No Rastro das Águas – Capítulos 66 e 67

(…)

O Brasil reza pelo restabelecimento de seu Presidente, mas sua saúde não resiste e ele vem a falecer. Emocionado, o povo vai dar seu último adeus. A eleição de Tancredo, ex-Ministro de Getúlio Vargas e ex-Primeiro Ministro do Brasil, representou o fim da ditadura e dos anos de opressão; a despedida dos brasileiros foi um gesto de decepção e desalento. Decepção, por não verem aquele que tanto lutara pela abertura política tomar conta dos destinos da nação; desalento, por temerem que a sua morte colocasse tudo a perder. Os mais novos nem se dão conta do momento histórico, mas são tomados pela comoção nacional e choram pelo novo herói nacional; os mais velhos, como José Bezerra, temem que situações passadas possam repetir-se. Felizmente, cansado de tantos golpes, o país preserva a ordem constitucional e mantém o vice no cargo, dando início à Nova República.


Capítulo 66

O conjunto checava os últimos detalhes. Os ponteiros do relógio determinavam o início da festa; assim que se encontrassem, a música explodiria junto com os fogos de artifício. O réveillon na casa de José e Yvete marcava o fim dos felizes dias de 1984 e o despertar de 1985. A espaçosa casa era perfeita para receber os muitos amigos do casal e de seus filhos, para os quais estava sempre aberta. O amplo terraço, a piscina e os jardins formavam a área ideal para a realização da comemoração.

As pessoas foram chegando e o clima foi esquentando; deixavam para trás as caduquices do ano velho e desejavam grandes realizações no ano que começava. Vendo a alegria estampada nas fisionomias, José Bezerra e Yvete estavam felizes da vida. Gostavam de conquistar amizades e cultivá-las e a prova disso estava bem ali, numa pequena amostra do universo de amigos espalhados em diversos lugares.

A festa, apesar de muito animada, tinha um certo clima de despedida para os proprietários da casa. Aquele terraço presenciara festas memoráveis, mas há algum tempo que eles vinham pensando em mudar-se para um edifício. Os filhos com os caminhos tomados, a cidade crescendo verticalmente, a insegurança chegando, era melhor optar por espaço menor. Como no tempo dos cangaceiros, quando os donos das propriedades procuravam construir suas casas no alto da fazenda para proteger-se, estariam mais seguros num alto e prático apartamento.

Sem os ocupantes de antes, a casa tornou-se grande demais. Os diversos quartos permaneciam vazios a maior parte do tempo, só ocupados completamente quando Dulcinha, que morava no Rio de Janeiro, ou Zorilda e algum de seus filhos visitavam a cidade. Aliás, Luizito, apelido do neto primogênito, trocara Buenos Aires por Natal e ocupava um dos quartos. José Bezerra Júnior, o filho caçula, casara em 1980 e continuava a viver com seus pais, juntamente com sua esposa Silvana e os filhos, mas eles não tardariam a tomar casa. Mesmo assim, ainda havia espaço sobrando. Resolveram, então, entrar num condomínio fechado para construção do edifício Vila Flor.

Árduo combatente contra a degradação da moral e dos bons costumes, na cabeça de José Bezerra uma ideia não estava descartada. Com os filhos criados, talvez fosse melhor ele e Yvete retornarem às origens e transferirem-se para Currais Novos, que ainda preservava a quietude de cidade de interior do Nordeste. Ela contra-argumentou: era melhor continuarem na Capital. Eles estavam ficando velhos e suas condições de saúde já requeriam maiores cuidados não encontrados na cidade pequena. Para matar as saudades do Seridó, eles poderiam ir e vir, a qualquer momento, mas era melhor estar perto dos filhos para qualquer emergência.

Ele aceitou seus argumentos; sentia que seu corpo, velho escudo de lutas, começava a dar-lhe sinais de alerta. O diabetes atacou-lhe a vista e ele precisava fazer uma cirurgia de catarata; o coração, que embutira tantas emoções, batia descompassado, e alguma células, silenciosamente, começavam a degenerar-se. Mesmo assim, graças à robustez sertaneja, ainda assistira à babugem brotando em muitas primeiras chuvas.


