No Rastro das Águas – Capítulos 58 e 59

(…)

De volta ao Brasil, encontrou sua terra em preparativos para eleição que ocorreria em outubro de 1965. Aluízio Alves consolidara sua força política e consegue eleger seu sucessor, o Monsenhor Walfredo Gurgel, derrotando aquele que se tornou seu inimigo político, o ex-Governador Dinarte Mariz. O gosto pela política vai perdendo o viço em José Bezerra. O veneno da mosca azul já não fazia efeito. Perto de terminar a suplência de Senador, faz uma análise do pouco tempo de vida pública e chega a uma conclusão: o mundo da política era bem mais complexo do que o imaginado; as negociatas são muitas, os conchavos nem se fala! Às suas reflexões acrescenta o surgimento dos oportunistas que aparecem de todos os lados e deduz que são poucas as pessoas que conseguem manter-se isentas de tudo isso. Sem pestanejar, decide abandonar a vida pública e voltar-se para as atividades privadas.


PARTE TRÊS: ENTRE O MAR E O SERTÃO (1960-1990)

Capítulo 58

Na sala da recepção, Yvete aguardava ansiosa por alguma notícia trazida pelo corpo clínico. José Bezerra procurava tranquilizá-la; lembrava-lhe do seu tempo e pedia que ela tivesse paciência. Ela reclamava: na sua época, os partos eram feitos no aconchego do lar. Com a evolução da medicina, foram deslocados para as paredes frias e impessoais dos hospitais e maternidades, onde as parturientes não podiam contar com o apoio de suas mães, que ficavam do lado de fora da sala de parto, separadas por paredes impenetráveis. Ele a consolava, era o preço que pagavam por melhores condições de saúde.

Estavam em julho de 1960, aguardando o nascimento da criança de Zorilda, que casara no ano anterior com Luís Cornélio Kmentt, piloto da Aerolíneas Argentina. Os nubentes fixaram residência em Buenos Aires, mas sua filha tinha vindo dar à luz em Natal, junto ao aconchego materno.

Finalmente, a enfermeira veio trazer a notícia de que tudo correra bem e, para surpresa dos avós, eles tinham ganhado um netinho. Era do sexo masculino e receberia o nome de Luís, em homenagem ao pai. O primeiro neto de José Bezerra não receberia o nome do avô, como mandava a tradição sertaneja, mas também não era filho de seu filho, mas de sua filha, que não tinha como perpetuar seu sobrenome, pois com o casamento recebera o sobrenome do marido.

Suas sementes, mesclas da robustez seridoense e da brejeirice da zona da mata, espalhavam-se pelo mundo. Somavam-se a um outro ser e constituíam nova família. De porte da bengala-cajado do Coronel José Bezerra da Aba da Serra, seu neto esperava que as próximas gerações herdassem as mesmas qualidades de seu ancestral.

Os anos transcorreram rapidamente. No final dos anos 60, seus filhos estavam quase todos casados. Haroldo, formado em economia e agronomia, casara-se com Selma, em 1961 e moravam em Natal. Suas filhas caçulas casaram-se na mesma data, em dezembro de 1965; Eleika com Fernando Guerreiro, engenheiro civil, moravam em Natal, mas tinham passado uma temporada no exterior, onde, inclusive, nascera a primeira filha, Yvete Bezerra Guerreiro; Regina com Carlos Fernando Mota, oficial da Aeronáutica, moravam no Rio de Janeiro. O número de netos multiplicava-se, num claro indicativo de que José Bezerra estava ficando velho. Atento às transformações que se processavam no mundo contemporâneo, preocupava-se com o futuro das crianças.

As mudanças aceleravam-se e provocavam distorções nos padrões de comportamento. José Bezerra até que tentava entender: também fora jovem e, como tal, sabia da sede de colocar-se à frente dos acontecimentos; mas a juventude rebelde estava extrapolando os limites. Ou será que era ele, com o conservadorismo do sertão, que não aceitava as novas mudanças? As transformações estavam sendo bruscas demais para quem foi acostumado ao compasso lento dos dias de sol abrasador na caatinga. Nas viagens que fez pelo primeiro mundo, pôde perceber a rebeldia dos jovens, diferentemente de sua época de juventude, quando havia respeito e educação, valores que pareciam estar sendo esquecidos.

