No Rastro das Águas – Capítulos 62 e 63

(…)

O cargo que assumiu adequava-se muito bem a suas pretensões profissionais. A direção da Acauan não consumia muitas energias, as diretrizes da empresa e as ações a serem executadas estavam previamente determinadas pelos acionistas majoritários. Já passando dos sessenta, José Bezerra adaptou-se bem à nova atividade e pôde dispor de tempo para cuidar de suas fazendas. A Acauan começou a produzir no final de 1970, quando o currais-novense Cortez Pereira tinha acabado de ser eleito indiretamente para o governo do Estado do Rio Grande do Norte.


Capítulo 62

Os noventa milhões de brasileiros vestem a camisa da Seleção Canarinha, esquecem os problemas do país, formam um só coração e dão salvas aos jogadores. O Brasil para e assiste à Copa do Mundo de futebol, realizada no México, entre maio e junho de 1970. As televisões invadem as residências; para quem não dispõe de recursos suficientes para adquirir o moderno meio de comunicação, o rádio portátil faz a serventia, agora em tamanho bem menor do que os antigos à válvula.

Se na recepção das imagens não se identificavam as cores azul e amarela, o mesmo não se podia dizer das vestimentas do povo. A cada vitória da seleção, mais e mais pessoal saiam à rua, portando as cores da Bandeira, de mãos dadas, formando uma corrente pra frente. O país veste-se de um nacionalismo nunca antes presenciado e incentivado pelos detentores do poder.

Os torcedores incorporam-se aos jogadores e passam a atuar no jogo. A Tchecoslováquia sai na frente. Com a potência e a precisão do chute de Rivelino na cobrança de falta, o Brasil reage. Nos dribles desconcertantes de Gerson, a bola é lançada para Pelé, que mata no peito e faz seu primeiro gol na Copa. Jairzinho não deixa por menos: dá um lençol no goleiro e a bola vai cair dentro da rede; os dribles recomeçam e a bola teima em permanecer no gol adversário. A Seleção ultrapassa seu primeiro obstáculo com o placar de 4 x 1.

A Inglaterra, inventora do futebol, é um adversário mais difícil, mas sucumbe ao cruzamento perfeito de Tostão, que lança para Pelé entrega a bola nos pés do artilheiro Jairzinho. A Seleção Canarinha continua seu espetáculo. Num balé regido pelo coro da torcida em terra estrangeira e pela força da corrente patriótica, os craques fazem que vão e desistem, insistem mas invertem o caminho, desconcertando o adversário. Para não revelarem seus segredos, inovam na próxima jogada, mas não deixam de repetir a precisão do lance ao companheiro mais apto a fazer o gol.

Regendo a sinfonia de dribles, passes, cruzamentos, cabeceios, lances e jogadas magistrais, Pelé atua brilhantemente e conquista a majestade. Junto com Jairzinho, formam uma dupla perfeita no ataque. Mas os louros da Seleção não ficam só nos pés desses dois jogadores, pois o conjunto é extraordinário: Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gerson, Rivelino e Tostão protagonizam o espetáculo, treinados por Mario Zagallo.

Os próximos a se renderem à Seleção Canarinha são a Romênia (o Brasil vence por 3 x 2) e o Peru (Brasil vence por 4 x 2). Na semifinal o Brasil enfrenta o Uruguai, numa partida em clima de revanche pela derrota de vinte anos antes, no Maracanã. Os uruguaios saem na frente; recebem o troco pelos pés de Clodoaldo, Jairzinho e Rivelino: Brasil 3 x 1 Uruguai. A Itália será a adversária na final.

No dia 17 de junho, os corações brasileiros unem-se numa corrente de fé. O jogo começa nervoso, as seleções tentam impor seus ritmos, o tapete verde estende-se para os artistas da bola. Num cruzamento de esquerda, Rivelino lança para Pelé, que cabeceia e inaugura o placar; antes do final do primeiro tempo, a Itália empata. O segundo tempo começa com os nervos à flor da pele: o juiz chama os capitães e resfria os ânimos. A Seleção Canarinha encontra o caminho e dá início ao concerto final. Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto encerram a participação de cada ato com a bola no fundo da rede, para coroar definitivamente a conquista da Taça Jules Rimet, derrotando a Itália pelo placar de 4 x 1.

O futebol arte dos brasileiros empolga os torcedores do estádio Azteca. Uma multidão invade o gramado, joga-se sobre os jogadores e arranca-lhes qualquer peça que sirva de lembrança da atuação inesquecível daquela seleção. No Brasil, as gargantas esgotam-se de tanta vibração. Até José Bezerra, um apaixonado por futebol, mas sempre muito comedido, deixa-se dominar pelo clima contagiante da conquista do tricampeonato mundial e bota para fora suas emoções.

