No Rastro das Águas – Capítulos 68 e 69

(…)

Lá embaixo, a música começou a tocar. A casa do casal José Bezerra e Yvete estava toda preparada para receber os familiares e amigos de meio século. Era a última grande festa que eles patrocinariam na avenida Hermes da Fonseca, antes da troca de endereço. Os convidados já deveriam estar chegando, eles não se importaram. Inebriados no clima de cumplicidade, prolongaram os momentos tantas vezes compartilhados na intimidade daquelas quatro paredes; afinal, não era todo dia que um casal completava bodas de ouro. Deixassem a música tocar mais um pouco, os convidados podiam esperar.


Capítulo 68

De longe pôde ouvir aquele som familiar que, aos poucos, foi tomando consistência. Os latidos dos cachorros, amigos inseparáveis de seus donos, o chocalho dos fujões e os mugidos de excitação eram abafados pela garganta do vaqueiro, entoando um canto improvisado, com predominância de vogais.

Acostumado a ouvir o aboio desde criança, José Bezerra levantou-se da rede, colocou o chapéu de palinha e dirigiu-se aos currais. Antes, porém, agarrou sua vara de ferrão, com tanto boi junto era melhor estar prevenido. Chegou antes da boiada, chamou alguns vaqueiros que tinham permanecido na sede da fazenda, abriram as porteiras do curral e colocaram-se a postos. Já dispondo de energia na fazenda, a máquina forrageira começou a zoar, tinha que cortar muito capim para alimentar o gado cansado e faminto, que vinha de pontos distantes.

Pouco depois, a poeira denunciou a chegada tão esperada. À frente, José Martins; atrás, tangendo o gado, vinham os outros vaqueiros. Junto à porteira, um vaqueiro aboiava mansamente, procurando acalmar os touros e bois, convidando-os a entrarem no curral. Mesmo com a visão um pouco comprometida, José Bezerra ficou satisfeito com o resultado. Tinha dado recomendações expressas a seus homens: juntassem os maiores e os mais pesados bois, para não fazerem feio junto à boiada de seu amigo Elísio Galvão.

Acostumados a protagonizarem saudáveis disputas, Elísio e José Bezerra mantinham a amizade de longas datas. Quando jovens, disputaram as melhores carreiras; proprietários de terras, seus vaqueiros assumiram as derrubadas. Na véspera de uma das vaquejadas em Santana do Matos, Elísio embebedou os homens de José Bezerra; no dia seguinte, conhecendo seu amigo, tratou de prevenir seus vaqueiros, para não tomarem nada oferecido por José Bezerra, que certamente iria à desforra. Notando que os vaqueiros o evitam, José Bezerra mudou sua estratégia, aproximando-se de Elísio, ensaiando conversa, regada com muita bebida. No final da prosa, ele, que enrolara o tempo todo, conseguiu vingar-se não nos vaqueiros, mas no próprio Elísio, que saíra mais pra lá do que pra cá.

Com os cabelos brancos, os dois continuavam a “rivalidade”, agora à custa da boiada mais pesada. Como a vaquejada da padroeira não tinha fins lucrativos e o dinheiro arrecadado era destinado à Santana, eles forneciam os bois para corrida. Naquele ano a disputa seria acirrada. José Bezerra garantiu sua participação: podia “balançar” a boiada que o nível era um só, queria ver se ainda existiam bons derrubadores em seu município.

Sua satisfação também tinha outro motivo: pela amostra que tinha no curral, podia respirar aliviado. No período de 1979 a 1983, o Estado foi assolado por uma grande seca, que dizimou o rebanho bovino. No ano anterior a chuva voltou a cair, e agora, em 1985, São Pedro abriu as torneiras do céu, provocando enchentes no Rio Grande do Norte; pelo menos o chão estava molhado, fazendo brotar o alimento para o gado, que demonstrava estar recuperado do longo período de estiagem.

Depois que os bois foram acomodados, a meninada pôde satisfazer a curiosidade e trepou-se nas paredes do curral, assistindo às brigas constantes dos touros mais valentes. Com o entardecer, eles permaneceriam ali até a madrugada, quando seriam levados para o Parque Sílvio Bezerra de Melo, onde o público assistiria a uma das maiores vaquejadas de Currais Novos, garantindo a fama que fez dessa cidade uma das maiores promotoras do esporte favorito do vaqueiro, honrando sua vocação desde o tempo das antigas apartações.

Vendo os vaqueiros reunidos, José Bezerra foi sendo tomado por um estado de melancolia, lembrando-se de Antônio Cândido, seu fiel escudeiro, que não estava mais entre eles; morrera em 04 de maio de 1977. Talvez tivesse sido melhor assim; bom proseador, falador da vida alheia, Antônio Cândido não teria tanta gente assim de quem falar, pois o sertão esvaziava-se, as pessoas fugiam em busca de novas oportunidades, deslocavam-se para as cidades grandes.

