O Ateliê de Aécio

Quadro de Aécio Emerenciano

Quem passa ao largo, ignora.

Também, com o mar à frente descortinando o verde que varia do mais escuro na linha do horizonte, passando pelo esmeralda dos canais mais profundos e chegando ao “baldeado” pelo movimento das águas rasas, não podia ser diferente.

A primeira providência desse alguém é deleitar-se com o quebra-mar, um pouco mais lá dentro, acusando a presença dos arrecifes submersos que, aqui e acolá, escurecem o verde marinho, vindo dar quase na praia, junto aos botes que descansam seus motores, enquanto seus pescadores repousam nos leitos de suas Marias. As jangadas, escassas, mas ainda presentes, por exigirem mais esforço, têm direito a regalias: com seus panos brancos e encardidos recolhidos, escoram-se nos troncos partidos dos coqueiros, adormecidas nas brancas areias da praia.

Se, por curiosidade ou descuido, alguém resolve seguir a linha do ocaso, descobre as casas perfiladas daqueles que, numa curta temporada anual, desfrutam dessa dádiva natural. Apurando a vista, depara-se com uma casa branca, de janelas e portas amarelas, ornadas com figuras coloridas. Detendo-se mais um pouco, no terreno contínuo, um caixote de madeira pintado de branco destoa.

Do tamanho para abrigar alguns poucos, plantou-se num lugar privilegiado, nem se importando com a aparência. Ao contrário dos casulos, as janelas, abertas à vontade do seu dono, denunciam o movimento interno. Para os poucos que são convidados a entrar, uma surpresa a cada canto.

Em oposição à mesmice do branco externo, as cores pasteis interiores dão vida ao ambiente. Não restrito ao térreo, que abriga as instalações e apetrechos para satisfazerem, com algum conforto, as necessidades básicas do ser humano, uma escada bem colocada leva ao andar superior.

Atapetado, com espelhos em tamanhos diversos, recantos e encantos guardam os objetos íntimos de toda uma vida. Com uma alegria quase infantil, seu dono despe alguns de seus segredos. Uma parede falsa, uma tábua levantada, uma portinhola fechada são alguns dos seus tantos esconderijos. Para não ficar fechado, não denunciar movimento, ou quem sabe expor sua vontade de observar, cada lado tem seu lugar de espreita, brechar faz mais jus ao lugar. Se não quiser se espiado, de qualquer ponto cardeal, é melhor não se aproximar.

São as armas de um recluso, que escolheu ali para meditar. Entre cestos, urupemas, uma rede armada, uma cama arrumada, cálices, copos, aperitivos, fotografias (antigas e atuais), prateleiras e armários, recolhe-se para produzir, repousar, refletir, relembrar.

De ouvir falar, as velhas barcas desembarcando o sal para levar o doce açúcar dos engenhos. Vaidoso, veio dar na praia de veraneio da aristocracia canavieira, Muriú, caiu em seus encantos. Das velhas lembranças, namoros, amores, luares, serenatas, restava o trapiche a marcar presença.

Recluso, incluso, fechado em seu ar produzido, sente a maresia e o cheiro do sargaço – que nunca abandonou seu mar – penetrarem por entre suas frestas. De janela em janela, deixa a luz entrar. Explode em cores: amarelo, verde, azul, vermelho, laranja. É o sol, o mar, o céu, o peixe, o caju, as cores vivas dos pinceis de Aécio Emerenciano.


Iaperi Araújo

Cores alegres, vibrantes e iluminadas. Parecem cantorias ao sol. Loas à natureza, vibrações aos trópicos.

Dorian Gray Caldas

Aécio, sempre o mesmo, transmite a sua simpatia humana. Verdadeiro, versátil, incorruptível na sua maneira de ser, o enfant terrible, o pintor surpreendente, amigo solidário, com a vantagem da surpresa mironiana da pintura inventiva, inteligente e surpreendente da sua trajetória do fazer. Límpida com seus frutos oceânicos, suas cestarias de cores vulcânicas, no momento da surpresa das cores quentes.

Flávio Freitas

A alegria, a exuberância, a nordestinidade de sua obra são totalmente espontâneas e verdadeiras. Aécio, o ser humano, é mesmo assim. Sua presença, como sua obra, são testemunhos de seu amor pela vida, pela nossa terra e pelos tantos amigos.

Odilon Ribeiro Coutinho

A meu ver, Aécio é um pintor talássico. Mesmo quando ele pinta o canavial, adivinha-se que o canavial está quase à beira-mar. Os peixes, os cajus – presença obsessiva na obra do artista –, tudo na sua pintura lembra o mar, como que nos faz sentir cheiro de mar. As flore de Aécio são intensamente tropicais e talássicas.

Citações extraídas do livro A natureza viva de Aécio Emerenciano / Organização de Fátima Arruda, Carlos Alberto Emerenciano, Alexandre Barros. Natal: Infinita Imagem, 2009.


Entrevista com Margot Ferreira em 13/07/2013

Leia também: Memórias Roubadas.

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4 comments

  1. O texto emociona. Ele, Aécio, imprimiu em tamanho gigante o texto de Elza e pendurou no alpendre da casa. Lembranças da Velha Vila de Muriú e de um de seus veranistas. Parabéns.

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