Capítulo 67

Yvete dava os últimos retoques na frente do espelho, repetindo os mesmos gestos de cinquenta anos atrás, na casa de sua tia Vanju. A silhueta de outrora, fina e elegante, adquirira contornos de sabedoria. Ao invés do medo do desconhecido, aprendera a conhecer cada palmo, cada gesto, cada olhar, cada reação de seu companheiro. À insegurança quanto ao futuro, sobreveio a maturidade. Olhava para o passado e via o longo caminho partilhado de mútua compreensão.

Divergiam no comportamento: ela com seu temperamento explosivo, ele com seu espírito conciliador. Tiveram brigas, choques de ideias, maus humores, seguidos de silêncios, arrependimentos, conciliações. Também não podia ser diferente. De temperamentos fortes, cada um tinha sua individualidade a preservar, e para alcançar a harmonia completa, suas partes deveriam ser somadas, nunca divididas. O casamento era construído nessa base, um puxava daqui, o outro cedia dali, criando espaço para formação de um todo.

Pelo reflexo do espelho, ela podia vislumbrar seu esposo, companheiro, amigo e amante, esperando-a, pacientemente. Yvete perdera o pai dois anos antes, mas tinha em José um porto seguro. Sentado na beira da cama, ele admirava-a.

Como as plantas da região, que estendem suas raízes à procura da água, ele foi buscar uma esposa longe do Seridó. Em princípio, não tinha certeza de sua escolha; as mulheres de sua terra tinham fibra, eram fortes; tanto assim, que muitas vezes conseguiam fazer prevalecer o sobrenome da matriarca em meio ao patriarcado imperante. Trazer alguém de fora desse contexto, poderia significar uma degeneração das sementes. Temia também pelo choque de comportamentos. O avanço da Zona da Mata esbarraria no tradicionalismo sertanejo.

Com o passar dos anos, suas dúvidas dissiparam-se. A fortaleza de sua esposa demonstrava que nem só o Seridó possuía mulheres corajosas. Destemida, nunca se esquivou de expor suas ideias. A autenticidade do seridoense também habitava naquela representante da zona canavieira. Entre eles não havia dissimulação ou arrodeios; expressavam sempre suas opiniões, mesmo que divergentes.

Quando de sua adaptação aos padrões seridoenses, ela não abriu mão de sua individualidade. Quando poucas dirigiam, há muito que ela estava ao volante; roupas da moda, consideradas avançadas para os padrões locais, ela comprava-as em Natal para usá-las em Currais Novos sem, contudo, ser ostensiva; participação das mulheres nas atividades políticas, ela com certeza estaria incluída. Aos poucos, conseguiu conquistar o seu espaço, sem muito alarde, sem entrar diretamente em choque com seu marido, sem abandonar suas convicções, embora preservando valores tradicionais importantes.

Intimamente, José Bezerra percebia sua força, mas não podia deixar transparecer, sob o risco de Yvete dominar a situação. Admirava sua capacidade de acompanhar o ritmo das mudanças, muito além da sua própria. Quando muitas mulheres de sua época se mantinham alheias ao mundo dos negócios, ela adquiria conhecimento de causa e eles podiam planejar suas finanças. Econômica, muito prática, segura, ela adequava-se bem ao seu estilo; tanto assim que ele, gradativamente, passara às suas mãos o controle de todas as economias arrecadadas na vida.

Observando-a, orgulhava-se de sua fibra. Dispondo da mesma fertilidade das terras do Seridó, aquele corpo, amadurecido em conjunto com o seu, tinha lhe dado sete filhos. A maternidade fazia parte de sua vocação e soubera desempenhar muito bem o seu papel. A família cresceu, nasceram os netos e não tardariam a aparecer os bisnetos.

Lá embaixo, a música começou a tocar. A casa do casal José Bezerra e Yvete estava toda preparada para receber os familiares e amigos de meio século. Era a última grande festa que eles patrocinariam na avenida Hermes da Fonseca, antes da troca de endereço. Os convidados já deveriam estar chegando, eles não se importaram. Inebriados no clima de cumplicidade, prolongaram os momentos tantas vezes compartilhados na intimidade daquelas quatro paredes; afinal, não era todo dia que um casal completava bodas de ouro. Deixassem a música tocar mais um pouco, os convidados podiam esperar.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 11, Capítulo 12, Capítulo 13, Capítulo 14 e Capítulo 15.

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