Em Currais Novos, a scheelita passava momentos de crise, sua cotação vinha caindo continuamente no mercado internacional. Com a diminuição das guerras travadas nas diversas partes do globo e com o arrefecimento dos ânimos dos países envolvidos na Guerra Fria, a sua demanda reduzia-se, provocando a queda dos preços. A China também entrara no mercado, com um preço mais baixo. Era triste constatar que o fim da morte de tantos guerreiros significa o desemprego de tantos pais de família. O mundo era mesmo insensato.

Para completar, uma nova praga ameaçava o algodão desde o ano anterior. O bicudo instalava-se no Rio Grande do Norte, alimentando-se do algodoal, reduzindo sua produtividade, inviabilizando sua produção. O combate à praga era caro demais, o preço dos insumos era superior ao valor arrecadado com a produção. Era o domínio da indústria sobre as atividades rurais. O bicudo não destruirá apenas o algodoeiro, desmantelará todo um sistema secular de relações de trabalho.

O algodão deixará de ser produzido no Seridó, o agricultor terá que procurar outra forma de sobreviver. A pecuária não necessita de tantos braços quanto a agricultura; à mão-de-obra excedente só restará uma saída: suportar o calor do asfalto de estradas desconhecidas em busca de novos mercados de trabalho. Desqualificada, permanecerá na periferia dos grandes centros urbanos, vivendo de subemprego. Os poucos que ficaram no campo, terão que produzir seu próprio alimento, sem a renda do algodão, ou adquiri-los com a moeda que circulará com mais frequência, incrementada com a chegada das aposentadorias rurais.

José Bezerra tentava incorporar a dureza das pedras da região, criando um escudo para protegê-lo dos tempos difíceis, mas seu coração, amolecido pelo tempo, não sabia mais endurecer. Ele sofria com as transformações por que passava a sua terra. O novo quadro era desconhecido para ele. Vivera maus e bons momentos no Seridó, suportando a seca impiedosa e alegrando-se com os revigorantes invernos, mas nada comparava-se àquela nova situação. Sua tristeza só não era maior, porque ainda podia criar umas boas vacas de leite e apreciar o gado afinando o pelo. Para os que permaneceram em Currais Novos, a festa de Santana continuava a manter seu brilho de sempre, mesmo com grande parte de seus filhos ausente.


Capítulo 69

O ano terminou tão bem para José Bezerra. Por causa do diabetes, a cirurgia de catarata não teve o sucesso esperado e a visão de um olho ficou comprometida. Ele ainda apelou, sem sucesso, para a medicina carioca. Desanimado, seguiu para os terraços de Muriú. Junto ao mar, estaria reconfortado. Nada melhor para lhe alegrar do que a imensidão do oceano e o espírito do veraneio. A sensação que ele tinha, quando chegava à praia, era de relaxamento, de liberdade, de despreocupação com os ponteiros do relógio, de interação com a comunidade e com os amigos veranistas.

Passaram-se os anos, a beleza da praia atraiu novos veranistas, novas casas foram sendo construídas, seguindo o contorno do mar. Até José Bezerra mudou o seu pouso. No início, veraneava na casa do sogro, que depois, em 1947, foi derrubada para dar lugar a uma mais confortável. Posteriormente, em 1963, juntamente com o amigo Francisco Seráfico Dantas, compraram as duas casas de Eider Varela, com o trapiche à frente, servindo de ancoradouro para os barcos. O mar foi recuando e o trapiche perdeu a serventia, virou marco e palco de animadas serenatas. A praia continuava a sofrer modificações; Boi-Choco e Cafuringa ganharam novos vizinhos. Surgiram o Porão, na direção de Barra de Maxaranguape e no sentido oposto, Porto-Mirim, com sua beleza primitiva, ganhou habitantes em trânsito para desfrutarem da bela paisagem.

Com as casas coladas umas às outras, seus moradores transitavam por seus terraços sem pedir licença, pois tinham liberdade para tanto. Os mais antigos integravam-se como uma grande família, vivendo dias de total descontração. Até o caminhar descalço, sentindo a energia do chão, encarnava o espírito de liberdade. Só um detalhe era sentido: se nos dias quentes de verão, refrescados pela brisa marinha, os veranistas compartilhavam uma grande amizade, quando retornavam a Natal permaneciam distantes e, muitas vezes, só se encontrariam novamente no final do ano, junto ao mar.

