No Rastro das Águas – Prefácio, Nota da Autora e Agradecimento

PREFÁCIO

Diógenes da Cunha Lima

Mais que história pessoal, familiar, biográfica, é este um livro etnográfico, reconstitui práticas de uma das regiões culturalmente mais ricas do país. O Seridó é uma civilização solidária. As características comuns da sociedade seridoense, em seu conjunto, tornam o seu povo único. Os fenômenos sociais religiosos (Santana, a Padroeira maior), os fenômenos estéticos (as belas moradias, cores, flores e animais saídos das mãos das artistas bordadeiras), o melhor artesanato de alimentos (queijos, manteiga, doces, massas), o fenômeno técnico de aproveitamento do solo seco, das vazantes e, sobretudo, as condições morais fortes do seridoense, limpo e corajoso.

É nesse cenário sedutor que vivem homens como José Bezerra de Araújo. “Dá-me a geografia de um povo que te darei sua história”, ensina Hërder. O homem do Seridó tem características de tungstênio, é duro e irredutível. O Coronel José Bezerra da Aba da Serra, avô do retratado, foi revelado a mim por um cantador popular:

“Você conhece por certo

Zé Bezerra da Cauã

Que faz chocalho de cera

Com um badalo de lã,

Que toca de madrugada

Pra se ouvir de manhã?”

A autora tem a consciência histórica. O justo equilíbrio na visão dos fatos sociais que ganham nitidez com sua expressão. Situa o seu personagem em Currais Novos em mudança, no Seridó e em sua época no mundo. Consegue unir, com felicidade, a história social e a tradição, com retratos admiráveis de habitantes do Rio Grande do Norte. Sabemos que muitas vezes é o Nordeste apequenado por sua pobreza física, aqui é engrandecido por sua força moral.

Maria Elza Bezerra Cirne, Elzinha na intimidade, consegue a façanha intelectual de reconstituir a sua gente, com linguagem carregada de ótimas expressões locais e mostra a harmonia da vida material impulsionada pela virtude da vontade.

No Rastro da Águas nos faz lembrar, com Gilberto Freyre, que a água é feminina. Escrevendo, a autora nos traz água fertilizante e está possuída do mais seridoense dos sóis.

O seridoense não se muda. Carrega, para onde for, a sua região a tiracolo. Onde estiver, acha sempre poucas as sombras, procura sombra para se abrigar de insolação. Mesmo de noite…

Do ponto de vista literário, esta obra, também gostosamente romanceada, não é promessa, mas uma antecipação. Este livro é um convite a que se estude mais e melhor o nosso Rio Grande do Norte. Elzinha tem talento, é inteligente por herança.

NOTA DA AUTORA

Atrás da porta lateral da casa grande da Cacimba do Meio, ficavam as varas de ferrão de meu avô. Quando crianças, seus netos e netas costumavam brincar com tais instrumentos. Ele não se importava; pelo contrário, talvez até os estimulasse. Quem sabe assim eles tomariam gosto pela pecuária! Em meio a tantos, apenas uma era mantida longe do alcance das crianças, guardado com zelo especial: era a bengala-cajado de Tomás de Araújo Pereira – Presidente da Província do Rio Grande do Norte em 1924 – que vinha passando de geração em geração até chegar às suas mãos, mediante doação feita por José Augusto Bezerra de Medeiros. Nós não sabíamos o porquê, mas respeitávamos a determinação.

Os anos se passaram, entremeados com visitas ao Seridó, pousando na Cacimba do Meio, onde a figura principal era José Bezerra de Araújo. Nesses dias agradáveis, aprendi a gostar da terra e descobrir o seu significado. Segui rumo diverso, mesmo tendo um pai fazendeiro, sem, contudo, privar-me de visitas, pelo menos anuais, a Currais Novos, especificamente durante as comemorações da festa de Santana, enquanto meu avô estava vivo.

No percurso entre Natal e Currais Novos, observava o caminho até o Seridó. O cheiro de estrume de gado fazia relembrar os bons dias vividos na fazenda. As lembranças ficaram bem guardadas, sem saber que um dia iriam aflorar, expostas em folhas de papel, agora, por meio digital.

Cinco anos após a morte de meu avô foi inaugurado, pelo governo do Estado, o parque de exposição agropecuárias da cidade de Currais Novos, que recebeu o nome de Dr. José Bezerra de Araújo, em sua homenagem. Na ocasião, a ideia de escrever um livro sobre sua vida engatinhava. Pensando nisso, minha avó Yvete pediu-me para elaborar um discurso para a ocasião. As palavras fluíram sem muitas dificuldades.

Para descrevê-lo, preferi definir o povo de Currais Novos – cidade da região do Seridó, sertão do Estado do Rio Grande do Norte, Nordeste semiárido do Brasil, fundada graças à ação dos criadores de gado, que desbravaram a caatinga seca à procura de pouso para as reses, lá encontrando o lugar ideal para fincar raízes, que se perpetuaram em seus descendentes.

Um povo que está ligado diretamente à terra, que penetra em seu corpo, entranha e cria raízes, pois é dela que se sustenta. Essa integração faz do homem um ser que reage conforme os fenômenos da natureza. E a natureza no sertão não é complacente. De tempo, em tempo, castiga o solo com a estiagem. A seca queima, embrutece, deixa marcas, mas parece que a cada desafio fortalece mais e mais o homem. Sua alma tem fibra, é pura, é forte, está enraizada e revigora a cada invernada, quando as chuvas caem, fazendo renascer o verde. A alegria aflora no semblante de todos.

O discurso foi o primeiro passo para a elaboração do livro. Quis relatar a vida de meu avô, registrando os costumes de sua comunidade, a influência do progresso nesse meio, o deslocamento do homem do campo para a cidade e o seu retorno às origens.