Aproveitando a corrente pra frente, o Presidente Médici detona o programa de investimentos para acelerar o crescimento do país, dando início à fase do milagre brasileiro, que vai ser feito através do financiamento do capital estrangeiro.


Capítulo 63

Ao escutarem o barulho do automóvel, José Bezerra e Yvete puseram-se a postos, para receberem os visitantes. Do alto da casa grande, avistavam a cor e o modelo do carro e tentavam descobrir quem seriam os primeiros a chegar. O ano de 1974 trouxera um inverno rigoroso e atípico para a paisagem nordestina. A força das águas derrubou pontes, arrombou açudes, inundou terras nunca antes encharcadas. A Cacimba do Meio resistiu bem, estava enlameada, cheia de atoleiros, mas irradiando verde, enquanto aguardava a família de seu proprietário.

Aproveitando a fartura do inverno e as férias escolares, os filhos e netos de José Bezerra vieram passar uma temporada na fazenda. O sorriso estampado em seu rosto dava as boas vindas, ele estava duplamente feliz: primeiro, pelo excelente inverno; segundo, por conseguir juntar, em suas terras, a família que se espalhava pelo mundo. A casa que permanecia tanto tempo em silêncio, ganhava um movimento intenso, mas sempre com muita ordem.

Desacostumadas à rotina da fazenda, as crianças estranhavam, mas não reclamavam da disciplina. Mesmo com água em abundância, pelo menos naquele ano, o líquido precioso deveria ser poupado. Para escovarem os dentes, dirigiam-se ao alpendre desafogando o fluxo do banheiro; de posse de um pequeno copo de água, tinham que dar conta do recado. Numa mesa separada, faziam as refeições e deliciavam-se com o caldeirão de coalhada que Yvete mandava fazer, sempre com leite fervido, para evitar a brucelose – recomendação da época de estudante o filho agrônomo.

Com tanta gente em casa, para evitar confusão, a fila funcionava para tudo. Tinha fila para tomar banho, fila para andar a cavalo, fila para se servir – sempre após o dono da casa –, fila para lavar os pés antes de dormir. Nos quartos, a criançada adormecia embalada pela conversa noturna do alpendre. Antes de adormecerem, José Bezerra perguntava quem gostaria de ir tomar leite cru no curral; os mais dispostos topavam acordar ao despertar da fazenda: no escuro da madrugada, levavam o copo com açúcar ou chocolate a gosto e deliciavam-se com o leite naturalmente morno; mais dorminhocos, os moradores urbanos só pegavam a tirada da tarde.

Para o paleio noturno, enriquecido com a presença de tantos visitantes, vieram os moradores de sempre, com exceção do fiel escudeiro de José Bezerra. Em seu lugar estava José Martins, casado desde 1970 com Terezinha, filha adotiva de Ana e Antônio Cândido. Este, por sua vez, tinha saído da Cacimba do Meio, mas não do seio da família. Estava administrando a fazenda Macacos, comprada a Janot, por Haroldo e seu pai.

Durante o dia, a criançada não parava. Livre e sem limites da cidade, percorria toda a fazenda, quer fosse no lombo de um animal, quer fosse no passeio de charrete, ou ainda usando as próprias pernas. Tinha muitas descobertas a fazer e tentava ajudar – ou quem sabe atrapalhar – os moradores. Apanhava algodão, juntava o gado, procurava ovos nos ninhos, dava milho às galinhas, brincava de fazer açudes, ensaiava letras na escola, pulava academia, azucrinava o juízo de José Martins, tangia o burro da água, aperreava o gado de cima da parede do curral, temia as vacas paridas, cutucava bosta de gado, procurava evitar castigo.

Com a água renovada pelo inverno, José Bezerra colocava todo mundo na camioneta e seguia em direção ao barulho da sangria. Alguns iam de canoa, mas a embarcação não dava para todos. Para se chegar ao local ideal para banho, deveriam atravessar, com muito cuidado, o sangradouro escorregadiço da barragem. Todo cuidado era pouco e ele sempre avisava que, se perdessem o equilíbrio, caíssem para dentro da água, pois do outro lado as pedras os aguardavam de uma altura mortal. Se a lâmina da água estivesse fraca, abria a porta d’água para garantir um bom banho de cachoeira; era uma manhã de piquenique.