Para aproveitar esse momento de confraternização, José Bezerra, mesmo sem a segurança de uma completa visão, percorria os terraços de José Venício, Chico Seráfico, Laércio Bezerra, terminando na casa de Dr. João Maria Furtado, onde, além de bater papo com os amigos, teimava em jogar seu carteado. Vivenciava as emoções do pano verde e recordava os companheiros ausentes, mas que permaneciam na memória. Os mais novos substituindo-os, para garantir a formação da mesa. Manoel Pereira, Betinho Dantas, Paulo Eduardo, Dr. João Maria, Haroldo, Francisco das Chagas foram hábeis jogadores de Copas, que permaneciam entretidos até altas horas da noite.

O tremular das sombras dos candeeiros, há muito que tinha sido apagado. Os antigos jogadores, que aprimoravam a visão, adaptando-a à pouca luminosidade das lâmpadas a gás, já dispunham de energia elétrica desde a década de 70 quando, no governo de Cortez Pereira, Frei Damião veio fazer a inauguração e trazer bênçãos e luz para o povo daquela localidade.

Quando os olhos começavam a arder e o cansaço chegava, os jogadores retornavam para suas casas. No dia seguinte, os pontos continuariam a acumular-se no livro conta corrente e as apostas só eram acertadas nos últimos dias do veraneio.

Ao chegar em casa, o avô cuidadoso checava se todos já estavam acomodados. Com tantas moças e rapazes sob sua responsabilidade, num mundo que ele nem ao menos compreendia, era melhor estar atento e recomendar o horário de recolhimento. Yvete retrucava: ele já estava velho demais para preocupar-se; deixasse os meninos à vontade, pois eles estavam de férias e tinham recebido as recomendações de seus pais. A maneira de educar dos avós estava ultrapassada. Ele relaxava a guarda, mas não deixava de impor algumas regras.

Não admitia suas netas transitando cobertas apenas por um minúsculo biquíni, nem os meninos os meninos sentados à mesa sem camisa; aquilo era falta de pudor e de respeito. Ele não se acostumava ao moderno vestuário. Lembrava o tempo em que as mulheres andavam bem vestidas, trajando roupas elegantes, expondo o mínimo possível de seus belos corpos. Agora, tinham perdido a vergonha e expunham-se sem o menor recato. Os homens, por sua vez, andavam de peito nu, vestindo ínfimos calções. Era o cúmulo da falta de respeito, na ótica daquele sertanejo, acostumado numa região em que os homens não ousavam receber quem quer que seja, trajando apenas a parte de baixo do vestuário.

Para ele, o tórax exposto, só nas horas do banho de mar, que ele continuava a apreciar, bem cedinho ou no final da tarde, quando os raios solares não provocavam danos à pele. Sua idade não permitia mais excessos. Mas a um prazer ela ainda se permitia: percorrer de bugre pela beira-mar, as praias do litoral vizinho. Era uma delícia descobrir trilhas selvagens, lagoas isoladas, praias virgens, dunas deslizantes, multiplicando os percursos feitos no bando desconfortável dos antigos jipes, que chegaram junto com a Segunda Guerra Mundial. Os novos veículos apropriados à areia eram bem mais confortáveis, mas tinham que ser dirigidos por pessoas acostumadas à areia fofa e atentas ao perigo dos maceiós, pequenos rios que cortavam a areia em direção ao mar, formando verdadeiras armadilhas para aventureiros imprudentes. Nesses passeios, cheios de aventura, José Bezerra relembrava seu espírito desbravador. Na volta para casa, ansiava por um merecido descanso, depois de um dia estafante.

Um dos poucos costumes semelhantes na praia e no sertão era o balanço de sua rede para recuperar as energias do corpo cansado da luta silenciosa que travava internamente. À tardinha, mais um momento de paz, nada mais relaxante do que acompanhar a chegada das jangadas, depois de dois dias ao mar. Mesmo com a chegada dos barcos a motor, que levavam e traziam as armadilhas para a pesca da lagosta, a tradição do pescador mantinha-se na branca vela impulsionada pelo vento ou na sua habilidade com a zinga. O gosto de peixe fresco continuava a frequentar sua casa.

O dia findava-se nas horas tristes do pôr-do-sol, quando o crepúsculo encobria a beleza infinita do mar, fazendo surgir a escuridão, aplacada pela beleza da lua sobressaindo às estrelas. José Bezerra não gostava daquela hora; sua alegria era estar em contato com a água, fosse na correnteza dos rios cheios dos invernos sertanejos ou nos deliciosos banhos nas sangrias, fosse ante a ilusão de dispor da imensidão do oceano. Para aquele que vivia no rastro das águas, a noite significava privar-se da visão infinita do mar; mas reconfortava-se, pois sua audição e seu olfato se tornavam mais apurados ao barulho das ondas e ao cheiro da maresia. Dormiria tranquilo, aguardando muitos outros verões.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 16, Capítulo 17, Capítulo 18, Capítulo 19 e Capítulo 20.

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