No Rastro das Águas – Capítulo 34 e 35

(…)

Os trinta dias logo se passam, para tristeza dos avós maternos, que logo serão privados da companhia de seu primeiro neto. Os paparicos aumentam e a saudade começa a bater. Em abril, Yvete e José Bezerra retornam a Currais Novos. Vão ao encontro de Antônio Bezerra, aflito para conhecer seu primeiro neto. Seu temperamento alegre e brincalhão ressurge com toda força. Seu encantamento é visível, bem mais perceptível do que o de seu filho. Nesse aspecto, José Bezerra era bem mais parecido com sua mãe. Haroldo veio dar novo ânimo à vida de seu avô paterno, que desde muito cedo demonstrava especial carinho para com as crianças.


Capítulo 34

O sino da Igreja convocava os fiéis para a missa das seis horas. O dia começava cedo em Currais Novos. Com o sol já alto, o movimento intensificava-se. Os fazendeiros já tinham partido, a cavalo, para inspecionar o trabalho em suas terras, devendo retornar lá pelas dez horas. Os burros, com as cangalhas carregadas de barris, transportavam água para o abastecimento das casas. Logo a meninada dirigia-se ao Grupo Escolar Capitão-Mor Galvão. O mercado público era ponto de encontro. Ali ficava a bodega de Manoel Macaco, onde os homens se reuniam para colocar os assuntos em dia. Falavam de chuva, de futebol, de política, de cangaço e de outros assuntos de interesse masculino. De lá percebiam todo o movimento da cidade; ficavam quase defronte à Prefeitura e podiam ver quando o Prefeito Tristão de Barros adentrava o edifício, construído em 1933, muitas vezes seguido por seu único filho, Genibaldo Barros, de apenas oito anos.

Com o inverno assegurado, o município respirava aliviado, pois a labuta de seus filhos estava garantida. Mudava até o humor de seus habitantes e as conversas esbanjavam leveza, alegria, descontração. Reunidos na bodega de Manoel Macaco, José Bezerra, Sr. José Leônidas Galvão, Sr. Quintino Medeiros, entre outros, tratavam de questões futebolísticas.

O esporte preferido pela maioria dos brasileiros também tinha seus praticantes em Currais Novos e desde 1930 que resolveram fundar um clube local, para disputar campeonatos. De início formaram o “Tiro de Guerra 217”, no qual José Bezerra jogou na posição de ponta. Já em 1934, Zuzu Pereira organizou o Currais Novos Esporte Clube, que formou a base para o Seridó Esporte Clube. O ponta foi deslocado para uma posição que fazia jus à sua moral, a de juiz das partidas. O time disputava partidas locais e na redondeza. Os jogos eram animados, a torcida vibrava com os passes, as avançadas, os dribles, as defesas e os gols. Explodiam entusiasmadas quando a bola ultrapassava o limite da trave. As disputas eram acirradas, mas o juiz sempre conseguia manter a disciplina em campo. Sua moral era tanta, que bastava um olhar para que os jogadores obedecessem. Em alguns momentos, pareciam estar vendo a figura de seu avô.

O Coronel José Bezerra, contrariando o que muita gente tem associado às ações dos coronéis, não fazia uso da força para conseguir ser respeitado. Sua própria figura exalava confiança, respeito, obediência. Suas ações não eram questionadas, apenas cumpridas. Se precisasse prender alguém, não utilizava armamentos ou emissários, bastava apenas a força de sua palavra e o acusado dirigia-se, por seus próprios pés, ao xadrez.

Numa certa ocasião, o Coronel foi convidado para um casamento, só porque entre os presentes estaria um baderneiro da vizinhança. O pai da noiva explicou a situação e solicitou sua ajuda. Ele não só compareceu à cerimônia, como lá chegando pediu ao próprio que tomasse conta de seu cavalo, enquanto festejava com os nubentes, ressaltando que não confiava essa função a qualquer um. Ao fim da noite, ele continuava firme, segurando as rédeas do cavalo, não arredou o pé um minuto sequer. Quando foi embora, o Coronel agradeceu a prontidão, explicou o motivo do castigo e avisou que nunca mais queria ouvir falar de confusão, envolvendo o nome de tal sujeito. A ordem foi cumprida à risca e ninguém nunca mais reclamou dele. Essa característica do Coronel José Bezerra fora assimilada por seu neto.

A moral de juiz de futebol de José Bezerra fez fama. Os jogadores currais-novenses respeitavam-no prontamente e não admitiam contestações. Certa vez, numa partida disputada em Caicó, município importante da região, xingaram a mãe do juiz. Seu amigo, Jacó Pires, que era da seleção currais-novense, não gostou e, fazendo uso de seu corpaço, partiu para a agressão física. Foi preciso o próprio ofendido interferi, para que a partida não terminasse em pancadaria, pois ele sempre foi avesso a intrigas e confusões, procurando sempre um tom conciliador, muito embora exigisse respeito.

