No Rastro das Águas – Capítulos 56 e 57

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Em Brasília, a nova Capital Federal, inaugurada no ano anterior por Juscelino, o Presidente Jânio da Silva Quadros recebeu a faixa presidencial na mesma data. Numa vitória avassaladora, a UDN, finalmente, saíra vencedora nas urnas. Como a legislação eleitoral permitia, o Vice-Presidente eleito foi o petebista, João Goulart, ex-Ministro do governo Vargas, que disputou o cargo em outra coligação.


Capítulo 56

A chegada da UDN ao poder nacional é logo frustrada com a atitude de Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961. José Bezerra, assim como o resto do país, recebe estarrecido a notícia de sua renúncia, sete meses após assumir o governo. Inimigo político da UDN, o vice-Presidente João Goulart encontrava-se em viagem à China. Os militares, que apoiavam a UDN, não acharam conveniente a sua posse, alegando sua simpatia pela esquerda. O Presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, assume o governo até que a crise fosse contornada. Como solução para o impasse, implanta-se no país o regime parlamentarista de governo e Jango, como era conhecido João Goulart, retorna ao Brasil para assumir o governo, cuja estrela principal é o Primeiro-Ministro, missão que recaiu sobre Tancredo Neves.

No Rio Grande do Norte, o deputado José Bezerra continuava seu mandato na bancada da oposição. Além de estar atento às ações do Governador Aluízio Alves, preocupava-se também com o desenrolar da situação política nacional, que continuava em crise. A inflação estava incontrolável e as greves espocavam por todo país. O parlamentarismo não estava dando certo. Jango conseguiu, no início de 1963, realizar um plebiscito para que o povo escolhesse entre o parlamentarismo e o presidencialismo. Não apenas esse último saiu vitorioso, como o Presidente saiu fortalecido: a esquerda ganhava espaço.

A época coincidiu com o fim do mandato de José Bezerra, que passa a assumir a suplência do Senador Dix-Huit Rosado em seus afastamentos.

Vista de cima, a Capital Federal, em formato de avião, parecia tranquila, bem distante do tumulto que se delineava nos bastidores. Com essa primeira visão, José Bezerra aterrissou em Brasília, em meados de 1963. O estilo contemporâneo do arquiteto Oscar Niemeyer estava estampado nos edifícios públicos do Palácio do Planalto, passando pela Catedral, indo até o Congresso Nacional, que acabava de receber um novo membro.

Em seu interior, uma inquietação tomava conta. Vindo lá dos sertões de Currais Novos, chegar ao Congresso Nacional não deixava de causar um certo nervosismo; mas não era do seu feitio esquivar-se ante os desafios. Elegante, discreto, fala mansa, José Bezerra chegava ao topo de sua carreira política. Sabia que a situação do país era preocupante, mas como representante de um pobre estado nordestino, baseado no setor agrário, não podia deixar de ocupar a tribunal para reclamar soluções para sua terra.

Ciente de que o desenvolvimento do setor industrial brasileiro deixaria largado em segundo plano o setor primário, pronunciou discursos no plenário do Senado, solicitando recursos para conclusão de estradas, tão importantes para o escoamento da produção; para o melhoramento do algodão mocó, principal produto econômico do Seridó; e para construção de reservatórios, indispensáveis ao ajuntamento das águas escassas e à sobrevivência de seu povo no campo.

Enquanto isso, Jango prosseguia seu governo fortalecendo os sindicatos e prometendo fazer reformas de base. Nos demais estados nordestinos, as ligas camponesas organizavam-se. A esquerda fortalecia-se em todo país. Preocupados, os militares avaliam a situação e, para não perder o controle, desencadeavam propaganda anticomunista. O Brasil passava a viver o dilema entre as duas forças que imperavam no mundo. A batalha dos Estados Unidos e da União Soviética, em manter os seus impérios, atingia também o Brasil. Em 1959, Fidel Castro fizera a revolução em Cuba e implantara o comunismo. Os Estados Unidos tiveram que engolir essa derrota, mas não deixariam que voltasse a ocorrer nos demais países latino-americanos, tão próximos geograficamente.

O início dos anos 60 é marcado por uma sucessão de golpes nos países latino-americanos. Os Estados Unidos davam apoio às intervenções militares, sempre que houvesse risco de implantação do comunismo. Suas ações estendiam-se ao sudeste asiático, onde a União Soviética expandia seu império. O Vietnã do Sul recebia ajuda financeira e militar, na luta contra o comunismo do Vietnã do Norte. Em agosto de 1964, navios americanos foram bombardeados. Foi a gota d’água para o Presidente Lyndon Johnson receber a autorização do Congresso para a retaliação. Em 1965, os americanos entram de uma vez na guerra do Vietnã, na qual permaneceriam até 1973.

No Brasil, o clima era tenso. Os protestos da esquerda eram respondidos por manifestações de direita. Por todo país, difundiam-se os males do comunismo contra a liberdade. A classe média assustou-se e, junto com a Igreja, promoveu a Marcha da família com Deus pela liberdade. José Bezerra já testemunhara a Intentona Comunista em Natal, em 1935. A baderna que se instalou na capital potiguar poderia, agora, repetir-se no restante do país. A propriedade privada estava ameaçada.

