No Rastro das Águas – Capítulos 64 e 65

(…)

Mas chegou o dia do retorno a Natal. Os carros deveriam passar a qualquer custo pelo rio. Foi montada uma verdadeira operação de guerra, com os poucos recursos existentes. A profundidade nem era tanta, mas a correnteza estava forte. Juntaram os homens da fazenda, trouxeram cordas e deram início à travessia. Um a um, os carros foram atravessando, molhando os distribuidores, engasgando afogados. As crianças foram atravessadas de charrete e no lombo dos animais, mas, ao final, tudo deu certo. Mesmo água em excesso era melhor que estiagem.


Capítulo 64

Lá vinha Yvete de novo com suas propostas de viagem. Ela agora programava um roteiro mais ousado: seriam quarenta e dois dias numa excursão, dando a volta ao mundo. Naquela idade, seu marido nem sabia se valia a pena, mas como sempre colocava mil dificuldades em sair e terminava concordando e adorando o passeio, achou melhor aceitar de uma vez. Afinal, de que valia tanto esforço na vida, se não pudesse aproveitar a velhice? O inverno de 1977 estava assegurado; poderia viajar tranquilo e, a pretexto de manter intercâmbio com outras minas produtoras de scheelita, a mineração Acauan resolveu proporcionar-lhe esta aventura – na sua idade, poderia ser considerada como tal –, diante da diversidade de países que conheceria em curto espaço de tempo.

Em julho, embarcaram nessa nova aventura. Assim como em 1954, quando poucos conheciam a Europa, o casal colocou-se à frente de outros tantos de sua terra. Era a face pioneira que teimava em transparecer. Deixaram o medo de lado e trocaram o balanço de navio de anos antes pela rapidez do avião, agora bem mais seguro. Percorreram mais de cinquenta e seis mil quilômetros, em aproximadamente setenta horas de voo. O mundo realmente caminhava a passos largos. Em menos tempo do que a viagem a cavalo que seu pai percorria, no início do século XX, para vencer os centos e cinquenta quilômetros que separavam Currais Novos de Macaíba, José Bezerra e Yvete contornaram o globo terrestre, utilizando o progresso dos meios de transporte.

O roteiro incluiu México, Costa Oeste americana, Havaí, Japão, Filipinas, Hong Kong – ainda sob domínio inglês –, Tailândia, Índia, Irã – do tempo do Xá Reza Pahlevi –, Turquia, Grécia, Espanha, Portugal e, finalmente, o retorno ao Brasil. Com saudades de casa, eles desfrutaram o conforto do lar e a satisfação de estarem perto dos seus entes queridos. O terraço da casa da avenida Hermes da Fonseca foi tomado por filhos, filhas, genros, noras, netos e netas para ouvirem o relato de Yvete, que sempre anotava todos os detalhes da viagem em seu diário.

Como visitaram vários países do Oriente, puderam constatar a diversidade de costumes, a variedade geográfica, a moderna tecnologia, contrastando com a preservação de valores milenares, as diferentes religiões, as diversas formas de viver e de morar que imperavam no mundo. O contato com essas civilizações levou a constatações e indagações, de quanto é diversificado o povoamento deste planeta e até quando a identidade de cada povo estará preservada. Por onde passaram, encontraram pessoas das mais diferentes localidades percorrendo nações desconhecidas. Com o intercâmbio entre os povos, o encurtamento das distâncias e o avanço das comunicações e da tecnologia, em alguns anos a interação entre os povos será uma constante no globo terrestre. Estavam nos primórdios da globalização, palavra ainda inexistente no dicionário da época.

Admirando a capacidade de valorização dos costumes de certos países orientais e mesmo sem perceber que a globalização estava a caminho, José Bezerra retornou da viagem com a certeza de que tinha a obrigação de preservar os valores sertanejos, se não quisesse correr o risco de perder sua identidade. Era uma nova perspectiva de ver o mundo.

A viagem, como sempre, tinha sido muito proveitosa. Tanto assim que, quatro anos mais tarde, eles repetiram a dose, visitando a China, a Austrália e a Nova Zelândia. Este sertanejo era mesmo incansável na busca de desbravar novos horizontes; com seu jeito manso, percorreu longos caminhos, impulsionado por sua esposa.