No dia de São João, a casa preparava-se para a festa noturna. A fogueira era feita bem no centro do terreiro. A cozinha não parava; ganhava reforços para dar conta da preparação das comidas juninas; menino não podia entrançar, pois corria o risco de sofrer queimaduras e só servia para atrapalhar. Melhor ajudar com os objetos da decoração. No final da tarde, o alpendre estava desocupado para o arrasta-pé; as bandeirinhas e os balões de papel pendurados alegravam o ambiente. Um bar improvisado distribuiria bebidas aos presentes e da janela da sala de jantar os convidados poderiam receber os quitutes.

A noite chegou, trazendo os moradores da Cacimba do Meio e das outras fazendas de José Bezerra, que utilizaram o transporte providenciado por ele. A festa de São João é especial para o sertanejo e deve ser comemorada com muita alegria e muita dança. Ele gostava de proporcionar uma comemoração especial para aqueles que passavam o ano labutando em suas terras. Mesmo com a transferência constante da população rural para as cidades, as atividades econômicas desenvolvidas em suas fazendas garantiam o sustento de muitas famílias. O alpendre e o terreiro ficavam cheios de gente; seus familiares misturavam-se aos convidados, conversando, soltando fogos de artifício e dançando animadamente.

A zabumba fazia a marcação, o triângulo tilintava e o pandeiro agitava-se, enquanto Antônio Né, o sanfoneiro, tirava as cantigas. Se o xote esfriava, algum gaiato soltava um potente mijão no meio do forró, garantindo a animação. Se os mais acanhados necessitavam de um empurrão para entrar na dança, alguém apagava a luz, providência logo desfeita pelo dono da festa: sua casa era lugar de respeito. E foi pensando na falta deste, que ele retirou um convidado atrevido que veio para o baile portando uma arma branca, pois não admitia tamanha desfeita em sua casa. O incidente foi logo contornado e esquecido quando um enorme balão subiu aos céus, iluminando a noite de São João.

A festa rendeu até tarde da noite. O dia amanheceu de ressaca. Para o desavisado e pequeno Marcelo, seu neto, filho de Eleika, correr solto no terreiro era uma alegria, somente esbarrada nas cinzas da fogueira que escondiam brasas ardentes por baixo. Sem possuir o dom de passar sobre as brasas sem se queimar, as solas de seus pés viraram uma bolha só: nem a pomada passada, nem o balanço da rede, amenizaram a sua dor. A tristeza tomou conta de seus avós, mas a natureza veio aplacar a aflição.

Ainda no mês de junho, as torneiras do céu pareciam não saber mais estancar. O céu preparou-se todo e a chuva começou a desfiar. Em pouco tempo, atendeu à súplica dos relâmpagos e trovões e engrossou seus pingos. A turma toda aproveitou o banho nas biqueiras. Os mais velhos, relembrando a época de infância; os mais novos, descobrindo novos prazeres.

Vendo sua família feliz, José Bezerra ficou pensativo. Na sua idade, não se permitia mais sonhar, mas relembrar sonhos vividos. À sua frente, os novos sonhadores, frutos de sua semente. Esperava que eles atingissem seus objetivos, para tanto, não calava nunca, estava sempre recomendando, aconselhando, mesmo que não quisessem ouvi-lo. Teve uma excelente formação e uma ótima educação e procurava transmiti-las, esperando que seus descendentes soubessem honrar seus ensinamentos.

Retornou à realidade, quando vieram avisar-lhe que a barragem corria risco de arrombamento; mas ela fora bem construída e aguentou firme. O volume da sangria permitiu que o rio retomasse seu antigo leito, correndo de barreira a barreira, criando um problema para os carros que estavam na casa grande. A fazenda estava ilhada; de um lado, os atoleiros não deixavam os carros transitarem; do outro, o rio interrompia a passagem e o jeito que tinha era esperar as águas baixarem.

Mas chegou o dia do retorno a Natal. Os carros deveriam passar a qualquer custo pelo rio. Foi montada uma verdadeira operação de guerra, com os poucos recursos existentes. A profundidade nem era tanta, mas a correnteza estava forte. Juntaram os homens da fazenda, trouxeram cordas e deram início à travessia. Um a um, os carros foram atravessando, molhando os distribuidores, engasgando afogados. As crianças foram atravessadas de charrete e no lombo dos animais, mas, ao final, tudo deu certo. Mesmo água em excesso era melhor que estiagem.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 11, Capítulo 12, Capítulo 13, Capítulo 14 e Capítulo 15.

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