Na verdade, os anos 60 caracterizaram-se pelo protesto dos subjugados na estrutura patriarcal. Nos países desenvolvidos, sobretudo nos Estados Unidos, os filhos passaram a não mais aceitar as imposições de seus pais, as mulheres lutaram pelo direito de serem elas mesmas, o movimento feminista intensificou-se. A liberdade era a palavra chave. As saias encurtaram; as minissaias prevaleciam. O Rock and Roll, música concebida na década anterior que simbolizava a rebeldia, espalhou-se pelo mundo; os Beatles ganhavam fãs incondicionais; a luta pela igualdade racial nos Estados Unidos e na África do Sul provocou vítimas; o movimento hippie, pregando a paz e o amor universal protestava contra as guerras indiscriminadas; e as passeatas feministas, que lutavam pela igualdade entre os sexos, conseguiam vencer uma importante batalha com a descoberta da pílula anticoncepcional. Todos esses movimentos contestavam os valores da sociedade tradicional.

O Brasil mantinha-se distante do radicalismo desses movimentos, mas não deixava de ter sua juventude dourada, que encontrava no movimento estudantil, formado por uma classe esclarecida e politizada, a sua forma de protestar contra a ditadura e defender a liberdade. Vestidos com os ideais da juventude, com toda força e disposição para consertar o mundo, os estudantes, sobretudo os universitários, enfrentavam os militares. Os intelectuais e os artistas, utilizando o poder de alcance da escrita e da música, realizavam protestos embutidos e bem elaborados. Foram censurados, perseguidos, exilados, quando não amargaram o fim nos porões da ditadura.

José Bezerra percebia a onda de mudança e dava graças a Deus de já estar com quase todos os filhos criados. O problema passaria a ser seus netos, o que não deixava de preocupar. Com a rapidez da comunicação, logo, logo as transformações chegariam à sua terra, que, por enquanto, ainda se mantinha inatingível. Quando chegassem, encontrariam um árduo defensor da sociedade tradicional.


Capítulo 59

As manchetes dos jornais e da TV, com presença consolidada nos lares da classe média brasileira, não falavam em outro assunto. O lançamento do foguete Apolo – Saturno 11, levando os astronautas americanos Neil Armstrong, Edwin Aldrin Jr. e Michael Collins, alcançava o ápice da corrida espacial, desencadeada na década de 50. Os russos partiram na frente e por um bom tempo conseguiram manter-se na dianteira dos americanos; mas estes reagiram e, agora, prometiam levar o homem até à Lua e trazê-lo de volta, são e salvo, à Terra.

Graças aos estudos desenvolvidos com os satélites, na década anterior, telespectadores do mundo inteiro poderiam acompanhar, via satélite, pela televisão, o lançamento histórico. Assim que deram início à contagem regressiva, a humanidade encarnou a aceleração dos batimentos cardíacos dos corajosos astronautas e torceu pelo sucesso da missão. Os poucos segundos antes da explosão dos jatos propulsores transformaram-se numa eternidade, mas a visão daquela nave subindo aos céus, levando em seu interior a torcida de toda uma geração, dava a certeza de que o mundo, realmente, estava ficando pequeno para a capacidade de desenvolvimento da raça humana.

Viajando na imensidão cósmica, quatro dias depois, em 20 de julho de 1969, o foguete Apolo 11 aterrissou no satélite natural da Terra. Vista de perto, a Lua revelava uma enormidade de crateras. Vestido adequadamente, o astronauta Neil Armstrong pisou em solo lunar e emocionado pronunciou as palavras que ficaram na História: “É um pequeno passo para um homem, um grande salto para a Humanidade”.

José Bezerra assistiu a tudo entusiasmado, mesmo temeroso pelas transformações sociais; era característica sua colocar-se a par dos episódios marcantes da História. Sabia que aquele passo era grande demais para humanidade, reflexo do desenvolvimento da tecnologia. Acompanhou a volta dos heróis mundiais e se perguntou até onde o homem iria aventurar-se. Ao mesmo tempo, sentia-se diminuto em face dos acontecimentos. Se para ele, a ida do homem à Lua era um feito extraordinário, imaginem a reação dos habitantes rurais, isolados das transformações ao seu redor. Muitos deles nem acreditariam na epopeia.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 11, Capítulo 12, Capítulo 13, Capítulo 14 e Capítulo 15.

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