Retornando à conversa jogada fora no antigo mercado, o papo desviava-se para o cangaço, um pouco esquecido diante da efervescência política do país. O bando de Lampião continuava a espalhar terror pelos sertões pernambucano, baiano, sergipano e alagoano, desafiando os macacos que continuavam em seu encalço, sem obterem sucesso. Por felicidade, os bandidos mantinham-se distantes do Rio Grande do Norte, mas de quando em quando se tinha alguma notícia das atrocidades cometidas. Como não chegavam a um consenso e como o adiantado da hora apertava o roncar de barrigas famintas, retornavam às suas casas, não sem antes combinarem um carteado para a parte da tarde.

Almoço posto à mesa, José Bezerra fazia questão de cumprir o horário das refeições. Em sua casa, a cebola não entrava, mesmo assim a comida simples era saborosa e ganhava um sabor especial sendo feita no fogão a lenha. Como ainda não dispunham de geladeira, abasteciam-se apenas de alimentos não perecíveis. Batata-inglesa e tomate não era costume na região. Fruta, apenas a melancia e o melão. Nos dias de abate, comiam carne fresca; no restante, somente carne-de-sol ou carnes salgadas, ou mesmo alguma galinha morta no dia.

Yvete tentava agradar o paladar de seu marido e coordenava o trabalho da cozinha. Com Haroldo mamando, suas energias eram logo consumidas. Para fortalecer-se, ela utilizava o mel de engenho, enviado por seus pais. Algumas especialidades da Zona da Mata passavam a ser introduzidas no cardápio sertanejo.

Após o almoço, com o mormaço aquecendo a cidade, nada mais justo do que um pequeno cochilo. Todos procuravam o frescor de suas residências, pois do lado de fora o sol exibia-se com todas as forças. A cidade só retomaria seu movimento, quando o sol esfriasse. Ao entardecer era a hora de colocar as cadeiras nas calçadas e observar os transeuntes.

Genibaldo, filho do Prefeito, aproveitava a hora para brincar nas proximidades da casa do Professor Gilberto Pinheiro, Secretário Municipal, pois seu pai encontrava-se em Natal, numa missão oficial.

Tão logo Dr. Rafael Fernandes tomou posse no cargo de Governador, em 29 de outubro de 1935, Tristão de Barros, farmacêutico e currais-novense por opção, muito benquisto e atuante no município, foi indicado pelos líderes municipais, dentre eles Vivaldo Pereira, Dr. Tomaz Salustino e Coronel Antônio Rafael de Vasconcelos Galvão, todos simpatizantes do Partido Popular, para ser nomeado Prefeito pelo Governador recém-empossado.

Após a Intentona Comunista, o governo federal desencadeou uma caça generalizada aos comunistas. Propagou o perigo que os marxistas representavam para pátria e estimulou os responsáveis pelos estados e municípios a relatarem quaisquer pessoas ou movimentos suspeitos. Em janeiro de 1936, Carlos Prestes foi localizado e preso. Criou-se uma verdadeira onda de terror. Tristão de Barros recebeu determinações para denunciar possíveis envolvimentos comunistas em seu município.

Preocupado, o Prefeito de Currais Novos viu-se com um problema nas mãos. Um pouco antes do movimento revolucionário de 1935, o oficial do exército Sebastião Batista Bezerra, que percorria o interior do Estado, recrutando pessoal para o serviço militar, aproveitou sua passagem pelo município para pregar, junto aos trabalhadores rurais, a doutrina comunista e tentar conquistar adeptos para o movimento.

Tomando conhecimento do fato, Tristão sentiu-se na obrigação de denunciar o ocorrido, mas não estava bem certo de sua decisão. Se por um lado achava que o acontecido fazia parte do passado, de outro, levava em consideração o fato de a Intentona ter sido deflagrada na Capital de seu Estado, e, portanto, não seria seguro arriscar rebeliões futuras, mesmo sabendo que as investigações sobre o ocorrido tinham concluído que a punição de oficiais indisciplinados e a interpretação errônea de um telegrama codificado foram as causas para a deflagração prematura do movimento revolucionário em Natal. Contudo, uma omissão de sua parte poderia, no futuro, ocasionar sérios riscos à região. Como autoridade municipal e imbuído de espírito patriota, concluiu que seria mais correto denunciar o ocorrido. Preparou o relatório e dirigiu-se à Capital.