Na sua longa existência, sofrendo com a escassez de água, ele viveu uma busca constante à procura de sinais de chuva. Saindo de sua terra para conhecer novos horizontes, descobriu o mar, por ele encantando-se. A visão do líquido precioso em abundância era um conforto para seus olhos. Levou o resto de seus dias, seguindo o rastro das águas, fosse das chuvas no Seridó, fosse no encontro com as águas do litoral, eis porque o título do livro.

Das pesquisas e depoimentos recolhidos, relatei sua vida, inserindo-o no contexto sócio, histórico e cultural de seu tempo. Só então compreendi o significado da bengala-cajado. Numa visão sucinta, narrei os acontecimentos mundiais, nacionais e locais, dos quais ele participou, ora como espectador, ora como protagonista. Mas que de qualquer maneira, influenciaram a sua vida e a daqueles que viveram nesse século de transformações rápidas.

Se para a época, as transformações processaram-se rapidamente, como passar dos anos e a velocidade das mudanças, num futuro bem próximo, poderão ser consideradas lentas demais para os padrões futuristas. Mas pelo menos estarão registradas para os muitos que ainda virão e que, assim como eu, poderão resgatar a história, graças aos registros escritos que permanecem intactos à ação do tempo.

Ele morreu dez anos antes do final do século XX. Foi sepultado na sede do município de Currais Novos. Posteriormente, seus restos mortais foram descansar no solo da fazenda Cacimba do Meio, atendendo à vontade que expressou em vida.

Apesar de descansar em sua terra querida, sua lembrança permanece viva entre aqueles que conviveram com ele, nos lugares por onde passou. Graças a essas lembranças pude resgatar seus hábitos e costumes que traduzem, não só a sua existência, mas a de muitos que viveram, em algum momento da vida, as alegrias e amarguras proporcionadas pelo amado sertão.  

AGRADECIMENTO

Na tentativa de apresentar ao leitor um bom trabalho de reconstituição de épocas passadas, necessário se faz considerar, sobretudo, dois aspectos: uma boa fonte de pesquisa e a tranquilidade para organizar as ideias. Sobre o primeiro aspecto, as informações chegam das mais variadas fontes: através de depoimentos verbais ou escritos, jornais, obras literárias, documentários ou de arquivos de vídeo.

No caso de “No Rastro das Águas” foi de fundamental importância o relato, embora entrecortado de rompantes apaixonados, de vovó Yvete, que representou a memória viva daquele com que compartilhou muitos dos seus bem vividos 101 anos, e à capacidade de memorização de Haroldo, meu pai, conhecedor dos costumes do Seridó – simpatizante do estudo de memória de um povo –, que relembrou fatos importantes da época em que viveu seu pai, numa boa visão crítica dos acontecimentos.

Não é tarefa fácil, para uma pessoa nascida depois de muitos dos fatos aqui relatados, tentar resgatar e descrever situações passadas. Vivendo num tempo em que os costumes e as facilidades são bem diversos daqueles de outrora, é necessário deixar tudo isso de lado e tentar incorporar o espírito da época narrada, usando, inclusive, a sua linguagem.

O material chegado às minhas mãos, fornecido por meio de pessoas amigas, entre elas, Olavo de Medeiros Filho, José Augusto Othon, Genibaldo Barros e Sílvio Procópio, além da contribuição já citada de meu pai, de minha avó e das demais pessoas que me prestaram depoimentos, críticas e opiniões, a exemplo de Oswaldo Lamartine, Celina Bezerra e Diógenes da Cunha Lima, constituíram-se, ao lado das fontes consultadas, o instrumento de viabilização do meu objetivo.

Trabalhada a pedra bruta, a lapidação final ficou nas mãos dos conhecedores desta nossa complicada, porém bela, língua portuguesa. Professor Lisboa, na primeira parte, e Marly Rocha Medeiros de Vargas no todo, que soube tão bem compreender a minha mensagem.

A coragem para escrever, talvez tenha vindo do exemplo de minha mãe, Selma, que sempre buscou zelar pela criação de seus filhos, incentivando-os e apoiando-os nas mais diversas horas, sem deixar de exercer seu papel de mulher; tomando o bonde da História e inserindo-se nas conquistas femininas, que nos dão força e independência para executar as mais diversas tarefas.

Mesmo diante de tão vasto auxílio, de nada me adiantaria o material examinado, se não tivesse a tranquilidade necessária para organizar e colocar no papel tudo aquilo que senti. Essa tranquilidade só foi possível graças à harmonia existente entre nós, meu marido Henrique e meus filhos, Luiz Henrique e Cecília. Henrique, um incentivador constante desta iniciativa, os filhos, alegrando nosso lar, com a espontaneidade da infância. Além deles, minha avó materna, Aliete, que muito me ajudou, desempenhando bem mais do que as atribuições de avó e bisavó, zelando pela educação de meus filhos e até reclamando do tempo que o livro me consumiu, em detrimento da atenção que deveria ser dispensada a meus filhos.

A todos vocês, inclusive o leitor, o meu muito obrigada.

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2 comments

  1. Prima li todos os capítulos aqui, publicados e narrado por você, mergulhei em casa um na ansiedade do proximo , parabéns por eztalubdalinda história de dr. José Bezerra e dona yvete.bj carinhoso, há guardo com intenso carinho o que escreveu de Adriano, muitas vezesme vejo lendo e relendo. 💖💖💖

    1. Oi Lorena, que bom que gostou e aguardou com ansiedade cada capítulo. Compartilhe à vontade, tem muito de nossas histórias como descendentes de seridoenses.
      O texto sobre Adriano foi escrito como uma bela homenagem.
      Muito obrigada pelo carinho e siga acompanhando as novas crônicas. Beijo grande!

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