Capítulo 65

As ruas estavam, novamente, repletas de eleitores. Os trios elétricos, com a parafernália eletrônica, animavam as passeatas em Natal. O clima de disputa acirrada, presente em antigas campanhas, voltou a dominar o ambiente político do Estado.

O povo, entusiasmado, saiu à rua para comemorar. Depois de longos anos, conquistava o poder de fazer valer a sua vontade e escolher seus candidatos, ainda que fosse apenas em nível estadual. As eleições diretas para escolha dos governadores, em 1982, marcaram uma etapa vencida na reabertura política do país.

Com a chegada do General Ernesto Geisel à Presidência da República, em março de 1974, iniciava-se o lento e gradual processo de abertura política, iniciado com a revogação do poderoso AI-5. Os militares já não suportavam tanta pressão e o sacrifício de tantos em vão. Seu sucessor, o General João Batista de Figueiredo, cumpre sua promessa e dá prosseguimento à iniciativa de seu antecessor rumo à redemocratização do país. Concede a anistia política, restabelece o pluripartidarismo, convoca eleições diretas para escolha dos governadores. Os exilados retornam à pátria amada, os cassados reconquistam o direito ao voto, o Brasil recomeça a respirar liberdade. Fundam-se novos partidos e os antigos ressurgem com siglas diferentes. O PDS substitui a ARENA, o MDB transforma-se em PMDB, o PTB retorna ao cenário político, o PDT é fundado por Leonel Brizola e o PT representa a força dos trabalhadores.

José Bezerra aplaude o processo de abertura, mesmo tendo apoiado a Revolução de 1964, por achar que a situação política da época requeria medidas enérgicas para que o país não caísse nas mãos dos comunistas; na verdade, nunca deixara de ser simpatizante do regime democrático. Sua carreira política que o diga: foi o segundo prefeito eleito por voto direto em seu município e elegeu-se deputado e suplente de senador através do sufrágio universal.

No Rio Grande do Norte, a sucessão foi desencadeada relembrando a disputa de 1960. Aluízio Alves, que fora cassado na Revolução, político experiente, saiu candidato pelo PMDB. O ex-Governador biônico e ex-Deputado Federal pela UDN, Tarcísio Maia, que ocupou a governadoria no período de 1975-79, consegue indicar o candidato do PDS para enfrentar a força aluizista. O escolhido é seu filho, José Agripino, que desenvolvera um dinâmico trabalho à frente da Prefeitura Municipal de Natal.

Após um jejum eleitoral, a campanha desperta no povo o antigo sabor da disputa; a nova geração, que nunca tinha participado de uma eleição, se empolga ao ritmo dos trios elétricos. Do lado do ex-Governador Aluízio Alves, os galhos verdes ressurgem, simbolizando a esperança; do lado de José Agripino, a força da juventude prevalece. José Bezerra apoia o filho do seu companheiro de UDN. A disputa é voto a voto, mas o PDS consegue eleger seu governador. A festa da vitória confirma a força da vontade popular.

O entusiasmo com as campanhas estaduais dá origem ao movimento das Diretas Já, em 1984. O povo sai às ruas, pedindo eleição direta também para presidente, mas o Congresso adia este sonho para 1989. Tancredo Neves é eleito indiretamente para o período de 1985-90, adoece e não chega a tomar posse; seu Vice, José Sarney, assume a Presidência.

O Brasil reza pelo restabelecimento de seu Presidente, mas sua saúde não resiste e ele vem a falecer. Emocionado, o povo vai dar seu último adeus. A eleição de Tancredo, ex-Ministro de Getúlio Vargas e ex-Primeiro Ministro do Brasil, representou o fim da ditadura e dos anos de opressão; a despedida dos brasileiros foi um gesto de decepção e desalento. Decepção, por não verem aquele que tanto lutara pela abertura política tomar conta dos destinos da nação; desalento, por temerem que a sua morte colocasse tudo a perder. Os mais novos nem se dão conta do momento histórico, mas são tomados pela comoção nacional e choram pelo novo herói nacional; os mais velhos, como José Bezerra, temem que situações passadas possam repetir-se. Felizmente, cansado de tantos golpes, o país preserva a ordem constitucional e mantém o vice no cargo, dando início à Nova República.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 11, Capítulo 12, Capítulo 13, Capítulo 14 e Capítulo 15.

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