Um mensageiro esbaforido chegou apressadamente à casa do Professor Gilberto Pinheiro, trazendo a notícia do assassinato do Prefeito Municipal. Vinha tão chocado, que narrou o ocorrido sem prestar atenção no garoto que brincava na calçada. Ao ouvir aquelas palavras, Genibaldo parou imediatamente a brincadeira. Na inocência da idade, percebeu a gravidade da situação e um medo enorme avolumou-se enquanto corria desenfreado em busca dos braços protetores de sua mãe, D. Severina, que se encontrava em casa.

Souberam, então, que logo após entregar a denúncia no 21º B.C., Tristão de Barros fora seguido pelo denunciado. Não se soube ao certo se prevaleceu o espírito de corporação dos oficiais, ou se os comunistas ainda se mantinham ativos dentro dos quartéis; de qualquer forma, o denunciado tomou conhecimento rapidamente do objeto da denúncia. O oficial Sebastião Batista Bezerra esperou o Prefeito afastar-se do batalhão e abordou-o atrás do antigo mercado municipal. Foi logo atirando, sem chance de defesa. Mesmo baleado, Tristão, conhecido por sua forte resistência física, conseguiu agarrar seu agressor e chegou a travar uma luta corporal, mas o assassino frio e cruel descarregou vários tiros no corpo indefeso de sua vítima.

A tranquilidade de Currais Novos foi abalada. Os comunistas conseguiam, mais uma vez, perturbar a vida pacata dos sertanejos. Genibaldo e sua terra viram-se, prematuramente, órfãos de seu responsável. Depois de tantas ponderações, Tristão de Barros escolheu a denúncia como forma de proteger sua pátria; sua atitude custara sua vida. Morreu no dia 21 de abril de 1936, aos quarenta anos, no dia da morte de Tiradentes. A Maçonaria tomou as providências para o traslado do corpo. Mesmo sem ter nascido ali, pois era natural de Santana do Matos, Tristão de Barros foi enterrado no município que escolheu para viver e estabelecer-se. O povo, ainda chocado com o assassinato covarde, foi despedir-se emocionado daquele que escolhera Currais Novos para seu lar, trabalhando por ele e incentivando seus valores culturais.


Capítulo 35

A caminho da fazenda Jaú, José Bezerra refletia sobre a decisão que deveria tomar. Montado em seu cavalo, pisava em solo conhecido, estava à vontade e deixou que a força da natureza lhe penetrasse. O silêncio só era quebrado pela respiração do animal, um ou outro calango nas folhas secas, um grasnar forte de um pássaro. O momento de isolamento não poderia ser melhor para reflexão.

O passo firme do cavalo marcava o ritmo de seus pensamentos. A nova Constituição Estadual, promulgada no início do ano, determinava a realização de eleições diretas para escolha dos Prefeitos municipais. Após a morte de Tristão de Barros, o Governador nomeou o sr. Tomaz Silveira de Araújo para ocupar o cargo vago. Com a proximidade das eleições, a efervescência política tomava conta de Currais Novos, dominando todas as conversas. Os líderes políticos buscavam os nomes para disputarem a segunda eleição direta do município. A primeira tinha acontecido em 1928.

O povo estava eufórico para votar. O nome de José Bezerra surgiu como opção do Partido Popular. Apesar da pouca idade, a juventude poderia ser uma aliada: representaria cara nova numa época de mudanças políticas, ainda mais quando ele era considerado um homem sério, seguro, que impunha respeito, ao que se somava o fato de ser aliado do Governador. Todos esses argumentos foram expostos e ele pediu um tempo antes de aceitar a proposta. Conversou com Yvete, que lhe deu todo o apoio; mesmo assim, retirou-se para refletir.

Sentia-se envaidecido com a sugestão de seu nome. Aos vinte e oito anos, agradecia a seus pais a formação recebida. Orgulhoso de ter concluído seus estudos, achava-se preparado para a missão. Nascera naquelas terras, sabia lidar com ela, percebia suas riquezas, enfrentava seus problemas, conhecia a aflição de seus conterrâneos. Sempre se mostrava interessado e participativo nas questões municipais. Fazia parte de seu temperamento, gostava de expressar sua opinião, mesmo que não fosse atendido, mas sentia-se na obrigação de falar. Os anos passados fora de seu lar permitiram voos mais altos, ensinaram-lhe a abrir portas, buscar desafios, encontrar soluções. Adquirira experiência e segurança. Essa última transbordava sem seu porte altivo, aristocrático. O cargo de Prefeito lhe traria prestígio.

