Noite na serra

A geografia acidentada, os contornos das serras e o volume de pedras gigantescas em saliência deixam a visão tonta de tanta beleza, surpreendendo em todas as direções.

Mas o cair da tarde revela uma nova surpresa. A luz natural esmaecendo e pontilhões de luzes começam a piscar, incessantemente, denunciando a presença humana em cidades circunvizinhas. Uma quase continuidade infinita.

Falo da Serra de São Bento, interior do Rio Grande do Norte, onde a altitude – 400m aproximadamente – já faz uma diferença invejável ao calor incessante do nordeste brasileiro.

Em meados de abril, a lua surgiu “amostrada” como disse um morador da região. Uma superlua não anunciada. A grande bola alaranjada impingindo sua força, prenúncio da chuva do dia seguinte. Tão logo desprendeu-se da linha do horizonte, foi modificando sua cor, trazendo uma luz incandescente sobre a região.

Com tanta luminosidade, foi possível distinguir os contornos das serras, clarões contínuos em cidades maiores, amontoados de fachos cintilantes em povoados menores. Luzes isoladas de alguma fazenda, onde a energia elétrica conseguiu alcançar. Presença humana aproveitando os ares do campo.

Quinze dias mais tarde, quando o céu intensamente estrelado revelou um filete de lua nova, as luzes das cidades realçaram o olhar, que nem luzes de Natal cintilando em época de paz. De vez em quando, um farol de moto ou mesmo de carro serpenteia ladeira abaixo, parecendo carrinho de brinquedo. E eu seguindo seu rastro, quem nem um obturador da câmera no modo bulb.

No céu, estrelas, mais estrelas, constelações, cintilando na escuridão, um chão distante pontilhado de luzes que dá vontade de tocar. Não as conte, pode surgir verruga em seu dedo, diz o dito popular. Não me importo, mas para não dar brecha ao azar, melhor admirar somente com o olhar.

Respiro o cheiro do mato noturno. Silêncio que não se cala. Cantoria de cigarras, sapos e rãs, agradecendo a chuva que chegou molhando a terra ressequida, ressuscitando os seres vivos, exalando o cheiro, o som da vida, as cores da natureza.

Quase madrugada, a brisa fria transforma-se em cruviana. Agasalho aconchegante. Impossível fechar os olhos, não é insônia, é plenitude mesmo. Vontade de parar o tempo, abraçar a paz, perpetuar esse momento divino.


Manuel Bandeira

A Estrela

Vi uma estrela tão alta, 
Vi uma estrela tão fria! 
Vi uma estrela luzindo 
Na minha vida vazia. 

Era uma estrela tão alta! 
Era uma estrela tão fria! 
Era uma estrela sozinha 
Luzindo no fim do dia. 

Por que da sua distância 
Para a minha companhia 
Não baixava aquela estrela? 
Por que tão alto luzia? 

E ouvi-a na sombra funda 
Responder que assim fazia 
Para dar uma esperança 
Mais triste ao fim do meu dia. 

Gilberto Gil – Estrela

Acesse também: Serra de São Bento

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6 comments

  1. Obrigada por me apresentar ao seu céu/paraíso.
    Sempre é bom ir à serra;papo bom, comida boa sem falar na paisagem ,que nos faz relaxar para voltar à rotina.

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