincha, Newton Santos, Zagalo, Belini, e no jovem prodígio, Pelé, a bola traçava o caminho certo para o gol. Do lado brasileiro, Gilmar esbarrava a pretensão dos adversários. Jogando com muita arte, o futebol brasileiro alcançou um lugar definitivo na galeria dos campeões, derrotando, na final, por cinco gols a dois, a seleção anfitriã. A Suécia rendeu-se à superioridade adversária e aplaudiu entusiasmada os finalistas. Em retribuição, a seleção brasileira desfilou abraçada à bandeira sueca. Era a primeira vez que o Brasil conquistava o título de campeão mundial. Satisfeito, José Bezerra veio com ânimo novo para enfrentar a eleição.


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