Um tropeço num seixo de pedra, o cavalo baixa a cabeça e um solavanco nas rédeas desvia o rumo do pensamento, antes dirigido para a certeza da vitória, mas José Bezerra teria que enfrentar a disputa majoritária. O vento mudou, os votos de cabresto começavam a ficar para trás. A eleição seria secreta, o tempo da liderança inconteste de seu avô passava a fazer parte da memória. A vitória não era certa, a derrota podia muito bem se fazer presente. Era preciso estar preparado para enfrentá-la e não a encarar como humilhação, mas como parte inseparável da vontade da maioria.

O caminho estreitava-se, os garranchos do percurso, de vez em quando, provocavam arranhões. Se a pouca idade não viesse a tornar-se uma aliada, pelo menos serviria para retomadas futuras, pois uma vez dentro da política, seria difícil abandoná-la, diziam os mais velhos. José Bezerra sentia o gosto da disputa e uma certeza começava a tomar conta de si. O sangue fervia. A lembrança do movimento da casa de seu avô veio à tona. Quando criança, ficava extasiado com a chegada das pessoas em busca de um conselho, um auxílio, uma solução para seus problemas, sendo sempre atendidas por seu avô. Agora chegava sua vez. Caso eleito, estaria no lugar do Coronel José Bezerra; nesse afã, esperava poder retribuir a confiança.

Embrenhado no mato, deparou-se com uma picada. Apeou do cavalo e deslumbrou-se com a vista. Lá embaixo, no vale, estava sua cidade, Currais Novos. Quase no topo da Serra de Santana, com a região a seus pés, a paisagem descortinou-se envolvendo-o, inebriando-o. A encarnação do Coronel José Bezerra se fez presente. De repente, suas dúvidas dissiparam-se; sentindo a força da responsabilidade, teve certeza de sua decisão. Não poderia esquivar-se ao chamado de sua terra; amava-a profundamente e tudo faria para manter a tradição de seus antepassados. Respirou o ar puro aliviado, sentindo a leveza dominá-lo.

Disputou a eleição contra Joaquim Pegado, Quincó, e saiu vitorioso. Em 15 de julho de 1937 assumiu a Prefeitura, em plena comemoração da padroeira de sua cidade. Recebeu, de imediato, as bênçãos de Santana. A posse foi em clima de festa. O enorme salão do primeiro andar da Prefeitura servia para os bailes da cidade. Todo iluminado, ficava rodeado de cadeiras, com as senhoritas e senhoras elegantemente sentadas, aguardando um convite para dançar. O espírito festivo do povo desabrochava com toda força no mês de julho. Além do Prefeito recém-empossado, também contavam com um novo cônego na cidade. Paulo Herôncio de Melo, mais tarde Monsenhor, acabara de assumir a Paróquia e prometia grande movimentação religiosa.

Mas o entusiasmo de seu povo com a eleição direta durou pouco tempo. A Constituição Federal previa eleições para Presidente ao final de 1937, mas não permitia a reeleição do atual. Aproveitando a onda de anticomunismo, Getúlio Vargas arma o clima para o golpe de Estado. Divulga o suspeito Plano Cohen, que previa a tomada do país pelos comunistas, faz um acordo com os governadores, dissolve o Congresso. Em 10 de novembro de 1937, faz um pronunciamento à nação, promulga uma nova Constituição e institui o Estado Novo. O líder da Revolução de 1930, que pregava o fim das oligarquias no poder e a implantação de um sistema democrático de governo, torna-se um ditador.

O acordo que Getúlio Vargas fez com os governadores garantiu a permanência deles nos respectivos cargos. O mesmo aconteceu com os prefeitos municipais. José Bezerra, mesmo sendo contrário ao governo federal, mas aliado de Dr. Rafael Fernandes, permaneceu no cargo, sem data prevista para terminar o mandato. Currais Novos contava, à época, com aproximadamente vinte mil habitantes, concentrados basicamente na zona rural. Viviam da agricultura, plantando e colhendo o ouro branco que se espalhava em seu solo e criando o gado solto na caatinga. Não possuíam hospital. A educação era precária, oferecida a uma minoria, filha dos mais abastados. Filhos de pobres não tinham acesso à escola, nem ao menos dispunham de uma.

Dentro dessa realidade, José Bezerra passou a administrar os escassos recursos da Prefeitura, e assim tornou-se um homem público. Não precisou alterar seu comportamento. Nascido e criado numa sociedade pequena e conservadora, sob rígidos padrões de educação, qualquer que fosse a postura, fosse do homem público, fosse do homem privado, sua retidão de caráter estaria sempre presente.


Acesse também: No Rastro das Águas – Capítulo 29, Capítulo 30, Capítulo 31 e Capítulos 32 e 33.

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