Os militares armaram o golpe, detonando-o a 31 de março de 1964. Pretendiam ocupar o governo até que a ordem fosse restabelecida. Com a deposição de Jango, que se refugiara no Uruguai, Ranieri Mazzilli, Presidente da Câmara dos Deputados, assume a presidência de marca eleições indiretas para escolha do novo presidente. A UDN e o PSD apoiam o movimento e elegem o General Humberto de Alencar Castelo Branco para Presidente do Brasil. Os militares chegam ao poder, sob protestos da esquerda, dos estudantes, dos artistas e intelectuais.

O governo militar decreta os atos institucionais (famosos AI), que lhe dão poder absoluto. Às manifestações contrárias ao governo, aos protestos pela liberdade democrática, os militares respondem com cassações de direitos políticos, banimentos e prisões. Em 1965 extinguem o pluripartidarismo e criam o bipartidarismo, cujas determinações preveem que os aliados ao governo passarão a integrar a Aliança Renovadora Nacional – ARENA, e os que estão contra o governo migrarão para o Movimento Democrático Brasileiro – MDB. No ano seguinte, decretam eleições indiretas para governadores dos Estados e convocam uma constituinte que ratifica as determinações militares, inclusive reduzindo o poder do próprio Legislativo e do Judiciário. Costa e Silva é eleito indiretamente para Presidência, tomando posse em 15 de março de 1967.

Os militares pretendiam apenas restabelecer a ordem no país, devolvendo o poder aos civis tão logo cumprissem a sua tarefa; tal pretensão, no entanto, perduraria por vinte anos, configurando um regime de governo eminentemente ditatorial.


Capítulo 57

Durante o tempo em que assumiu o Senado, na qualidade de suplente, José Bezerra transitou no meio político nacional e conheceu pessoas importantes. Era bem característico dele, fazer amizades. Certa vez, estava no apartamento do General Fernandes Távora, Senador pelo Ceará, onde costumava ir, quando foi apresentado ao General Juarez Távora, irmão do Senador. Depois das apresentações de praxe, José dirigiu-se ao próprio Juarez, dizendo que tinha sido demitido por ele quando trabalhava no Ministério da Agricultura na estação experimental em Cruzeta, nos idos da Revolução de 30. Disse isso e ficou em suspense, aguardando a reação do General, que, meio surpreso, quis pronunciar algumas palavras, mas José adiantou-se e agradeceu-lhe, dizendo que se não fosse a demissão e ele tivesse continuado na carreira de funcionário público, não estaria hoje no Senado. Passado o susto, ficaram às boas conversando e descobrindo raízes familiares muito distantes.

Mesmo depois da Revolução de 1964, José ainda continuou a assumir algumas vezes o Senado. Sempre muito rigoroso na educação, na disciplina e no respeito aos mais velhos, apoiou a iniciativa dos militares, pois admirava a disciplina e hierarquia vigentes nos quarteis e achava que só eles eram capazes de pôr o Brasil em ordem, longe do perigo do comunismo.

Quando não estava assumindo o cargo, voltava-se para os negócios ou para o lazer, o qual não deixava de contar com o seu lado espirituoso. Em outubro de 1964, José e Yvete fizeram uma viagem aos Estados Unidos; foram, finalmente, conhecer o país que dominava o mundo ocidental. Por causa do comércio de minérios, mantinha um bom relacionamento com a firma Wachang, de origem chino-americana e que explorava a scheelita da mina Barra Verde, em Currais Novos. Assim que confirmou a viagem, ofereceu-se para levar alguma encomenda para os Estados Unidos e recebeu uma carta que deveria ser entregue ao presidente da firma, em Nova Iorque.

Passaram por Nova Iorque e não tiveram a oportunidade de entregar a tal carta. Prosseguiram até à costa oeste americana. Em Los Angeles, era grande a influência dos chineses. Por toda parte os encontravam, o que o fazia lembrar, que no meio daqueles olhos puxados poderia estar Mr. Wang, antigo dirigente da firma. Yvete retrucava dizendo que todo chinês era igual e, portanto, ele só poderia estar maluco de achar que encontraria Mr. Wang no meio de tantos.

No saguão do hotel de Los Angeles, ao deparar-se com um chinês, José insiste na pergunta. Impaciente, sua esposa afasta-se, mas não vai muito longe, pois o chinês interpelado por seu marido era o próprio Mr. Wang, que quase se pendura no pescoço de José com um abraço efusivo, lembrando-se do tempo que passou em Currais Novos. Pergunta pelo povo da scheelita e leva-os para o apartamento do hotel onde estava sua esposa, que falava melhor o português.

De volta ao Brasil, encontrou sua terra em preparativos para eleição que ocorreria em outubro de 1965. Aluízio Alves consolidara sua força política e consegue eleger seu sucessor, o Monsenhor Walfredo Gurgel, derrotando aquele que se tornou seu inimigo político, o ex-Governador Dinarte Mariz. O gosto pela política vai perdendo o viço em José Bezerra. O veneno da mosca azul já não fazia efeito. Perto de terminar a suplência de Senador, faz uma análise do pouco tempo de vida pública e chega a uma conclusão: o mundo da política era bem mais complexo do que o imaginado; as negociatas são muitas, os conchavos nem se fala! Às suas reflexões acrescenta o surgimento dos oportunistas que aparecem de todos os lados e deduz que são poucas as pessoas que conseguem manter-se isentas de tudo isso. Sem pestanejar, decide abandonar a vida pública e voltar-se para as atividades privadas.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 6, Capítulo 7, Capítulo 8, Capítulo 9 e Capítulo 10.

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